Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Tet · Mishná 2

"E está sujeita a leket, esquecimento e peá"

וְחַיֶּבֶת בְּלֶקֶט וּבְשִׁכְחָה וּבְפֵאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O campo de gidulei teruma (deixado para crescer conforme a mishná anterior) está sujeito a leket, esquecimento e peá; pobres de Israel e pobres cohanim podem colher, mas os pobres de Israel devem vender o seu aos cohanim pelo preço de teruma, e o dinheiro é deles; debate entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva sobre se apenas pobres cohanim devem colher, por receio de que os demais comam por esquecimento

E está sujeita (este campo de teruma que foi deixado para crescer, conforme o caso anterior de semeadura deliberada) a leket (as espigas caídas durante a colheita, que devem ser deixadas para os pobres), e a esquecimento (feixes esquecidos no campo, também deixados aos pobres), e a peá (o canto do campo reservado aos pobres — pois, embora o produto principal seja gidulei teruma, tratado como teruma para fins de proibição a estranhos, ele continua sendo, para efeitos de dízimos e dádivas aos pobres, um produto agrícola comum de Eretz Israel, sujeito a todas as obrigações agrícolas). E os pobres de Israel e os pobres cohanim colhem (ambos podem exercer o direito de colher leket, esquecimento e peá deste campo). E os pobres de Israel vendem o seu (o que colherem) aos cohanim pelo preço de teruma (pois, embora leket, esquecimento e peá sejam normalmente chulin comum, isento de restrições, neste caso específico o produto colhido tem o status derivado de gidulei teruma, proibido a israelitas — por isso, os pobres de Israel não podem comê-lo, mas apenas vendê-lo a um cohen pelo valor equivalente ao de teruma), e o dinheiro é deles (a venda não anula o direito do pobre israelita às dádivas — ele recebe o valor integral em dinheiro, preservando a mitzvá de tzedaká). Rabi Tarfon diz: só os pobres cohanim devem colher (evitando dar acesso aos pobres israelitas), para que não esqueçam e coloquem em suas próprias bocas (comendo inadvertidamente o que ainda tem status de teruma, por hábito de comer livremente o leket, esquecimento e peá comuns). Disse-lhe Rabi Akiva: se assim, só os puros devem colher (pois o mesmo receio de erro se aplicaria igualmente a um cohen impuro, que também poderia esquecer sua condição e comer teruma estando impuro — e, no entanto, ninguém propõe excluir os cohanim impuros; logo, o receio de Rabi Tarfon não é suficiente para excluir os israelitas).

וְחַיֶּבֶת בְּלֶקֶט וּבְשִׁכְחָה וּבְפֵאָה. וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל וַעֲנִיֵּי כֹהֲנִים, מְלַקְּטִים. וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל, מוֹכְרִין אֶת שֶׁלָּהֶם לַכֹּהֲנִים בִּדְמֵי תְרוּמָה, וְהַדָּמִים שֶׁלָּהֶם. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, לֹא יְלַקְּטוּ אֶלָּא עֲנִיֵּי כֹהֲנִים, שֶׁמָּא יִשְׁכְּחוּ וְיִתְּנוּ לְתוֹךְ פִּיהֶם. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, אִם כֵּן, לֹא יְלַקְּטוּ אֶלָּא טְהוֹרִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná aplica ao campo de gidulei teruma as dádivas obrigatórias aos pobres — leket, shichechá e peá — comprovando que ele não perde sua condição de produto agrícola comum sujeito às leis gerais da colheita.

Vayikrá (Levítico) 19:9-10
וּבְקֻצְרְכֶם אֶת קְצִיר אַרְצְכֶם, לֹא תְכַלֶּה פְּאַת שָׂדְךָ לִקְצֹר, וְלֶקֶט קְצִירְךָ לֹא תְלַקֵּט. וְכַרְמְךָ לֹא תְעוֹלֵל, וּפֶרֶט כַּרְמְךָ לֹא תְלַקֵּט, לֶעָנִי וְלַגֵּר תַּעֲזֹב אֹתָם, אֲנִי יְהוָה אֱלֹהֵיכֶם.
"E quando ceifardes a ceifa de vossa terra, não acabarás de ceifar o canto de teu campo, nem colherás o resto de tua ceifa. E de tua vinha não farás rebusca, nem colherás os frutos caídos de tua vinha; para o pobre e para o estrangeiro os deixarás; Eu sou o Eterno, vosso Deus" (Vayikrá 19:9-10) — este mandamento aplica-se, em princípio, a toda plantação que cresce da terra de Israel, sem menção de exceção para campos originados de teruma semeada. É justamente essa generalidade que a mishná explora: como o campo de gidulei teruma continua sendo uma lavoura como qualquer outra do ponto de vista das obrigações agrícolas de tzedaká, também ele deve deixar leket, esquecimento e peá — ainda que o produto colhido, por sua origem em teruma, mantenha a restrição de não poder ser comido por um israelita.

Por que o produto tem duas identidades simultâneas — sujeito a leket, esquecimento e peá como qualquer lavoura, mas vendável apenas por dinheiro de teruma? A tensão desta mishná reflete a natureza dupla dos gidulei teruma: por um lado, a mishná anterior já havia deixado claro que o que cresce fisicamente da terra, alimentado por seus próprios nutrientes, é considerado um novo produto agrícola, sujeito a todas as obrigações gerais que recaem sobre qualquer lavoura de Eretz Israel — dízimos, leket, shichechá e peá. Por outro lado, os sábios decretaram que esse produto continua proibido a estranhos (não-cohanim), como lembrança da teruma original que lhe deu origem, por temor de que o cohen deixasse teruma verdadeiramente impura em sua posse até a época de plantio, criando risco de erro. O resultado é a solução elegante desta mishná: o pobre israelita tem pleno direito às dádivas, como qualquer pobre teria em qualquer campo — mas, como não pode comer o produto em si (por ser gidulei teruma), ele o vende a um cohen pelo valor de mercado de teruma, preservando tanto seu direito de tzedaká quanto a restrição rabínica sobre o consumo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, incluindo a decisão halachica a favor de Rabi Akiva.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:27
שָׂדֶה שֶׁל גִּדּוּלֵי תְּרוּמָה חַיֶּבֶת בְּלֶקֶט שִׁכְחָה וּפֵאָה וּבִתְרוּמָה וּמַעַשְׂרוֹת וּבְמַעֲשַׂר עָנִי. וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל וַעֲנִיֵּי כֹּהֲנִים נוֹטְלִים מִמֶּנָּה מַתָּנוֹת אֵלּוּ. עֲנִיֵּי כֹּהֲנִים אוֹכְלִין אֶת שֶׁלָּהֶם וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל מוֹכְרִין אֶת שֶׁלָּהֶם לַכֹּהֲנִים בִּדְמֵי תְּרוּמָה וְהַדָּמִים שֶׁל עֲנִיִּים.
"Um campo de gidulei teruma está sujeito a leket, esquecimento e peá, e a teruma e dízimos e dízimo do pobre. E os pobres de Israel e os pobres cohanim retiram dele estas dádivas. Os pobres cohanim comem o seu, e os pobres de Israel vendem o seu aos cohanim pelo preço de teruma, e o dinheiro é dos pobres." O Rambam segue aqui a formulação simples da mishná, sem registrar objeção do debate entre Rabi Tarfon e Rabi Akiva como halachá alternativa — a decisão segue Rabi Akiva (como aliás confirma o Bartenura), permitindo que tanto pobres cohanim quanto pobres israelitas colham as dádivas, sem restrição adicional por temor de esquecimento.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 9:2
מבואר הוא כי כמו שהיא אסורה התרומה לישראל כך היא אסורה לכהן טמא לפי שהיא קדש ואסור לטמא לאכול קדש והלכה כר"ע.

É evidente que, assim como a teruma é proibida ao israelita, também é proibida ao cohen impuro, pois é coisa sagrada, e é proibido ao impuro comer coisa sagrada (esta é a base do argumento de Rabi Akiva: se o receio de Rabi Tarfon fosse decisivo, deveria excluir também o cohen impuro, e não apenas o israelita — mas ninguém propõe tal exclusão, o que revela que o receio, por si só, não basta para restringir o acesso às dádivas). E a halachá é como Rabi Akiva (que permite tanto a pobres israelitas quanto a pobres cohanim colher livremente).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 9:2
בִּדְמֵי תְרוּמָה. דְּגִדּוּלֵי תְרוּמָה אֲסוּרִים לְזָרִים: לֹא יְלַקְּטוּ אֶלָּא עֲנִיֵּי כֹהֲנִים. דְּחַיְשִׁינַן אַדִּמְלַקְּטֵי לֵיהּ שָׁדוּ לְפוּמַיְהוּ: אִם כֵּן לֹא יְלַקְּטוּ אֶלָּא טְהוֹרִים. דְּהָא כֹּהֵן טָמֵא אָסוּר בִּתְרוּמָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

"Pelo preço de teruma": porque os gidulei teruma são proibidos a estranhos (não-cohanim, mesmo que sejam pobres com pleno direito às dádivas).

"Só os pobres cohanim devem colher": porque tememos que, enquanto colhem, coloquem o produto diretamente em suas próprias bocas (hábito comum entre os que colhem leket, esquecimento e peá, que normalmente são chulin sem restrição — mas aqui, sendo gidulei teruma, comê-lo diretamente seria proibido a um israelita).

"Se assim, só os puros devem colher": pois também o cohen impuro é proibido quanto à teruma (o mesmo raciocínio de precaução, aplicado consistentemente, excluiria também os cohanim impuros — e como ninguém sustenta essa exclusão, o receio original não se sustenta como fundamento de lei). E a halachá é como Rabi Akiva.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.