Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud-Bet · Mishná 2 de 6

Sandália emprestada, sandália de madeira, e a chalitzá noturna

חָלְצָה בְסַנְדָּל שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema do calçado, a mishná valida casos de posse duvidosa, madeira e tamanho incomum, e depois se volta para duas questões de tempo e lateralidade: chalitzá à noite e chalitzá no pé esquerdo, ambas objeto de disputa com Rabi Eliezer.

Se ela fez a chalitzá com uma sandália que não era dele, ou com uma sandália de madeira, ou com a do pé esquerdo no pé direito, sua chalitzá é válida. Se ela fez a chalitzá com uma grande, que ele consegue andar nela, ou com uma pequena, que cobre a maior parte do seu pé, sua chalitzá é válida. Se ela fez a chalitzá à noite, sua chalitzá é válida — e Rabi Eliezer invalida. No pé esquerdo, sua chalitzá é inválida — e Rabi Eliezer valida.A mishná amplia o leque de calçados válidos: não precisa ser propriedade do cunhado, pode ser de madeira desde que revestida de couro, e mesmo trocado de lado (esquerdo no pé direito) ainda vale, contanto que sirva normalmente. O tamanho também é flexível, desde que funcional. Já quanto ao horário, a opinião anônima permite a chalitzá noturna, enquanto Rabi Eliezer a invalida, exigindo o dia — por analogia com outros julgamentos do tribunal. E quanto ao pé: a opinião anônima exige o pé direito, invalidando a chalitzá feita apenas no esquerdo, enquanto Rabi Eliezer a permite também no esquerdo.

חָלְצָה בְסַנְדָּל שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ, אוֹ בְסַנְדָּל שֶׁל עֵץ, אוֹ בְשֶׁל שְׂמֹאל בַּיָּמִין, חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה. חָלְצָה בְגָדוֹל שֶׁהוּא יָכוֹל לַהֲלוֹךְ בּוֹ, אוֹ בְקָטָן שֶׁהוּא חוֹפֶה אֶת רֹב רַגְלוֹ, חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה. חָלְצָה בַלַּיְלָה, חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה, וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר פּוֹסֵל. בַּשְּׂמֹאל, חֲלִיצָתָהּ פְּסוּלָה, וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר מַכְשִׁיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 21:5, por analogia (gezerá shavá com "ריב")
כִּי בָם בָּחַר ה׳ אֱלֹהֶיךָ לְשָׁרְתוֹ... וְעַל פִּיהֶם יִהְיֶה כָּל רִיב וְכָל נָגַע
Pois neles escolheu o Eterno teu Deus para servi-Lo... e por sua palavra se decidirá toda disputa (riv) e toda praga (negá).

A Guemará compara a palavra "riv" (disputa), usada tanto para a chalitzá quanto para o julgamento das pragas de pele (negaim), e deriva daí que ambos exigem luz do dia — pois a Torá diz sobre a praga "no dia em que se vir nela". É essa comparação verbal que fundamenta a posição de Rabi Eliezer, invalidando a chalitzá feita à noite; a opinião anônima da mishná, porém, não aceita essa comparação como decisiva o bastante para invalidar retroativamente um ato já realizado, e por isso permite a chalitzá noturna em retrospecto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam decide a halachá final entre a mishná e Rabi Eliezer nos dois pontos de disputa.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 12:2
בְּשֶׁל עֵץ עַל מְנָת שֶׁיִּהְיֶה מְחֻפֶּה עוֹר, וְזֶה כֻּלּוֹ בְּדִיעֲבַד אֲבָל לְכַתְּחִלָּה אֵינוֹ מֻתָּר. וְאֵין הֲלָכָה כְּתַנָּא קַמָּא בְּאָמְרוֹ חָלְצָה בַלַּיְלָה חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה, וְלֹא כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בִּהְיוֹתוֹ מַכְשִׁיר בַּשְּׂמֹאל

Rambam esclarece primeiro que a sandália de madeira só é válida se estiver revestida de couro por fora — e mesmo assim, tudo isso vale apenas em retrospecto, não sendo permitido fazê-lo assim de início. Quanto às duas disputas com Rabi Eliezer, Rambam decide de forma dividida: a halachá segue Rabi Eliezer quanto à chalitzá noturna — invalidando-a, contra a opinião anônima da mishná — mas não segue Rabi Eliezer quanto ao pé esquerdo, mantendo a exigência do pé direito como a opinião anônima estabelece. Assim, tanto o horário quanto o lado exigem o padrão mais rigoroso: dia, e pé direito.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura resume a decisão final sobre dia e lado; Rashi, na Guemará, explica o caso do pé amputado e a base da comparação com o julgamento noturno.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 12:2
בְּסַנְדָּל שֶׁל עֵץ כְּשֵׁרָה — וְהוּא שֶׁיִּהְיֶה מְחֻפֶּה עוֹר. חָלְצָה בְגָדוֹל — שֶׁהָיָה הַסַּנְדָּל גָּדוֹל מִמִּדַּת רַגְלוֹ, אִם יָכוֹל לַהֲלֹךְ בּוֹ חֲלִיצָתוֹ כְּשֵׁרָה. אוֹ בְקָטָן — מִמִּדַּת רַגְלוֹ, אִם חוֹפֶה אֶת רֹב רַגְלוֹ חֲלִיצָתוֹ כְּשֵׁרָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּמַה שֶּׁפּוֹסֵל חֲלִיצָה בַּלַּיְלָה, וְאֵין הֲלָכָה כְּמוֹתוֹ בְּמַה שֶּׁמַּכְשִׁיר חֲלִיצָה בִּשְׂמֹאל

Bartenura confirma que a sandália de madeira precisa estar revestida de couro para ser válida. Sobre o tamanho, explica que uma sandália grande demais ainda serve se o cunhado consegue efetivamente caminhar nela, e uma pequena demais ainda serve se cobre a maior parte do pé — em ambos os casos, o critério é a funcionalidade real do calçado, não sua medida exata. E resume a halachá final: segue-se Rabi Eliezer ao invalidar a chalitzá noturna, mas não se segue sua opinião permissiva quanto ao pé esquerdo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 101a e 104a
מִן הָאַרְכֻּבָּה וּלְמַעְלָה — שֶׁנֶּחְתַּךְ רַגְלוֹ מִן הָאַרְכֻּבָּה וְחָלַץ מִן הָאַרְכֻּבָּה וּלְמַעְלָה. אוֹ בְשֶׁל שְׂמֹאל בַּיָּמִין כְּשֵׁרָה — אֲבָל חֲלִיצָה שֶׁל שְׂמֹאל קָתָנֵי בְּפִרְקִין פְּלוּגְתָּא. לְנְגָעִים — כָּל רִיב וְכָל נֶגַע, מַה נְּגָעִים רְאִיָּתָם בַּיּוֹם דִּכְתִיב וּבַיּוֹם הֵרָאוֹת בּוֹ, אַף רִיבִים בַּיּוֹם, וַחֲלִיצָה דִּין הוּא דְּגוֹבָה כְּתֻבָּתָהּ

Rashi explica o caso do pé cortado acima do joelho: quando a perna foi amputada nesse ponto, e a chalitzá foi feita com o calçado amarrado acima do joelho (onde ainda resta perna), a validade depende dos critérios já discutidos. Sobre a sandália trocada de lado, Rashi nota que essa mesma mishná contém, mais adiante, uma disputa explícita sobre chalitzá feita inteiramente no pé esquerdo — diferente deste caso, em que apenas a sandália (feita para o pé esquerdo) foi calçada no pé direito, o que todos concordam ser válido. E explica a base da comparação com as pragas de pele: a Torá usa a palavra "riv" tanto para disputas judiciais quanto, por extensão, para a chalitzá — que é, em certo sentido, um processo perante o tribunal, do qual decorre inclusive o direito da mulher à sua ketubá — e assim como o julgamento das pragas exige luz do dia, também a chalitzá exigiria, na opinião de Rabi Eliezer.