Dois irmãos sãos, casados com duas irmãs — uma surda-muda e uma sã: se morreu o são, marido da surda-muda, o que fará o são, marido da sã? Ela é liberada por causa da irmã da esposa. Se morreu o são, marido da sã, o que fará o são, marido da surda-muda? Ele divorcia sua esposa com um get, e a esposa de seu irmão ele libera por chalitzá. — Quando o marido da irmã surda-muda morre primeiro, a viúva sã cairia para yibum perante o outro irmão — mas, como ele já está casado com a irmã dela (a surda-muda), a proibição de duas irmãs a isenta completamente. Já quando é o marido da irmã sã quem morre primeiro, a viúva sã cai para yibum perante o irmão casado com a surda-muda; como o vínculo dela — proveniente de um casamento pleno — é mais forte do que o vínculo dele com sua própria esposa surda-muda, ele deve divorciar a esposa surda-muda com um get. Mas, ao contrário do caso anterior, aqui ele mesmo é são de mente e pode realizar a chalitzá plenamente — e como a cunhada também é sã, a chalitzá entre ambos é válida e a libera definitivamente, sem deixá-la numa situação sem solução.
Esta mishná mostra o outro lado da moeda do terceiro princípio de Rambam: quando ambos os irmãos são sãos de mente, mesmo que uma das esposas seja surda-muda, a chalitzá continua plenamente disponível — pois ela depende da capacidade do marido que a realiza, não da esposa que ele já tem. Por isso, aqui, o resultado nunca chega a um beco sem saída: ou a irmã é isenta pela proibição de duas irmãs, ou é liberada com sucesso pela chalitzá.
O mesmo terceiro princípio de Rambam, já exposto na Mishná 14:3, rege este caso — mas agora com resultado favorável, pois o marido sobrevivente pode realizar a chalitzá.
O mesmo princípio de Rambam — de que o vínculo mais forte da cunhada obriga o marido a divorciar sua própria esposa quando esta tem um casamento deficiente — se aplica aqui com um desfecho diferente: como o marido sobrevivente é ele mesmo são de mente, a chalitzá lhe é plenamente possível, e por isso ele consegue liberar definitivamente a cunhada, em vez de deixá-la proibida para sempre, como ocorreria se ele fosse surdo-mudo.
A halachá aqui segue diretamente a estrutura já explicada por Bartenura na Mishná 14:4 — o mesmo mecanismo, mas com resultado bem-sucedido, já que ambos os cônjuges neste segundo caso são sãos de mente e podem realizar a chalitzá.
Os clássicos não dedicam um comentário separado a esta mishná porque seu mecanismo é idêntico ao já explicado na anterior: a viúva com casamento pleno tem zika mais forte do que a esposa de casamento deficiente, obrigando o divórcio desta última. A única diferença é que aqui ambas as partes da chalitzá — o cunhado sobrevivente e a viúva — são sãs de mente e podem pronunciar e responder a fórmula verbal 'e disse... e disse ela' exigida pela chalitzá, permitindo que ela se realize plenamente e a liberte de vez, sem o desfecho sem solução da mishná anterior.