Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud-Bet · Mishná 6 de 6 — fim do perek

O procedimento completo da chalitzá, e a casa do sapato descalçado

מִצְוַת חֲלִיצָה. בָּא הוּא וִיבִמְתּוֹ לְבֵית דִּין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do perek narra, do início ao fim, o cerimonial completo da chalitzá diante do tribunal — o aconselhamento inicial, as declarações em hebraico, o descalçar, o cuspir, e a evolução histórica da leitura completa da passagem, até a disputa final sobre quem deve proclamar a frase de encerramento.

O preceito da chalitzá: ele e sua cunhada vêm ao tribunal, e eles lhe dão o conselho apropriado para ele, como está dito: "e os anciãos de sua cidade o chamarão e falarão com ele." E ela diz: "meu cunhado se recusa a estabelecer para seu irmão um nome em Israel, meu cunhado não quis." E ele diz: "não quis tomá-la." E em língua sagrada diziam. "E sua cunhada se aproximará dele diante dos olhos dos anciãos, e descalçará seu sapato do pé dele, e cuspirá em seu rosto" — cuspe visível aos juízes. "E ela responderá e dirá: assim se fará ao homem que não construir a casa de seu irmão." Até aqui liam. E quando Rabi Hurkanos leu sob o carvalho em Kfar Eitam e completou toda a passagem, ficou estabelecido que se completasse toda a passagem. E seu nome é chamado em Israel: "casa do descalçado do sapato." É preceito para os juízes, e não é preceito para os alunos. Rabi Yehudá diz: é preceito para todos os presentes ali dizerem "descalçado o sapato, descalçado o sapato, descalçado o sapato."A mishná encerra o perek narrando o cerimonial ideal completo: o casal comparece ao tribunal, os juízes tentam primeiro dissuadi-los ou aconselhá-los adequadamente conforme suas circunstâncias pessoais, e só então, se o cunhado ainda se recusa, seguem-se as declarações formais em hebraico — dela, dele, o descalçar, o cuspir, e a proclamação final. Um desenvolvimento histórico é registrado: originalmente lia-se apenas até certo ponto do versículo, mas Rabi Hurkanos, ensinando publicamente sob uma árvore em Kfar Eitam, passou a completar toda a passagem bíblica, prática que se tornou padrão. E a mishná fecha com a disputa entre a opinião anônima, que reserva aos próprios juízes a proclamação final, e Rabi Yehudá, que estende esse preceito a todos os presentes na cerimônia.

מִצְוַת חֲלִיצָה. בָּא הוּא וִיבִמְתּוֹ לְבֵית דִּין, וְהֵן מַשִּׂיאִין לוֹ עֵצָה הַהוֹגֶנֶת לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר, וְקָרְאוּ לוֹ זִקְנֵי עִירוֹ וְדִבְּרוּ אֵלָיו. וְהִיא אוֹמֶרֶת, מֵאֵן יְבָמִי לְהָקִים לְאָחִיו שֵׁם בְּיִשְׂרָאֵל, לֹא אָבָה יַבְּמִי. וְהוּא אוֹמֵר, לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ. וּבִלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ הָיוּ אוֹמְרִים. וְנִגְּשָׁה יְבִמְתּוֹ אֵלָיו לְעֵינֵי הַזְּקֵנִים וְחָלְצָה נַעֲלוֹ מֵעַל רַגְלוֹ וְיָרְקָה בְּפָנָיו, רֹק הַנִּרְאֶה לַדַּיָּנִים. וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יִבְנֶה אֶת בֵּית אָחִיו, עַד כָּאן הָיוּ מַקְרִין. וּכְשֶׁהִקְרָא רַבִּי הֻרְקְנוֹס תַּחַת הָאֵלָה בִּכְפַר עֵיטָם וְגָמַר אֶת כָּל הַפָּרָשָׁה, הֻחְזְקוּ לִהְיוֹת גּוֹמְרִין כָּל הַפָּרָשָׁה. וְנִקְרָא שְׁמוֹ בְּיִשְׂרָאֵל בֵּית חֲלוּץ הַנָּעַל. מִצְוָה בַדַּיָּנִין, וְלֹא מִצְוָה בַתַּלְמִידִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מִצְוָה עַל כָּל הָעוֹמְדִים שָׁם לוֹמַר, חֲלוּץ הַנָּעַל, חֲלוּץ הַנָּעַל, חֲלוּץ הַנָּעַל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:7-10
וְאִם־לֹא יַחְפֹּץ הָאִישׁ לָקַחַת אֶת־יְבִמְתּוֹ... וְקָרְאוּ־לוֹ זִקְנֵי־עִירוֹ וְדִבְּרוּ אֵלָיו... וְנִגְּשָׁה יְבִמְתּוֹ אֵלָיו לְעֵינֵי הַזְּקֵנִים וְחָלְצָה נַעֲלוֹ מֵעַל רַגְלוֹ וְיָרְקָה בְּפָנָיו... וְנִקְרָא שְׁמוֹ בְּיִשְׂרָאֵל בֵּית חֲלוּץ הַנָּעַל
E se o homem não quiser tomar sua cunhada... e os anciãos de sua cidade o chamarão e falarão com ele... e sua cunhada se aproximará dele diante dos olhos dos anciãos, e descalçará seu sapato do pé dele, e cuspirá em seu rosto... e seu nome será chamado em Israel: "casa do descalçado do sapato."

A mishná final do perek reproduz, quase palavra por palavra, a passagem completa da Torá sobre a chalitzá — do aconselhamento inicial dos anciãos até o nome que passa a identificar publicamente o homem que se recusou a fazer o yibum. A nota histórica sobre Rabi Hurkanos ilustra como a prática ritual concreta às vezes precisou de séculos para se padronizar plenamente segundo o texto completo da própria Torá — a leitura originalmente se detinha na declaração da mulher, mas passou a incluir também a resposta final dela, "assim se fará ao homem", completando o círculo textual que a Torá já continha desde o princípio.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o critério do "conselho apropriado" e decide a disputa final a favor de Rabi Yehudá, fechando o perek.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 12:6
פֵּרוּשׁ עֵצָה הַהוֹגֶנֶת לוֹ, שֶׁאִם הָיָה הוּא קָטָן בְּשָׁנִים וְהִיא זְקֵנָה, אוֹ הוּא זָקֵן וְהִיא קְטַנָּה, יוֹעֲצִין לוֹ שֶׁיַּחְלֹץ וְלֹא יְיַבֵּם. וְאִם הָיְתָה הוֹגֶנֶת לוֹ מִצַּד שְׁנוֹתָם, יוֹעֲצִים לוֹ שֶׁיְּיַבֵּם יוֹתֵר מִשֶּׁיַּחְלֹץ. וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Rambam explica o que significa o "conselho apropriado" que o tribunal deve oferecer: se o cunhado é jovem e a cunhada idosa, ou o inverso, aconselham-no a fazer a chalitzá e não o yibum — pois um casamento tão desigual em idade dificilmente prosperaria. Mas se a idade dela é apropriada para a dele, aconselham-no a preferir o yibum à chalitzá, seguindo o valor superior atribuído ao cumprimento pleno da mitzvá original. E Rambam decide a disputa final do perek a favor de Rabi Yehudá: é preceito que todos os presentes na cerimônia, não apenas os juízes, proclamem "descalçado o sapato" três vezes ao final do ato.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura resume o aconselhamento do tribunal e a ordem das declarações; Rashi, na Guemará, fecha o perek com o contexto de Kfar Eitam e a formalização do texto lido.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 12:6
עֵצָה הַהוֹגֶנֶת לוֹ — אִם הוּא יֶלֶד וְהִיא זְקֵנָה, הוּא זָקֵן וְהִיא יַלְדָּה, אוֹמְרִים לוֹ מַה לְּךָ אֵצֶל יַלְדָּה, מַה לְּךָ אֵצֶל זְקֵנָה, כַּלֵּךְ אֵצֶל שֶׁכְּמוֹתְךָ. קוֹרְאָה מֵאֵן יְבָמִי, וְקוֹרֵא לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ, חוֹלֶצֶת וְרוֹקֶקֶת וְקוֹרְאָה כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר מִצְוָה עַל כָּל הָעוֹמְדִים שָׁם לוֹמַר חֲלוּץ הַנָּעַל שָׁלֹשׁ פְּעָמִים

Bartenura ilustra concretamente o "conselho apropriado" com a fórmula que os juízes diriam: "o que você tem a ver com uma jovem" ou "o que você tem a ver com uma idosa — vá para alguém da sua idade." Detalha também a sequência exata das declarações e ações: primeiro ela declara "meu cunhado se recusa", depois ele declara "não quis tomá-la", e só então ela descalça o sapato, cospe, e proclama "assim se fará ao homem" — nessa ordem precisa. E confirma que a halachá segue Rabi Yehudá, que estende a todos os presentes, não apenas aos juízes, o preceito de proclamar "descalçado o sapato" três vezes.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 106b
מַתְנִיתִין עֵצָה הַהוֹגֶנֶת לוֹ — כַּלֵּךְ אֵצֶל שֶׁכְּמוֹתְךָ, וְאַל תַּכְנִיס קְטָטָה לְתוֹךְ בֵּיתְךָ. בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ הָיוּ אוֹמְרִים — בְּמַסֶּכֶת סוֹטָה נָפְקָא לָן מִקְּרָאֵי בְּפֶרֶק אֵלּוּ נֶאֱמָרִין. בִּכְפַר עֵיטָם — בְּתַלְמִידִים הַיּוֹשְׁבִים שָׁם לִפְנֵי רַבָּן בִּשְׁעַת הַחֲלִיצָה. וְהִלְכְתָא כְּמָר זוּטְרָא — דְּכוֹתְבִין, דְּלָא דָּמֵי לְכוֹתֵב מְגִלָּה לְתִינוֹק לְהִתְלַמֵּד בָּהּ, דְּהָתָם אַדַּעְתָּא דְּפָרָשְׁתָא כְּתִיב לֵיהּ, אֲבָל הַאי סְפִירַת דְּבָרִים הוּא וְלָאו בִּקְדֻשָּׁתֵיהּ הוּא

Fechando o perek, Rashi explica que o "conselho apropriado" tinha essencialmente o objetivo de evitar um casamento desigual que traria discórdia constante ao lar — "vá para alguém da sua idade". Confirma que a exigência de falar em hebraico (lashon hakodesh) para todas as declarações da chalitzá deriva, por comparação textual, das leis da sotá, discutidas no tratado homônimo. Sobre Kfar Eitam, esclarece que Rabi Hurkanos ensinava ali publicamente para alunos sentados diante dele durante uma chalitzá real, e ao completar toda a passagem bíblica em voz alta, fixou o costume para as gerações seguintes. A Guemará discute ainda, nota Rashi, se é permitido escrever um "get chalitzá" — um documento registrando toda a passagem lida — concluindo que sim, pois trata-se de um registro de fatos e não de um texto com a santidade da própria Torá, encerrando assim, com essa nota técnica, o Perek Yud-Bet, dedicado inteiramente à mecânica processual e ritual do ato de chalitzá.