Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Tet · Mishná 1

"O que semeia teruma"

הַזּוֹרֵעַ תְּרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o Perek Tet: o que semeia teruma por engano deve revirar a terra para que não cresça; mas se o fez deliberadamente, deve deixá-la crescer; se a semente já cresceu um terço de seu tamanho final, revira-se ou não, deve deixá-la; mas no caso do linho, mesmo tendo já crescido um terço, se foi deliberado, deve revirá-la

O que semeia teruma (planta grãos ou sementes que já foram separados como teruma, o que é proibido, pois a teruma deve ser comida e não usada como semente), por engano (sem saber que era proibido semear teruma), deve revirar a terra (arar e revolver o solo para impedir que a semente brote e cresça, desfazendo o mal já feito, sem que isso implique perda alguma, pois a própria semente ainda se considera teruma e pode ser recuperada). E, se o fez deliberadamente (sabendo que era proibido, mas semeou mesmo assim), deve deixá-la (permitir que a plantação cresça normalmente, como penalidade — pois seria estranho que alguém transgrida deliberadamente e ainda beneficie-se revirando a terra a tempo de recuperar a semente intacta; e o que crescer dela terá o status de gidulei teruma, tratado na mishná seguinte). Se ela já trouxe um terço (de seu crescimento completo, isto é, a plantação já atingiu um terço do tamanho que teria quando madura), seja por engano seja deliberadamente, deve deixá-la (pois, chegado esse estágio, é proibido desperdiçar teruma, e revirar a terra destruiria uma plantação já consideravelmente desenvolvida — o que se equipara a uma perda proibida da teruma original). Mas, no caso do linho, se foi deliberado, deve revirá-la (mesmo tendo a plantação de linho já atingido um terço de seu crescimento — pois, diferentemente dos grãos, o linho é cultivado sobretudo por seu caule fibroso, e não pela semente; permitir que cresça livremente faria o transgressor beneficiar-se do caule, sem que este jamais tivesse sido consagrado como teruma, driblando assim a penalidade).

הַזּוֹרֵעַ תְּרוּמָה, שׁוֹגֵג, יוֹפַךְ. וּמֵזִיד, יְקַיֵּם. אִם הֵבִיאָה שְׁלִישׁ, בֵּין שׁוֹגֵג בֵּין מֵזִיד, יְקַיֵּם. וּבְפִשְׁתָּן, מֵזִיד, יוֹפַךְ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná abre o Perek Tet com o princípio de que a teruma é destinada ao consumo do cohen, e não ao replantio — base para toda a discussão sobre a semeadura de teruma que atravessa este capítulo.

Bemidbar (Números) 18:8,12
וַיְדַבֵּר יְהוָה אֶל אַהֲרֹן, וַאֲנִי הִנֵּה נָתַתִּי לְךָ אֶת מִשְׁמֶרֶת תְּרוּמֹתָי... כֹּל חֵלֶב יִצְהָר וְכָל חֵלֶב תִּירוֹשׁ וְדָגָן, רֵאשִׁיתָם אֲשֶׁר יִתְּנוּ לַיהוָה, לְךָ נְתַתִּים.
"E falou o Eterno a Aharon: e Eu, eis que te dei a guarda das Minhas ofertas... todo o melhor do azeite, e todo o melhor do vinho e do grão, suas primícias, que derem ao Eterno, a ti as dei" (Bemidbar 18:8,12) — a teruma é entregue ao cohen como alimento, "guarda" para seu consumo e o de sua casa, e não como semente a ser replantada. Semear a teruma equivale a tratá-la como propriedade produtiva comum, contrariando sua natureza sagrada de porção já separada e destinada ao consumo — daí a exigência de revirar a terra quando isso ocorre por engano, e a penalidade de deixar a plantação crescer (perdendo-se o produto original como alimento) quando ocorre deliberadamente.

Por que a penalidade de "deixar crescer" pune justamente quem age deliberadamente, e por que o linho é tratado de modo diferente mesmo após um terço do crescimento? A lógica desta mishná é a de uma penalidade proporcional e inteligente. Para quem erra sem querer, a halachá busca minimizar o dano: revirar a terra a tempo recupera a teruma como semente ainda reconhecível, sem perda adicional. Mas para quem transgride cientemente, não caberia a mesma lenidade — permitir-lhe revirar a terra e recuperar tudo intacto anularia qualquer efeito dissuasório da proibição. Por isso a halachá o obriga a "deixar", isto é, a arcar com a plantação já em curso, cujo produto terá apenas o status derivado de gidulei teruma (crescimento de teruma), e não mais o da teruma original em si. Uma vez que a plantação atinja um terço do crescimento, porém, a "perda" que a revirada da terra causaria passa a ser considerada demasiado grande para ser permitida mesmo a quem agiu por engano — pois já não se trataria de recuperar uma semente, mas de destruir uma plantação substancial, o que se aproxima de um desperdício proibido de teruma. O caso do linho quebra essa regra apenas porque seu valor econômico está no caule (usado para fiação), não no grão — de modo que, mesmo com a plantação avançada, permitir que cresça livremente equivaleria a permitir que o transgressor deliberado lucre com um material (o caule) que nunca foi, ele próprio, consagrado como teruma.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, incluindo o motivo explícito da penalidade sobre quem semeia deliberadamente.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:20
הַזּוֹרֵעַ אֶת הַתְּרוּמָה בְּשׁוֹגֵג יְהַפֵּךְ בְּמֵזִיד יְקַיֵּם. הֵבִיאָה שְׁלִישׁ בֵּין בְּמֵזִיד בֵּין בְּשׁוֹגֵג יְקַיֵּם. וְאִם הָיָה פִּשְׁתָּן אֲפִלּוּ הֵבִיאָה שְׁלִישׁ וַאֲפִלּוּ בְּמֵזִיד יְהַפֵּךְ. קְנָס קָנְסוּ בּוֹ שֶׁלֹּא יִזְרַע וְיִתְכַּוֵּן לֵהָנוֹת בְּעֵצָיו.
"O que semeia a teruma por engano, deve revirar; deliberadamente, deve deixar. Se ela já trouxe um terço, seja deliberadamente seja por engano, deve deixar. E se era linho, mesmo tendo trazido um terço e mesmo deliberadamente, deve revirar. Uma penalidade impuseram sobre ele, para que não semeie com a intenção de beneficiar-se de seu caule (o Rambam torna explícito que a exceção do linho não é uma leniência, mas justamente o oposto: uma penalidade adicional contra quem tentaria explorar a distinção entre grão e caule para lucrar com a transgressão, deixando claro que toda a estrutura desta halachá — revirar por engano, deixar por dolo, exceto no linho — funciona como um sistema deliberado de incentivos para impedir o replantio da teruma).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o Perek Tet.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 9:1
מותר לו לאדם להפך הארץ ויפסד הזרע שזרע: ואם הוא מזיד יקיים. ענינו שהוא חייב להניחה כדי שיצמחו ויהיה הדבר הצומח תרומה בלי ספק: ואם יהיה הזרע הנזרע פשתן של תרומה יהפך בארץ כאשר יוכל ולא יניחנו לצמח גזרה שמא יהנה בעציו ויחשוב כי הזרע בלבד הוא האסור והיא החוזרת תרומה אבל העצים כמו התבן יחשבו.

É permitido ao homem revirar a terra e perder a semente que semeou (no caso do engano — a lei lhe concede essa permissão como remédio, sem culpa).

"E se foi deliberado, deve deixar": significa que ele é obrigado a deixá-la, para que cresçam e o que crescer seja teruma sem dúvida alguma (o produto que nascer terá o status inequívoco de gidulei teruma).

"E se a semente semeada for linho de teruma": deve revirar a terra o quanto puder, e não deixá-la crescer — decreto, para que não venha a se beneficiar de seu caule e pense que apenas a semente é o que é proibido e que é ela que volta a ser teruma, mas que o caule, como a palha, é considerado sem restrição (o decreto previne exatamente esse raciocínio enganoso: separar mentalmente semente de caule para lucrar com este último).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 9:1
הַזּוֹרֵעַ תְּרוּמָה שׁוֹגֵג יוֹפַךְ. חוֹרֵשׁ וּמְהַפֵּךְ כְּדֵי שֶׁלֹּא יִגְדַּל, וְאֵין בְּכָךְ כְּלוּם: וּמֵזִיד יְקַיֵּם. כֵּיוָן שֶׁנִּקְרָא שֵׁם תְּרוּמָה עַל הַשָּׂדֶה הָיָה נִרְאֶה כִּמְאַבֵּד אֶת הַתְּרוּמָה: וְאִם הֵבִיאָה שְׁלִישׁ אֲפִלּוּ שׁוֹגֵג יְקַיֵּם. מִשּׁוּם דְּאָסוּר לְאַבֵּד אֶת הַתְּרוּמָה: וּבְפִשְׁתָּן מֵזִיד יוֹפַךְ. וַאֲפִלּוּ הֵבִיאָה שְׁלִישׁ, כְּדֵי שֶׁלֹּא יֵהָנֶה בַּקִּסְמִין וְיַחֲשֹׁב שֶׁהַזֶּרַע בִּלְבָד הוּא דַּהֲוֵי תְרוּמָה וְאָסוּר, וְעִקַּר פִּשְׁתָּן מִשּׁוּם קִסְמִין הוּא וְלֹא מִשּׁוּם זֶרַע.

"O que semeia teruma, por engano, deve revirar": ara e revolve a terra para que não cresça, e não há problema algum nisso (pois a semente ainda se considera intacta como teruma).

"E deliberadamente, deve deixar": uma vez que o nome de teruma já foi chamado sobre o campo, pareceria como quem está perdendo a teruma (deixando-a crescer sem revirar, ele evita o aspecto de destruição ativa da teruma, ainda que o resultado prático seja que ela deixa de ser comestível como teruma original).

"E se ela já trouxe um terço, mesmo por engano, deve deixar": porque é proibido perder a teruma (uma vez atingido esse estágio de crescimento, revirar a terra causaria uma perda considerada proibida).

"E no linho, deliberadamente, deve revirar": mesmo tendo já trazido um terço — para que não se beneficie das lascas de madeira (o caule fibroso do linho, usado para fiação e tecelagem) e pense que apenas a semente é que se torna proibida e volta a ser teruma, mas que a essência do linho, por causa das lascas, não é considerada semente (e portanto não estaria sujeita à mesma restrição — o Bartenura confirma aqui a mesma explicação do Rambam sobre o motivo do decreto especial para o linho).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o Perek Tet de Massechet Terumot, que tratará da semeadura da teruma e do status de seus produtos (gidulei teruma e gidulei gidulin), das leis de leket, shichechá e peá e dos dízimos aplicados a campos de teruma plantada, e das combinações de teruma e chulin em canteiros e em produto tevel.