O coador de vinho (um pano ou peneira usado para filtrar o vinho de um recipiente para outro, colocado sobre a boca do recipiente inferior) é proibido por causa do descobrimento (mesmo que o recipiente inferior esteja, tecnicamente, coberto pelo coador — ainda se considera "descoberto" para efeitos desta lei, pois o veneno de uma cobra, se depositado no vinho que está sendo coado, pode atravessar o próprio tecido do coador junto com o líquido, descendo com ele até o recipiente inferior). Rabi Nechemia permite (entendendo que o veneno, sendo mais denso ou de textura diferente do vinho, flutua na superfície e não atravessa os poros do coador junto com o líquido filtrado, permanecendo retido acima).
Esta mishná continua a série de leis sobre o descobrimento (gilui), agora tratando de um caso limítrofe: um recipiente tecnicamente coberto, mas por um material permeável ao líquido.
Por que o coador não é considerado uma cobertura eficaz segundo a opinião anônima, e qual a base física do argumento de Rabi Nechemia? A opinião anônima (tanna kama) desta mishná entende que a função do coador — permitir a passagem do líquido de um recipiente para outro — implica necessariamente que qualquer substância misturada ao vinho, incluindo um eventual veneno depositado por uma cobra antes de o vinho ser coado, também atravessaria o tecido junto com o próprio vinho, chegando ao recipiente inferior. Por essa razão, a presença do coador não é suficiente para retirar o recipiente inferior da categoria de "descoberto". Rabi Nechemia, em contrapartida, propõe uma distinção física: o veneno de réptil, por sua densidade ou textura diferente da do vinho, tende a flutuar na superfície do líquido em vez de se misturar uniformemente a ele, e por isso, ao ser coado, o veneno permaneceria retido no coador junto com os resíduos sólidos, sem atravessar para o recipiente inferior — tornando este último seguro para consumo, mesmo que o vinho original no recipiente superior estivesse descoberto.
O Rambam não codifica esta mishná com um parágrafo isolado em Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh, mas o princípio geral das leis de gilui, já codificado nesse mesmo local, rege igualmente este caso.
O Rambam não dedica, dentro de Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh, uma halachá isolada especificamente ao caso do coador de vinho — o caso não é mencionado de modo explícito nos capítulos 11-12 dessa obra, que tratam das leis gerais de gilui. Registra-se aqui, honestamente, a ausência de uma halachá dedicada a este caso preciso do coador; o princípio geral já codificado (que todo líquido dos três tipos proibidos por descobrimento permanece proibido enquanto não houver certeza de que o veneno foi neutralizado ou retido) aplica-se, contudo, por extensão lógica, também a este cenário — e o Rambam, no seu Perush HaMishná, confirma explicitamente que a halachá segue a opinião anônima, e não Rabi Nechemia.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
O "coador" é conhecido, e diz-se aqui: sempre que o vinho estiver escorrendo de um recipiente para outro, e o coador estiver sobre a boca do recipiente para onde o vinho escorre, este é proibido por causa do descobrimento, ainda que o coador o cubra — pois se disse que talvez a cobra tenha depositado o veneno no vinho que estava no coador, e ele desceu junto com o vinho para o segundo recipiente.
E Rabi Nechemia diz que o veneno permanece no coador e não desce ao recipiente, porque suas partículas se aderem e se emaranham umas com as outras, e essas partículas não saem pelos orifícios do coador — pois o veneno que sai da cobra tem esse comportamento. E a halachá não é como Rabi Nechemia.
"O coador de vinho": embora o recipiente inferior esteja coberto pelo coador, há nele preocupação com o descobrimento, pois o veneno atravessa o coador e desce para o recipiente inferior.
"Rabi Nechemia permite": pois o veneno flutua e não atravessa. E a halachá não é como Rabi Nechemia.