Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Chet · Mishná 7

"O coador de vinho"

הַמְשַׁמֶּרֶת שֶׁל יַיִן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continua o tema do perigo à vida: o coador de vinho é proibido por causa do descobrimento, mesmo cobrindo o recipiente inferior, pois o veneno pode atravessar o tecido junto com o vinho; Rabi Nechemia permite, entendendo que o veneno flutua e não atravessa

O coador de vinho (um pano ou peneira usado para filtrar o vinho de um recipiente para outro, colocado sobre a boca do recipiente inferior) é proibido por causa do descobrimento (mesmo que o recipiente inferior esteja, tecnicamente, coberto pelo coador — ainda se considera "descoberto" para efeitos desta lei, pois o veneno de uma cobra, se depositado no vinho que está sendo coado, pode atravessar o próprio tecido do coador junto com o líquido, descendo com ele até o recipiente inferior). Rabi Nechemia permite (entendendo que o veneno, sendo mais denso ou de textura diferente do vinho, flutua na superfície e não atravessa os poros do coador junto com o líquido filtrado, permanecendo retido acima).

הַמְשַׁמֶּרֶת שֶׁל יַיִן, אֲסוּרָה מִשּׁוּם גִּלּוּי. רַבִּי נְחֶמְיָה מַתִּיר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná continua a série de leis sobre o descobrimento (gilui), agora tratando de um caso limítrofe: um recipiente tecnicamente coberto, mas por um material permeável ao líquido.

Devarim (Deuteronômio) 4:9
רַק הִשָּׁמֶר לְךָ וּשְׁמֹר נַפְשְׁךָ מְאֹד.
"Somente guarda-te, e guarda muito a tua alma" (Devarim 4:9) — a mesma base do dever de evitar perigo à vida que fundamenta as leis de gilui (mishnayot 8:4 e 8:5) fundamenta o debate desta mishná: a proibição de líquidos descobertos pressupõe que o veneno de uma cobra possa ter sido depositado neles diretamente; o caso do coador testa os limites dessa preocupação, perguntando se um recipiente coberto por um tecido permeável ainda deve ser tratado como "descoberto" para esse efeito, dada a possibilidade física de que o veneno atravesse o material junto com o líquido coado.

Por que o coador não é considerado uma cobertura eficaz segundo a opinião anônima, e qual a base física do argumento de Rabi Nechemia? A opinião anônima (tanna kama) desta mishná entende que a função do coador — permitir a passagem do líquido de um recipiente para outro — implica necessariamente que qualquer substância misturada ao vinho, incluindo um eventual veneno depositado por uma cobra antes de o vinho ser coado, também atravessaria o tecido junto com o próprio vinho, chegando ao recipiente inferior. Por essa razão, a presença do coador não é suficiente para retirar o recipiente inferior da categoria de "descoberto". Rabi Nechemia, em contrapartida, propõe uma distinção física: o veneno de réptil, por sua densidade ou textura diferente da do vinho, tende a flutuar na superfície do líquido em vez de se misturar uniformemente a ele, e por isso, ao ser coado, o veneno permaneceria retido no coador junto com os resíduos sólidos, sem atravessar para o recipiente inferior — tornando este último seguro para consumo, mesmo que o vinho original no recipiente superior estivesse descoberto.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não codifica esta mishná com um parágrafo isolado em Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh, mas o princípio geral das leis de gilui, já codificado nesse mesmo local, rege igualmente este caso.

O Rambam não dedica, dentro de Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh, uma halachá isolada especificamente ao caso do coador de vinho — o caso não é mencionado de modo explícito nos capítulos 11-12 dessa obra, que tratam das leis gerais de gilui. Registra-se aqui, honestamente, a ausência de uma halachá dedicada a este caso preciso do coador; o princípio geral já codificado (que todo líquido dos três tipos proibidos por descobrimento permanece proibido enquanto não houver certeza de que o veneno foi neutralizado ou retido) aplica-se, contudo, por extensão lógica, também a este cenário — e o Rambam, no seu Perush HaMishná, confirma explicitamente que a halachá segue a opinião anônima, e não Rabi Nechemia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:7
המשמרת ידוע ואומר בכאן כ"א יהיה היין שותת מכלי אל כלי אחר ותהיה המשמרת ע"פ הכלי שהיין שותת בו שהיא אסורה משום גלוי אע"פ שהמשמרת מכסה אותו מפני שנאמר שמא הטיל הנחש הארס ביין שהיה במשמרת וירד עם היין אל הכלי השני ורבי נחמיה אומר כי הארס במשמרת ישאר ולא ירד לכלי לפי שחלקים מתדבקין ומסתבכין קצתם עם קצתם ולא יצאו אותם חלקים על נקבי המשמרת כי הארס היוצא מן הנחש זה דרכו ואין הלכה כר' נחמיה.

O "coador" é conhecido, e diz-se aqui: sempre que o vinho estiver escorrendo de um recipiente para outro, e o coador estiver sobre a boca do recipiente para onde o vinho escorre, este é proibido por causa do descobrimento, ainda que o coador o cubra — pois se disse que talvez a cobra tenha depositado o veneno no vinho que estava no coador, e ele desceu junto com o vinho para o segundo recipiente.

E Rabi Nechemia diz que o veneno permanece no coador e não desce ao recipiente, porque suas partículas se aderem e se emaranham umas com as outras, e essas partículas não saem pelos orifícios do coador — pois o veneno que sai da cobra tem esse comportamento. E a halachá não é como Rabi Nechemia.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:7
מְשַׁמֶּרֶת שֶׁל יַיִן. אַף עַל גַּב שֶׁהַכְּלִי הַתַּחְתּוֹן מְכֻסֶּה בַּמְשַׁמֶּרֶת, יֵשׁ בּוֹ מִשּׁוּם גִּלּוּי, שֶׁהָאֶרֶס עוֹבֵר דֶּרֶךְ הַמְשַׁמֶּרֶת וְהוֹלֵךְ לַכְּלִי הַתַּחְתּוֹן: רַבִּי נְחֶמְיָה מַתִּיר. לְפִי שֶׁהָאֶרֶס צָף וְאֵינוֹ עוֹבֵר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי נְחֶמְיָה.

"O coador de vinho": embora o recipiente inferior esteja coberto pelo coador, há nele preocupação com o descobrimento, pois o veneno atravessa o coador e desce para o recipiente inferior.

"Rabi Nechemia permite": pois o veneno flutua e não atravessa. E a halachá não é como Rabi Nechemia.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.