Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Chet · Mishná 9

"Um barril que se quebrou na prensa superior"

חָבִית שֶׁנִּשְׁבְּרָה בַּגַּת הָעֶלְיוֹנָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continua o tema da guarda da teruma: um barril de vinho de teruma que se quebrou na prensa superior, caindo sobre produto comum impuro na prensa inferior — se for possível salvar um quarto de log em pureza, que se salve; se não for possível, Rabi Eliezer diz que desça e se torne impura por si mesma, mas que ninguém a torne impura com as próprias mãos

Um barril (de vinho de teruma) que se quebrou na prensa superior (o lugar onde as uvas são pisadas e o vinho começa a escorrer), e a prensa inferior (o poço ou reservatório abaixo, para onde o vinho escorre) é impura (contém produto comum impuro, ou não é adequada para receber líquido puro) — Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua concordam que, se for possível salvar dela um quarto (de log, uma medida líquida pequena, aproximadamente cento e cinquenta mililitros) em pureza (usando algum recipiente puro para recolher rapidamente parte do vinho antes que ele desça todo à prensa inferior impura), que se salve. E se não (for possível salvar nem essa pequena quantidade em pureza) — Rabi Eliezer diz: que desça e se torne impura (deixando o vinho escorrer naturalmente até a prensa inferior, onde se tornará impuro por contato, sem qualquer intervenção humana direta), mas que ninguém a torne impura com suas próprias mãos (não se deve apressar ativamente o processo, tocando ou despejando o vinho manualmente na prensa impura, mesmo sabendo que o resultado final será o mesmo — a impureza deve ocorrer por si mesma, pelo curso natural dos acontecimentos, e não por ação humana deliberada sobre a teruma).

חָבִית שֶׁנִּשְׁבְּרָה בַּגַּת הָעֶלְיוֹנָה, וְהַתַּחְתּוֹנָה טְמֵאָה, מוֹדֶה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, שֶׁאִם יְכוֹלִים לְהַצִּיל מִמֶּנָּה רְבִיעִית בְּטָהֳרָה, יַצִּיל. וְאִם לָאו, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, תֵּרֵד וְתִטַּמֵּא, וְאַל יְטַמְּאֶנָּה בְיָדָיו:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná trata do princípio de que não se deve ativamente contaminar a teruma, mesmo quando sua impureza final é inevitável, com base na proibição bíblica de tornar impuro o que é sagrado.

Vayikrá (Levítico) 22:15-16
וְלֹא יְחַלְּלוּ אֶת־קָדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֵת אֲשֶׁר־יָרִימוּ לַיהוה. וְהִשִּׂיאוּ אוֹתָם עֲוֺן אַשְׁמָה בְּאָכְלָם אֶת־קָדְשֵׁיהֶם.
"E não profanarão as coisas sagradas dos filhos de Israel, que oferecem ao Eterno. E lhes causariam culpa de transgressão, ao comerem as coisas sagradas deles" (Vayikrá 22:15-16) — a proibição de "profanar" as coisas sagradas é entendida, pela tradição oral, como incluindo o ato de tornar impura a teruma deliberadamente. Por isso, mesmo quando a impureza final do vinho é praticamente inevitável (por não haver como salvá-lo em pureza), a halachá exige que se evite qualquer ação humana ativa que efetivamente cause essa impureza — permitindo apenas que ela ocorra pelo curso natural dos acontecimentos, sem intervenção direta das mãos.

Por que a distinção entre "descer e se tornar impura" e "torná-la impura com as mãos" é juridicamente relevante, mesmo quando o resultado final é o mesmo? À primeira vista, a distinção desta mishná pode parecer meramente formal: seja lá o que se faça, o vinho acabará impuro de qualquer maneira, uma vez que não há como salvá-lo. Mas a halachá distingue precisamente entre a impureza que resulta de um processo natural (o vinho escorrendo por gravidade até a prensa inferior, sem que ninguém o toque ou o direcione deliberadamente) e a impureza causada por ação humana direta (alguém despejando ou empurrando ativamente o vinho para dentro do recipiente impuro). A primeira é vista como uma perda lamentável mas passiva, semelhante a um acidente; a segunda seria um ato ativo de profanação da teruma, mesmo que o resultado material seja idêntico. Esta distinção reflete um princípio mais amplo do direito talmúdico, segundo o qual a intenção e o modo da ação humana têm peso jurídico próprio, independentemente do resultado físico alcançado — e reaparecerá, de modo ainda mais explícito, na mishná seguinte e no princípio geral formulado por Rabi Yehoshua ao final deste bloco de mishnayot.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná quase literalmente em Hilchot Terumot, confirmando a halachá final segundo Rabi Yehoshua (mencionada explicitamente apenas na mishná seguinte, mas já pressuposta aqui).

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 12:4
חָבִית שֶׁנִּשְׁבְּרָה בַּגַּת הָעֶלְיוֹנָה וְהַתַּחְתּוֹנָה טְמֵאָה. אִם יָכוֹל לְהַצִּיל מִמֶּנָּה רְבִיעִית בְּטָהֳרָה יַצִּיל, וְאִם לָאו יַצִּיל בְּיָדָיו בְּלֹא נְטִילַת יָדַיִם, וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא מְטַמְּאָהּ, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בְּעִנְיָן טָהֳרוֹת.
"Um barril que se quebrou na prensa superior, e a inferior é impura: se pode salvar dela um quarto em pureza, que salve; e se não, que salve com as mãos, sem lavagem das mãos, ainda que a torne impura, como se explicará no assunto das leis de pureza." Notavelmente, o Rambam aqui já antecipa a halachá final (que segue Rabi Yehoshua, conforme explicitado na mishná seguinte): não apenas se permite que a impureza ocorra passivamente, mas até se permite tocar ativamente no vinho para tentar salvá-lo — mesmo sabendo que as mãos, sem a lavagem ritual apropriada, tornarão o vinho impuro no processo — pois o objetivo de salvar o máximo possível prevalece sobre a preocupação de causar essa impureza específica e limitada.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:9
זו החבית. ר"ל בחבית של תרומה: ואמרו ואל יטמאנה בידיו. ענינו שלא יסייע בירידת היין לגת התחתונה שהיא טמאה אבל יניחנה ותשפך באיזה מקום שישפך ואין הלכה כר"א אלא כמו שיתבאר מדעת ר' יהושע.

Este "barril": refere-se a um barril de teruma.

E disseram "que ninguém a torne impura com as mãos": seu significado é que não se auxilie a descida do vinho até a prensa inferior, que é impura, mas que se deixe, e se derrame onde se derramar. E a halachá não é como Rabi Eliezer, mas sim conforme se explicará segundo a opinião de Rabi Yehoshua (na mishná seguinte, que permite ativamente auxiliar mesmo com contaminação das mãos, para salvar o que for possível).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:9
בַּגַּת הָעֶלְיוֹנָה. מָקוֹם שֶׁעוֹצְרִים שָׁם: וְהַתַּחְתּוֹנָה. בּוֹר עַל פְּנֵי הַגַּת שֶׁהַיַּיִן יוֹרֵד לְתוֹכוֹ: טְמֵאָה. חֻלִּין טְמֵאִים יֵשׁ בָּהּ, וּרְאוּיִין לוֹ בִּימֵי טֻמְאָתוֹ, אוֹ לְמִי שֶׁאֵינוֹ אוֹכֵל חֻלִּין בְּטָהֳרָה, וְאִם תִּפֹּל לְתוֹכוֹ הַתְּרוּמָה הֲוָה לֵיהּ מְדֻמָּע טָמֵא, וְאַף לַכֹּהֵן לֹא חַזְיָא: שֶׁאִם יְכוֹלִים לְהַצִּיל מִמֶּנָּה רְבִיעִית. אִם יָכוֹל לְחַזֵּר אַחַר כֵּלִים וּלְהַצִּיל מִמֶּנָּה רְבִיעִית בְּטָהֳרָה קֹדֶם שֶׁתֵּרֵד כֻּלָּהּ וְתִטַּמֵּא: יַצִּיל. יְחַזֵּר אַחַר כֵּלִים וְיַצִּיל, וְאַף עַל פִּי שֶׁבְּתוֹךְ כָּךְ שֶׁיְּחַזֵּר אַחַר כֵּלִים תֵּרֵד מִן הַתְּרוּמָה לַחֻלִּין שֶׁבַּתַּחְתּוֹנָה וְיִפָּסְדוּ הַחֻלִּין, לֹא יְטַמֵּא הַתְּרוּמָה בְּיָדַיִם לְהַצִּיל הַחֻלִּין, כֵּיוָן שֶׁיָּכוֹל לְהַצִּיל מִמֶּנָּה רְבִיעִית הַלֹּג בְּטָהֳרָה, שֶׁהוּא דָּבָר חָשׁוּב: וְאִם לָאו. שֶׁלֹּא יִמְצָא כְּלִי טָהוֹר, וְסוֹף סוֹף כֻּלָּהּ לְטֻמְאָה אַזְלָא, בְּהָא פְּלִיגֵי, דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ סָבַר יְטַמְּאֶנָּה בַּיָּד, לְהַצִּיל אֶת הַחֻלִּין, וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר סָבַר אַף עַל גַּב דְּסוֹף סוֹף כֻּלָּהּ לְטֻמְאָה אַזְלָא, לֹא יְטַמְּאֶנָּה בַּיָּד לְהַצִּיל הַחֻלִּין. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

"Na prensa superior": o lugar onde se pisam as uvas.

"E a inferior": o poço à frente da prensa, para onde o vinho desce.

"É impura": há nela produto comum impuro, próprio para quem está em dias de impureza, ou para quem não come produto comum em pureza; e se a teruma cair nela, torna-se medumá impuro, e nem mesmo ao cohen serve.

"Se podem salvar dela um quarto": se é possível buscar recipientes e salvar dela um quarto em pureza, antes que toda ela desça e se torne impura.

"Que salve": que busque recipientes e salve; e ainda que, enquanto busca os recipientes, a teruma desça ao produto comum na prensa inferior e o produto comum se perca, não se deve tornar a teruma impura com as mãos para salvar o produto comum, já que se pode salvar dela um quarto de log em pureza, o que é algo significativo.

"E se não": não encontrar recipiente puro, e de qualquer modo toda ela vai para a impureza — nisso divergem: Rabi Yehoshua entende que se deve torná-la impura com a mão, para salvar o produto comum; e Rabi Eliezer entende que, ainda que de qualquer modo toda ela vá para a impureza, não se deve torná-la impura com a mão para salvar o produto comum. E a halachá não é como Rabi Eliezer.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.