A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Abre-se o tema do perigo à vida: vinho de teruma que foi descoberto deve ser derramado, e nem é preciso dizer que também o de produto comum; três líquidos são proibidos por causa do descobrimento — a água, o vinho e o leite; os demais líquidos são permitidos; e quanto tempo devem ficar descobertos para se tornarem proibidos — o suficiente para que o réptil venha de um lugar próximo e beba
Vinho de teruma que foi descoberto (deixado sem tampa, exposto, por tempo suficiente para que uma cobra viesse beber dele) deve ser derramado (pois presume-se que uma cobra possa ter bebido dele e deixado veneno, tornando-o perigoso ao consumo, e não há aqui perda real da teruma, já que era de qualquer modo proibido bebê-lo), e não é preciso dizer que o mesmo vale para o produto comum (vinho comum descoberto, que também deve ser derramado — a menção de que isso vale até para a teruma, normalmente tratada com mais rigor quanto a evitar perdas, ensina por argumento a fortiori que vale ainda mais para o produto comum). Três líquidos são proibidos por causa do descobrimento: a água, o vinho, e o leite (pois répteis venenosos, como cobras, costumam beber especificamente desses três). E todos os demais líquidos são permitidos (pois répteis venenosos não costumam beber deles, por seu sabor ou consistência). Quanto tempo devem ficar descobertos para se tornarem proibidos? O suficiente para que o réptil (a cobra, ou criatura semelhante que se arrasta) saia de um lugar próximo e beba (ou seja, o tempo mínimo necessário para que uma cobra escondida nas proximidades pudesse sair de seu esconderijo, chegar ao recipiente, beber, e retornar sem ser vista).
יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנִּתְגַּלָּה, יִשָּׁפֵךְ, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שֶׁל חֻלִּין. שְׁלֹשָׁה מַשְׁקִין אֲסוּרִים מִשּׁוּם גִּלּוּי, הַמַּיִם וְהַיַּיִן וְהֶחָלָב. וּשְׁאָר כָּל הַמַּשְׁקִין מֻתָּרִים. כַּמָּה יִשְׁהוּ וְיִהְיוּ אֲסוּרִין, כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא הָרַחַשׁ מִמָּקוֹם קָרוֹב וְיִשְׁתֶּה:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta mishná introduz o tema do perigo à vida (sakanat nefashot), cuja fonte bíblica não está nas leis de teruma em si, mas no dever geral de preservar a própria vida.
Devarim (Deuteronômio) 4:9
רַק הִשָּׁמֶר לְךָ וּשְׁמֹר נַפְשְׁךָ מְאֹד.
"Somente guarda-te, e guarda muito a tua alma" (Devarim 4:9) — deste versículo, e de outro semelhante em Devarim 22:8 ("e não porás sangue em tua casa"), a tradição oral extrai o dever positivo de evitar todo perigo à vida, incluindo o consumo de alimentos e bebidas que possam ter sido contaminados por veneno de répteis. A razão de a teruma ser explicitamente mencionada nesta mishná, apesar de o perigo à vida ser uma lei geral que se aplica a qualquer líquido descoberto, é ensinar que, mesmo quando normalmente se busca evitar o desperdício de coisas sagradas, o perigo à vida sempre prevalece sobre a preocupação de não perder a teruma — e, se isso vale até para a teruma, tratada com todo o cuidado para não ser desperdiçada, tanto mais vale para o produto comum, cujo desperdício preocupa menos.
Por que apenas água, vinho e leite são proibidos por descobrimento, e por que a menção da teruma aqui ensina um argumento a fortiori? A razão pela qual apenas esses três líquidos são objeto da proibição de gilui (descobrimento) é empírica, conforme a tradição: répteis venenosos, como cobras, são atraídos especificamente pelo sabor e pela consistência da água, do vinho e do leite, e costumam beber deles quando encontrados descobertos, depositando veneno no processo. Outros líquidos — como mel, azeite, ou sucos mais espessos ou de sabor diferente — não atraem esses répteis do mesmo modo, e por isso permanecem permitidos mesmo descobertos. A menção explícita de que o vinho de teruma descoberto deve ser derramado, seguida da conclusão "e nem é preciso dizer que o de produto comum", constrói um argumento a fortiori (קַל וָחֹמֶר): já que a teruma, que normalmente recebe tratamento cuidadoso para evitar sua perda (por ser propriedade do cohen e objeto de mandamentos específicos de preservação), ainda assim deve ser derramada diante do risco à vida, isso demonstra que a preocupação com a vida humana sempre prevalece sobre a preocupação com a perda de bens, mesmo sagrados — e, portanto, tanto mais o vinho comum, cuja perda é de menor preocupação halâchica, deve ser igualmente derramado.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica as leis de gilui (descobrimento) não em Hilchot Terumot, mas em Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh (As Leis do Homicida e da Preservação da Vida), por serem leis gerais de perigo à vida, aplicáveis a todo líquido, sagrado ou comum.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh 11:6-7
וְלֹא יִשְׁתֶּה מַיִם מְגֻלִּים שֶׁמָּא שָׁתָה מֵהֶן נָחָשׁ וְכַיּוֹצֵא בּוֹ מִזּוֹחֲלֵי עָפָר וְיָמוּת. וְאֵלּוּ הֵן הַמַּשְׁקִין הָאֲסוּרִין מִשּׁוּם גִּלּוּי: הַמַּיִם, וְהַיַּיִן וַאֲפִלּוּ מָזוּג וַאֲפִלּוּ הִתְחִיל טַעֲמוֹ לְהִשְׁתַּנּוֹת לְחֹמֶץ, וְהֶחָלָב וְהַדְּבַשׁ וְהַצִּיר. אֲבָל שְׁאָר כָּל הַמַּשְׁקִין אֵין מַקְפִּידִין עַל גִּלּוּיָן שֶׁאֵין בַּעֲלֵי אֶרֶס שׁוֹתִין מֵהֶן.
"E não beberá águas descobertas, para que não tenha bebido delas uma cobra ou semelhante dos répteis, e morra. E estes são os líquidos proibidos por causa do descobrimento: a água, e o vinho — mesmo diluído, e mesmo que seu sabor já tenha começado a se transformar em vinagre —, o leite, o mel e o molho de peixe. Mas todos os demais líquidos não há preocupação com seu descobrimento, pois os portadores de veneno não bebem deles." O Rambam codifica esta lei em Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh (As Leis do Homicida e da Preservação da Vida), capítulo 11, e não em Hilchot Terumot — pois trata-se de uma lei geral de perigo à vida, aplicável igualmente a todo líquido descoberto, sagrado ou comum, e não uma lei específica das ofertas sacerdotais. Nota-se que sua lista de líquidos proibidos inclui também o mel e o molho de peixe, ampliando ligeiramente a lista de três da mishná (água, vinho e leite) com base em fontes talmúdicas adicionais.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh 11:11
כָּל הַמַּשְׁקִין הָאֲסוּרִין מִשּׁוּם גִּלּוּי שֶׁנִּתְגַּלּוּ בֵּין בַּיּוֹם בֵּין בַּלַּיְלָה אֲסוּרִין... וְכַמָּה יִשְׁהוּ וְיֵאָסְרוּ, כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא הָרַחַשׁ מִתַּחַת אֹזֶן כְּלִי וְיִשְׁתֶּה וְיַחְזֹר לִמְקוֹמוֹ.
"Todos os líquidos proibidos por causa do descobrimento, tanto de dia quanto de noite, são proibidos... e quanto tempo devem ficar descobertos para se tornarem proibidos? O suficiente para que o réptil saia de sob a borda do recipiente, beba, e retorne a seu lugar." Esta halachá reproduz quase literalmente a medida de tempo desta mishná, confirmando-a como a definição codificada final.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o tema do perigo à vida.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:4
מה שאסרו שתיית אחד משלשה משקים כשהן מגולים מפני שהוא סכנות נפשות גזירה שמא שתה מהם נחש או אפעה או זולתם מבעלי הארס ויסתכן השותה אותן וימות לפי שאלו החיות מקיאות שם הארס ובתנאי שיהיו המים שוקטים והיין בלי מבושל אבל היין המבושל והמים הנוזלים בהם טיף טיף כנגד טיף טיף ואינם שוקטים לא נחוש לגלוים לפי שאלו החיות ר"ל הנחשים אינם קרבים לאלו הדברים ודומיהם ורחש הרמש תרגום רמש ריחשא: ואמרו ממקום קרוב באורו שר"ל כדי שיצא מאזן הכלי וישתה ויחזור למקומו.
O que proibiram — o consumo de um dos três líquidos quando estão descobertos — é por se tratar de perigo à vida: um decreto preventivo, para que não tenha bebido deles uma cobra, uma víbora, ou outro dos portadores de veneno, e se arrisque quem os bebe, e morra — pois esses animais vomitam ali o veneno. E é condição que a água esteja parada e o vinho não fervido; mas o vinho fervido, e as águas que gotejam gota após gota e não estão paradas, não temos preocupação com seu descobrimento, pois esses animais, isto é, as cobras, não se aproximam dessas coisas e semelhantes. E "réquesh" — o réptil — traduz-se "reichsha".
E disseram "de um lugar próximo": sua explicação é que seja o suficiente para que saia de sob a borda do recipiente, beba, e retorne a seu lugar.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:4
יִשָּׁפֵךְ. וְאֵין כָּאן מִשּׁוּם אִבּוּד תְּרוּמָה, מִפְּנֵי שֶׁאָסוּר לִשְׁתּוֹתוֹ, שֶׁמָּא שָׁתָה מִמֶּנּוּ נָחָשׁ: וּשְׁאָר כָּל הַמַּשְׁקִים מֻתָּרִים. שֶׁאֵין נָחָשׁ שׁוֹתֶה מֵהֶן. אֶלָּא שֶׁהַדְּבַשׁ וְהַצִּיר וְהַמּוּרְיָס וְשׁוּמִים כְּתוּשִׁים, כָּל אֵלּוּ הֻזְכְּרוּ בַגְּמָרָא לֶאֱסֹר, שֶׁהַנָּחָשׁ שׁוֹתֶה מֵהֶן: כַּמָּה יִשְׁהוּ. כַּמָּה יַעַמְדוּ מְגֻלִּין: הָרַחַשׁ. הַנָּחָשׁ, וּלְפִי שֶׁהוֹלֵךְ עַל גְּחוֹנוֹ קָרוּי רַחַשׁ, שֶׁאֵינוֹ נִרְאֶה כִּמְהַלֵּךְ אֶלָּא כְּרוֹחֵשׁ וּמִתְנַעְנֵעַ: מִמָּקוֹם קָרוֹב. פֵּרְשׁוּ בוֹ כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא מִתַּחַת אֹזֶן הַכְּלִי וְיִשְׁתֶּה וְיַחֲזֹר לְחוֹרוֹ.
"Deve ser derramado": e não há aqui preocupação de desperdício de teruma, pois é proibido bebê-lo, temendo que uma cobra tenha bebido dele.
"E todos os demais líquidos são permitidos": pois a cobra não bebe deles. Exceto o mel, o molho de peixe, o murias (molho de peixe romano), e o alho amassado — todos esses foram mencionados na Guemará como proibidos, pois a cobra bebe deles.
"Quanto tempo devem ficar": quanto tempo devem permanecer descobertos.
"O réptil": a cobra; e, por andar sobre o ventre, é chamada "réquesh", pois não parece caminhar, mas sim rastejar e se contorcer.
"De um lugar próximo": explicaram que seja o suficiente para sair de sob a borda do recipiente, beber, e retornar ao seu buraco.
Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o tema do perigo à vida (sakanat nefashot), que ocupará a maior parte do restante do Perek Chet.