Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Chet · Mishná 3

"Estava comendo um cacho de uvas"

הָיָה אוֹכֵל בְּאֶשְׁכּוֹל וְנִכְנַס מִן הַגִּנָּה לֶחָצֵר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra-se o tema da mudança de condição durante a refeição: quem estava comendo um cacho de uvas como consumo ocasional e entrou do jardim para o pátio, onde se fixa a obrigação do dízimo — debate entre Rabi Eliezer (pode terminar, saindo do pátio) e Rabi Yehoshua (não pode terminar); e quem estava assim comendo quando anoiteceu na sexta-feira à noite, fixando também a obrigação do dízimo — debate invertido entre os dois sábios

Estava comendo (consumo ocasional, não uma refeição formal, do tipo permitido antes da separação do dízimo) um cacho de uvas (colhido no jardim), e entrou do jardim para o pátio (e o pátio é o lugar que fixa a obrigação do dízimo — a partir do momento em que o produto entra no pátio do dono, mesmo o consumo ocasional passa a exigir a separação prévia do dízimo) — Rabi Eliezer diz: que termine (de comer, mas entende-se que ele deve primeiro sair do pátio de volta ao jardim para terminar, pois dentro do pátio mesmo o consumo ocasional já está proibido sem o dízimo). E Rabi Yehoshua diz: que não termine (nem mesmo saindo, pois, uma vez que o produto entrou no pátio e a obrigação se fixou, ela persiste mesmo que ele volte ao jardim). Anoiteceu na sexta-feira à noite (início do Shabat, que, segundo esta opinião, também fixa a obrigação do dízimo mesmo sobre o consumo ocasional, pois nesse momento tudo se torna "pronto" e destinado ao prazer do Shabat) — Rabi Yehoshua diz: que termine (de comer, até a saída do Shabat, mas não durante o próprio Shabat). E Rabi Eliezer diz: que não termine (sequer depois do Shabat, sem antes separar o dízimo).

הָיָה אוֹכֵל בְּאֶשְׁכּוֹל וְנִכְנַס מִן הַגִּנָּה לֶחָצֵר, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יִגְמֹר. וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, לֹא יִגְמֹר. חֲשֵׁכָה לֵילֵי שַׁבָּת, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, יִגְמֹר. וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, לֹא יִגְמֹר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná, embora trate diretamente do dízimo (maasser) e não da teruma em si, encerra a sequência sobre mudança de condição durante a refeição, com fundamento no mesmo princípio de "guarda" que rege as separações sagradas.

Devarim (Deuteronômio) 26:12-13
כִּי תְכַלֶּה לַעְשֵׂר אֶת־כָּל־מַעְשַׂר תְּבוּאָתְךָ בַּשָּׁנָה הַשְּׁלִישִׁת... בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן־הַבַּיִת.
"Quando acabares de dizimar todo o dízimo de tua produção no terceiro ano... eliminei o sagrado da casa" (Devarim 26:12-13) — deste versículo a tradição oral extrai o princípio de que a obrigação plena do dízimo (assim como, por extensão análoga, da teruma) se fixa quando o produto "vê a face da casa" — isto é, quando chega ao lugar de armazenamento final do dono, tornando proibido até mesmo o consumo ocasional (achilat arai) sem antes separar as porções sagradas. O pátio (chatzer) e o início do Shabat são, segundo os respectivos sábios desta mishná, momentos que produzem esse mesmo efeito de "fixação", pois tornam o produto definitivamente destinado ao consumo do proprietário.

Por que o pátio e o início do Shabat fixam a obrigação do dízimo mesmo sobre o consumo ocasional, e por que os dois sábios se invertem entre os dois cenários? A regra geral é que o consumo ocasional (comer de passagem, sem se sentar para uma refeição) é permitido mesmo antes da separação do dízimo, desde que o produto ainda não tenha "visto a face da casa". O pátio do dono é considerado, para Rabi Eliezer, um lugar que ainda permite terminar de comer se a pessoa retornar ao jardim (o lugar original, onde a obrigação ainda não se fixou), mas para Rabi Yehoshua o simples fato de ter entrado no pátio já fixou a obrigação de modo irreversível, mesmo que se volte ao jardim depois. Já quanto ao início do Shabat, a lógica se inverte: Rabi Yehoshua entende que o versículo de Yeshayahu 58:13, "e chamarás ao Shabat de delícia", implica que tudo o que está disponível para comer no Shabat já se considera "pronto" e fixado para consumo — mas apenas até o Shabat propriamente dito, podendo terminar de comer depois de sua saída (מוֹצָאֵי שַׁבָּת), pois durante o próprio Shabat não se pode separar o dízimo, e a permissão persiste. Rabi Eliezer, ao contrário, entende que a chegada do Shabat fixa definitivamente a obrigação, tornando necessário dizimar antes de continuar a comer, mesmo depois de o Shabat terminar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam trata, no Perush HaMishná, o mecanismo da fixação da obrigação do dízimo — matéria que pertence propriamente a Hilchot Maasser, não a Hilchot Terumot.

Esta mishná trata do dízimo (maasser), e não diretamente da teruma — por isso, sua matéria pertence propriamente a Hilchot Maasser (As Leis do Dízimo) do Rambam, e não a Hilchot Terumot. Registra-se aqui, honestamente, que não há uma halachá específica em Hilchot Terumot para este caso, por não ser este seu lugar próprio de codificação; o Rambam, no entanto, no seu Perush HaMishná, já explicita o princípio geral de que "o Shabat fixa para o dízimo" (שַׁבָּת קוֹבַעַת לְמַעֲשֵׂר) do mesmo modo que o pátio, e que a halachá final segue Rabi Yehoshua em ambos os debates desta mishná — tanto o de que não se pode terminar de comer depois de entrar no pátio, quanto o de que se pode terminar de comer na saída do Shabat.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que encerra a primeira parte do Perek Chet.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:3
העיקר אצלנו שאין הטבל מתחייב במעשרות עד שיראה פני הבית שנאמר (דברים כ״ו:י״ג) בערתי הקדש מן הבית וכל הפירות הנאכלים בגנה או בשדה אינו חייב במעשרות לפי שהוא אכילת עראי ועיקר שני והוא כי שבת קובעת למעשר ואסור לו לאכול מן הטבל אכילת עראי בשבת לפי שמשעה שנכנסת שבת הוא הכל מתוקן לאכילה ומוכן ויתחייב למעשר למאמר הש"י וקראת לשבת עונג (ישעיהו נ״ח:י״ג) וכל מה שימצא מוכן שיאכל וישתה ממנו בשבת ועוד יתבאר כל זה במסכת מעשרות ומאמר רבי אליעזר יגמור פרט ובאר כי רצונו שיצא מן החצר ויגמור אבל בחצר אסור לו להשלים האכילה וכמו כן מאמר ר' יהושע יגמור ר"ל שיניחנו עד מוצאי שבת וישלים אכילתו אבל בשבת עצמו אסור לו לאכלו ומה שאמרו שניהם לא יגמור ענינו לא יגמור אכילתו עד שיעשר והלכה כרבי יהושע בשני המאמרים.

O princípio fundamental entre nós é que o tevel (produto do qual ainda não foram separados dízimos e teruma) não se torna obrigado aos dízimos até que "veja a face da casa", pois está dito (Devarim 26:13): "Eliminei o sagrado da casa". E todos os frutos comidos no jardim ou no campo não estão obrigados aos dízimos, pois é consumo ocasional. E o segundo princípio fundamental é que o Shabat fixa a obrigação do dízimo, e é proibido comer do tevel, mesmo em consumo ocasional, no Shabat, porque desde o momento em que entra o Shabat, tudo está pronto para o consumo e preparado, e torna-se obrigado ao dízimo, conforme a palavra do Nome, bendito seja: "e chamarás ao Shabat de delícia" (Yeshayahu 58:13) — e tudo o que se encontrar pronto, que se coma e beba dele no Shabat. E mais se explicará tudo isto na Massechet Maasserot.

E a afirmação de Rabi Eliezer "que termine" é específica, e explica-se que sua intenção é que ele saia do pátio e termine (de comer no jardim), mas dentro do pátio é proibido a ele completar a refeição. E, igualmente, a afirmação de Rabi Yehoshua "que termine", quer dizer que deixe até a saída do Shabat e complete sua refeição, mas no próprio Shabat é proibido a ele comê-lo. E o que ambos disseram "que não termine" significa que não complete sua refeição até dizimar. E a halachá é como Rabi Yehoshua em ambas as afirmações.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:3
הָיָה אוֹכֵל בְּאֶשְׁכּוֹל. תָּלַשׁ אֶשְׁכּוֹל מִגֶּפֶן שֶׁבַּגִּנָּה וְהָיָה אוֹכֵל וְהוֹלֵךְ עַד שֶׁנִּכְנַס לֶחָצֵר, וְחָצֵר קוֹבַעַת לְמַעֲשֵׂר, וַאֲפִלּוּ אֲכִילַת עֲרַאי אֲסוּרָה עַד שֶׁיִּתְרֹם וִיעַשֵּׂר: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר יִגְמֹר. לֹא שֶׁיֹּאכַל בֶּחָצֵר. אֶלָּא יֵצֵא חוּץ לֶחָצֵר וְיִגְמֹר לֶאֱכֹל הָאֶשְׁכּוֹל בַּגִּנָּה: לֹא יִגְמֹר. וַאֲפִלּוּ בַּגִּנָּה, עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר: חֲשֵׁכָה לֵילֵי שַׁבָּת. וְהָיָה אוֹכֵל אֲכִילַת עֲרַאי, וְשַׁבָּת קוֹבַעַת לְמַעֲשֵׂר וַאֲפִלּוּ אֲכִילַת עֲרַאי אֲסוּרָה: יִגְמֹר. לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת, אֲבָל בַּשַּׁבָּת עַצְמוֹ מוֹדֶה דְּאָסוּר: לֹא יִגְמֹר. אֲפִלּוּ לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת, עַד שֶׁיְּעַשֵּׂר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

"Estava comendo um cacho de uvas": arrancou um cacho de uma videira no jardim, e estava comendo enquanto caminhava, até que entrou no pátio; e o pátio fixa a obrigação do dízimo, e mesmo o consumo ocasional é proibido até que se separe a teruma e se dizime.

"Rabi Eliezer diz: que termine": não que coma no pátio, mas que saia para fora do pátio e termine de comer o cacho no jardim.

"Que não termine": mesmo no jardim, até que dizime.

"Anoiteceu na sexta-feira à noite": e estava comendo consumo ocasional, e o Shabat fixa a obrigação do dízimo, e mesmo o consumo ocasional é proibido.

"Que termine": até a saída do Shabat, mas no próprio Shabat concorda que é proibido.

"Que não termine": mesmo na saída do Shabat, até que dizime. E a halachá é como Rabi Yehoshua.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se a primeira parte do Perek Chet, dedicada à mudança de condição durante a refeição; as mishnayot seguintes tratam dos perigos à vida (sakanat nefashot) que tornam certos alimentos e bebidas proibidos.