Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Zayin · Mishná 2

"A filha de cohen casada com israelita que comeu teruma"

בַּת כֹּהֵן שֶׁנִּשֵּׂאת לְיִשְׂרָאֵל וְאַחַר כָּךְ אָכְלָה תְרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A filha de cohen que se casou com israelita, tornando-se proibida a comer teruma, e depois a comeu, paga o principal mas não o quinto, e se cometer adultério sua morte é por queima; se casada com um dos desqualificados para o sacerdócio, Rabi Meir diz que paga principal e quinto e sua morte por adultério é por estrangulamento, mas os sábios discordam em ambos os pontos

A filha de cohen que se casou com israelita (tornando-se, a partir de então, proibida de comer teruma, pois esse direito pertence apenas à casa de seu marido cohen, não mais à casa paterna) e depois comeu teruma, paga o principal e não paga o quinto (pois, embora agora esteja proibida, ela não é uma "estranha" plena — mantém um vínculo residual com a família sacerdotal, podendo até voltar a comer teruma caso enviuve ou se divorcie sem filhos, retornando à casa de seu pai como em sua juventude), e sua morte (caso cometa adultério enquanto casada) é por queima (a pena bíblica específica prevista para a filha de cohen que se prostitui, distinta da pena de estrangulamento aplicada à generalidade das mulheres casadas). Se casou-se com um dos desqualificados (para o sacerdócio — como um chalal, um natin ou um mamzer, cuja união a torna irreversivelmente inapta a comer teruma, mesmo que depois se separe dele), paga o principal e o quinto (pois, tendo-se profanado por essa união, torna-se equiparada a uma verdadeira estranha, sem qualquer vínculo residual com a santidade sacerdotal), e sua morte é por estrangulamento (como qualquer mulher casada comum, já que perdeu por completo sua condição de filha de cohen) — palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: em ambos os casos, pagam o principal e não pagam o quinto (pois consideram que, no momento em que comeu a teruma pela primeira vez após o casamento com o desqualificado, ela ainda tinha comido licitamente em algum momento de sua vida, o que basta para afastar a condição plena de "estranha"), e a morte de ambas é por queima (pois, sendo ambas filhas de cohen por nascimento — condição que não se apaga —, aplica-se a ambas a pena específica prevista pela Torá para a filha de cohen que se prostitui).

בַּת כֹּהֵן שֶׁנִּשֵּׂאת לְיִשְׂרָאֵל וְאַחַר כָּךְ אָכְלָה תְרוּמָה, מְשַׁלֶּמֶת אֶת הַקֶּרֶן וְאֵינָהּ מְשַׁלֶּמֶת אֶת הַחֹמֶשׁ, וּמִיתָתָהּ בִּשְׂרֵפָה. נִשֵּׂאת לְאֶחָד מִכָּל הַפְּסוּלִין, מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן וְחֹמֶשׁ, וּמִיתָתָהּ בְּחֶנֶק, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, זוֹ וָזוֹ מְשַׁלְּמוֹת אֶת הַקֶּרֶן וְאֵינָן מְשַׁלְּמוֹת אֶת הַחֹמֶשׁ, וּמִיתָתָן בִּשְׂרֵפָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná se apoia em dois versículos distintos: um que exclui a filha de cohen casada da categoria de "estranha" plena para efeitos do pagamento do quinto, e outro que fixa a pena de morte específica da filha de cohen que se prostitui.

Vayikrá (Levítico) 22:10
וְכָל־זָר לֹא־יֹאכַל קֹדֶשׁ.
"E nenhum estranho comerá do sagrado" (Vayikrá 22:10) — segundo a leitura dos sábios, os versículos que tratam do pagamento do quinto (22:14) e da proibição a "todo estranho" (22:10) devem ser lidos em conjunto: apenas quem é plenamente "estranho" — sem qualquer vínculo, presente ou passado, com a aptidão de comer teruma — está sujeito ao pagamento pleno de principal e quinto quando transgride por engano. A filha de cohen casada com israelita, ainda que proibida de comer teruma enquanto durar o casamento, não é uma "estranha" no sentido pleno do termo, pois conserva a possibilidade de retornar à condição de apta a comer teruma; por isso, quando come por engano, paga apenas o principal, como as demais categorias de pessoas que não são verdadeiramente "estranhas" (tratadas na mishná 7:3 seguinte).
Vayikrá (Levítico) 21:9
וּבַת אִישׁ כֹּהֵן כִּי תֵחֵל לִזְנוֹת אֶת־אָבִיהָ הִיא מְחַלֶּלֶת בָּאֵשׁ תִּשָּׂרֵף.
"E a filha de um homem cohen, quando se profanar prostituindo-se, profana a seu pai; ao fogo será queimada" (Vayikrá 21:9) — este versículo estabelece que a filha de cohen que comete adultério é punida com a pena de queima, distinta da pena geral de estrangulamento aplicada à generalidade das mulheres casadas que cometem adultério. O debate da mishná entre Rabi Meir e os sábios gira em torno de saber se esta pena específica se aplica a toda mulher que nasceu filha de cohen — independentemente de com quem se casou — ou apenas àquela que, no momento da transgressão, ainda mantém algum vínculo com a aptidão sacerdotal.

Por que a filha de cohen casada com israelita paga apenas o principal, e não o quinto, e por que sua pena por adultério é a queima e não o estrangulamento comum? A distinção entre o principal e o quinto, explicada na mishná anterior, depende de saber se o transgressor é um "estranho" pleno — alguém sem qualquer vínculo, atual ou potencial, com a aptidão de comer teruma. A filha de cohen, mesmo casada com israelita e por isso proibida de comer teruma durante o casamento, mantém um vínculo residual: se enviuvar ou se divorciar sem deixar filhos, ela retorna à casa paterna e recupera o direito de comer teruma, "como em sua juventude" (conforme Vayikrá 22:13). Esse vínculo latente é suficiente, segundo a mishná, para afastá-la da categoria plena de "estranha", isentando-a do quinto adicional mesmo quando come teruma por engano durante o casamento. Já quanto à pena por adultério, a Torá determina explicitamente que "a filha de um homem cohen" que se prostitui é punida com queima — e o debate entre Rabi Meir e os sábios está em saber se essa qualificação de "filha de cohen" persiste mesmo depois que ela se uniu a alguém que a torna irreversivelmente inapta ao sacerdócio (como um chalal ou mamzer). Rabi Meir sustenta que, tendo-se profanado por completo através dessa união, ela deixa de ser tratada como "filha de cohen" para este fim, e passa a receber a pena comum de estrangulamento; os sábios, por sua vez, entendem que a condição de nascimento como filha de cohen é permanente e não se apaga por nenhuma união posterior, de modo que a pena de queima aplica-se a ela em qualquer circunstância — e a halachá segue a opinião dos sábios.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no mesmo capítulo dedicado à restituição de teruma consumida por quem não é um "estranho" pleno.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 10:12
בַּת כֹּהֵן שֶׁהָיְתָה נְשׂוּאָה לְיִשְׂרָאֵל אוֹ שֶׁנִּפְסְלָה וְאַחַר כָּךְ אָכְלָה תְּרוּמָה מְשַׁלֶּמֶת אֶת הַקֶּרֶן וְלֹא אֶת הַחֹמֶשׁ.
A filha de cohen que estava casada com israelita, ou que se tornou desqualificada, e depois comeu teruma, paga o principal e não o quinto.

O Rambam codifica a primeira cláusula da mishná — a filha de cohen casada com israelita paga apenas o principal — como halachá decisória, sem entrar no debate específico entre Rabi Meir e os sábios sobre a filha casada com um dos desqualificados nem sobre as diferentes penas por adultério, matéria tratada em Hilchot Issurei Biah, o corpo de leis dedicado às proibições sexuais e suas penas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 7:2
כבר ידעת כי כהנת כשנשאת לישראל אסור לה לאכול בתרומה ושאר קדשים והוא לשון התורה (שם) ובת איש כהן כי תהיה לאיש זר וגו' ואמרם בספרא מנין לבת איש כהן שנשאת לישראל ואחר כן אכלה תרומה וכהן שאכל תרומת חברו יכול יהו חייבין בחומש ת"ל (שם) וכל זר לא יאכל קדש ואיש כי יאכל קדש בשגגה ויסף חמישיתו עליו יצאו אלו שאינם זרים לו: ואמרם מיתתה בשריפה ר"ל כשזנתה והיא אשת זה שאינו כהן לדברי ה' יתברך (שם כא) ובת איש כהן כי תחל לזנות כיון שהיא בת כהן הכל שוה בין שתהיה אשת כהן או אשת ישראל ור"מ אומר כי כשנשאת לא'מן הפסולין כגון ממזר או מצרי ואדומי ועמוני ומואבי או אלמנה לכ"ג או גרושה וחלוצה לכהן הדיוט שהיא חללה כמו שיתבאר במקומו ואסור לה לאכול תרומה וקדשים לעולם אפילו אחר שנתגרשה מאחד מאלו ואם אכלה מהם משלמת קרן וחומש כיון שהיא עתה כמו זר וחכ"א שאינה כמו הזר כי אע"פ שאינה ראויה לאכילה לעולם כבר אכלה מהם בזמן שעבר קודם שתתחלל וכמו כן אומר ר"מ כי אם זנתה והיתה תחת יד אחד הפסולין מיתתה בחנק כדין כל אשת איש שזנתה לפי שהיא משנתחללה אינה בת כהן בכהונה וחכמים כוונתם על חללים שבזנות והתורה לא קראה זנות אלא א"א כשזנתה או שאר העריות וכן באה בקבלה האמיתית וכן אמר הש"י (דברים כ״ב:כ״א) לזנות בית אביה עד שתהיה א"א כשזנתה כמו שיתבאר במקומו ואין הלכה כר"מ:

Já sabes que a filha de cohen, quando se casa com israelita, fica proibida de comer teruma e as demais coisas sagradas — este é o texto da Torá: "e a filha de um homem cohen, se se tornar de um homem estranho..." (Vayikrá 22:12). E disseram no Sifra: de onde se aprende que a filha de um homem cohen que se casou com israelita e depois comeu teruma, e o cohen que comeu teruma de seu companheiro, poderiam ser obrigados ao quinto? Ensina o versículo "e nenhum estranho comerá do sagrado" e "e o homem que comer do sagrado por engano, acrescentará a ele o seu quinto" — excluem-se estes, que não são "estranhos" para ele.

E disseram "sua morte é por queima": quer dizer, quando se prostituiu sendo esposa de alguém que não é cohen, conforme a palavra do Nome, exaltado seja: "e a filha de um homem cohen, quando se profanar prostituindo-se" — sendo ela filha de cohen, é indiferente se é esposa de cohen ou esposa de israelita. E Rabi Meir diz que, quando se casou com um dos desqualificados — como um mamzer, ou um egípcio, edomita, amonita ou moabita, ou uma viúva casada com o Sumo Sacerdote, ou uma divorciada ou chalutzá casada com um cohen comum — ela se torna chalalá (profanada), como se explicará em seu lugar, e fica proibida de comer teruma e coisas sagradas para sempre, mesmo depois de se divorciar de um destes; e se comeu delas, paga principal e quinto, já que agora é como uma estranha. E os sábios dizem que ela não é como a estranha, pois, embora não seja mais apta a comer para sempre, já comeu delas em tempo passado, antes de se profanar. E, do mesmo modo, diz Rabi Meir que, se se prostituiu estando sob o poder de um dos desqualificados, sua morte é por estrangulamento, como a lei de toda mulher casada que se prostitui, pois, desde que se profanou, ela não é mais filha de cohen quanto ao sacerdócio; e os sábios têm em vista os profanados por prostituição, e a Torá não chamou de prostituição senão a mulher casada que se prostitui, ou as demais relações proibidas, e assim veio na tradição verdadeira, e assim disse o Nome, exaltado seja: "prostituir-se na casa de seu pai" (Devarim 22:21), até que seja mulher casada quando se prostituir, como se explicará em seu lugar. E não é a halachá como Rabi Meir.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 7:2
בַּת כֹּהֵן שֶׁנִּשֵּׂאת לְיִשְׂרָאֵל. וַאֲסוּרָה לֶאֱכֹל בִּתְרוּמָה: מְשַׁלֶּמֶת אֶת הַקֶּרֶן. כְּדִין גּוֹזֵל אֶת חֲבֵרוֹ, אֲבָל לֹא חֹמֶשׁ, דְּכֹהֶנֶת הִיא, וּכְתִיב (ויקרא כב) וְכָל זָר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ, יָצְאָה זֹאת שֶׁאֵינָהּ זָרָה וְאֶפְשָׁר לָהּ שֶׁתָּשׁוּב לְבֵית אָבִיהָ כִּנְעוּרֶיהָ וּתְהֵא מֻתֶּרֶת לֶאֱכֹל בִּתְרוּמָה: וּמִיתָתָהּ בִּשְׂרֵפָה. אִם זָנְתָה תַּחַת בַּעְלָהּ יִשְׂרָאֵל, כְּדִכְתִיב (ויקרא כא) וּבַת אִישׁ כֹּהֵן כִּי תֵחֵל לִזְנוֹת וְכוּ', כָּל שֶׁהִיא בַּת כֹּהֵן, לֹא שְׁנָא אֵשֶׁת כֹּהֵן וְלֹא שְׁנָא אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל, בָּאֵשׁ תִּשָּׂרֵף: נִשֵּׂאת לְאֶחָד מִכָּל הַפְּסוּלִים. כְּגוֹן חָלָל נָתִין וּמַמְזֵר, מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן וְחֹמֶשׁ, שֶׁהֲרֵי נִתְחַלְּלָה בְּבִיאָתוֹ וְאֵינָהּ רְאוּיָה עוֹד לֶאֱכֹל בִּתְרוּמָה וַהֲרֵי הִיא כְזָרָה: וּמִיתָתָהּ בְּחֶנֶק. דִּכְתִיב וּבַת אִישׁ כֹּהֵן כִּי תֵחֵל לִזְנוֹת, מִי שֶׁרְאוּיָה לַחֲזֹר לְבֵית אָבִיהָ אִלְמָלֵא זְנוּת זֶה הִיא בִשְׂרֵפָה, יָצְתָה נִבְעֶלֶת לְפָסוּל לָהּ שֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לַחֲזֹר לְבֵית אָבִיהָ, שֶׁזּוֹ אֵינָהּ בִּשְׂרֵפָה: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים וְכוּ'. דְּלֹא הַוְיָא זָרָה עַד שֶׁתְּהֵא זָרָה מִתְּחִלָּתָהּ וְעַד סוֹפָהּ, וְזוֹ הוֹאִיל וּכְבָר אָכְלָה בִּתְרוּמָה אֵינָהּ מְשַׁלֶּמֶת אֶת הַחֹמֶשׁ: וּמִיתָתָהּ בִּשְׂרֵפָה. וּבַת אִישׁ כֹּהֵן כְּתִיב, מִכָּל מָקוֹם. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

"A filha de cohen que se casou com israelita": e fica proibida de comer teruma.

"Paga o principal": como a lei de quem furta de seu companheiro, mas não o quinto, pois é cohenet (filha de cohen), e está escrito "e nenhum estranho comerá do sagrado" — excluiu-se esta, que não é estranha, e é possível que ela retorne à casa de seu pai como em sua juventude e volte a estar apta a comer teruma.

"E sua morte é por queima": se se prostituiu sob o poder de seu marido israelita, conforme está escrito "e a filha de um homem cohen, quando se profanar prostituindo-se, etc." — toda que é filha de cohen, seja esposa de cohen, seja esposa de israelita, ao fogo será queimada.

"Casou-se com um dos desqualificados": como um chalal, um natin ou um mamzer — paga principal e quinto, pois se profanou por sua união e não é mais apta a comer teruma, e já é como uma estranha.

"E sua morte é por estrangulamento": pois está escrito "e a filha de um homem cohen, quando se profanar prostituindo-se" — aquela que seria apta a retornar à casa de seu pai, não fosse esta prostituição, é punida com queima; saiu esta, que se uniu a um desqualificado para ela, que não é apta a retornar à casa de seu pai, que esta não é punida com queima.

"E os sábios dizem, etc.": pois não se considera plenamente estranha até que seja estranha do início ao fim, e esta, já que comeu teruma anteriormente, não paga o quinto.

"E sua morte é por queima": pois está escrito "a filha de um homem cohen" — de qualquer modo. E a halachá é como os sábios.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.