Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud-Dalet · Mishná 5 de 9

Dois irmãos sãos casados com uma surda-muda e uma sã

שְׁנֵי אַחִים פִּקְחִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quinta mishná inverte o eixo do caso anterior: agora são os dois irmãos que são sãos, e a diferença de capacidade está entre as duas irmãs esposas. O mesmo terceiro princípio de Rambam volta a determinar o resultado — mas, desta vez, ambos os irmãos podem realizar chalitzá quando necessário.

Dois irmãos sãos, casados com duas irmãs — uma surda-muda e uma sã: se morreu o são, marido da surda-muda, o que fará o são, marido da sã? Ela é liberada por causa da irmã da esposa. Se morreu o são, marido da sã, o que fará o são, marido da surda-muda? Ele divorcia sua esposa com um get, e a esposa de seu irmão ele libera por chalitzá.Quando o marido da irmã surda-muda morre primeiro, a viúva sã cairia para yibum perante o outro irmão — mas, como ele já está casado com a irmã dela (a surda-muda), a proibição de duas irmãs a isenta completamente. Já quando é o marido da irmã sã quem morre primeiro, a viúva sã cai para yibum perante o irmão casado com a surda-muda; como o vínculo dela — proveniente de um casamento pleno — é mais forte do que o vínculo dele com sua própria esposa surda-muda, ele deve divorciar a esposa surda-muda com um get. Mas, ao contrário do caso anterior, aqui ele mesmo é são de mente e pode realizar a chalitzá plenamente — e como a cunhada também é sã, a chalitzá entre ambos é válida e a libera definitivamente, sem deixá-la numa situação sem solução.

שְׁנֵי אַחִים פִּקְחִים נְשׂוּאִים לִשְׁתֵּי אֲחָיוֹת, אַחַת חֵרֶשֶׁת וְאַחַת פִּקַּחַת, מֵת פִּקֵּחַ בַּעַל חֵרֶשֶׁת, מַה יַּעֲשֶׂה פִקֵּחַ בַּעַל פִּקַּחַת, תֵּצֵא מִשּׁוּם אֲחוֹת אִשָּׁה. מֵת פִּקֵּחַ בַּעַל פִּקַּחַת, מַה יַּעֲשֶׂה פִקֵּחַ בַּעַל הַחֵרֶשֶׁת, מוֹצִיא אֶת אִשְׁתּוֹ בְגֵט, וְאֶת אֵשֶׁת אָחִיו בַּחֲלִיצָה.

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 18:18
וְאִשָּׁה אֶל־אֲחֹתָהּ לֹא תִקָּח לִצְרֹר לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ
E não tomarás uma mulher e sua irmã, para as afligir, descobrindo a nudez de uma além da outra, em vida de ambas.

Esta mishná mostra o outro lado da moeda do terceiro princípio de Rambam: quando ambos os irmãos são sãos de mente, mesmo que uma das esposas seja surda-muda, a chalitzá continua plenamente disponível — pois ela depende da capacidade do marido que a realiza, não da esposa que ele já tem. Por isso, aqui, o resultado nunca chega a um beco sem saída: ou a irmã é isenta pela proibição de duas irmãs, ou é liberada com sucesso pela chalitzá.

Halachot · הֲלָכוֹת

O mesmo terceiro princípio de Rambam, já exposto na Mishná 14:3, rege este caso — mas agora com resultado favorável, pois o marido sobrevivente pode realizar a chalitzá.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 14:3 (aplicado a 14:5)
וּלְפִיכָךְ מוֹצִיא אֶת אִשְׁתּוֹ בְּגֵט וְאֶת אֵשֶׁת אָחִיו בַּחֲלִיצָה, כְּגוֹן שֶׁיִּהְיֶה הוּא פִקֵּחַ וְהַחֲלִיצָה אֶפְשָׁרִית לוֹ

O mesmo princípio de Rambam — de que o vínculo mais forte da cunhada obriga o marido a divorciar sua própria esposa quando esta tem um casamento deficiente — se aplica aqui com um desfecho diferente: como o marido sobrevivente é ele mesmo são de mente, a chalitzá lhe é plenamente possível, e por isso ele consegue liberar definitivamente a cunhada, em vez de deixá-la proibida para sempre, como ocorreria se ele fosse surdo-mudo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

A halachá aqui segue diretamente a estrutura já explicada por Bartenura na Mishná 14:4 — o mesmo mecanismo, mas com resultado bem-sucedido, já que ambos os cônjuges neste segundo caso são sãos de mente e podem realizar a chalitzá.

Bartenura (por extensão da Mishná 14:4) · בַּרְטְנוּרָא
Ver comentário à Mishná Yevamot 14:4, aplicado aqui
וְאֶת אֵשֶׁת אָחִיו בַּחֲלִיצָה, לְפִי שֶׁשְּׁנֵיהֶם פִּקְחִים וְאֶפְשָׁר בָּהֶם וְאָמַר וְאָמְרָה

Os clássicos não dedicam um comentário separado a esta mishná porque seu mecanismo é idêntico ao já explicado na anterior: a viúva com casamento pleno tem zika mais forte do que a esposa de casamento deficiente, obrigando o divórcio desta última. A única diferença é que aqui ambas as partes da chalitzá — o cunhado sobrevivente e a viúva — são sãs de mente e podem pronunciar e responder a fórmula verbal 'e disse... e disse ela' exigida pela chalitzá, permitindo que ela se realize plenamente e a liberte de vez, sem o desfecho sem solução da mishná anterior.