Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Dalet · Mishná 2

"Aquele cujos frutos estavam no celeiro"

מִי שֶׁהָיוּ פֵרוֹתָיו בַּמְּגוּרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem, antes de separar a teruma, já deu uma seá do próprio celeiro ao levita (como se fosse dízimo) e uma seá ao pobre (como se fosse dízimo do pobre), pode ainda separar teruma até completar oito seín e consumi-las como se fossem próprias — segundo Rabi Meir; os sábios discordam e limitam a separação subsequente à proporção exata do que já foi doado

Aquele cujos frutos estavam no celeiro (ainda não desobrigados de teruma e dízimos), e deu uma seá ao levita (como se já fosse o dízimo devido, antes de formalmente separar teruma e dízimo do restante) e uma seá ao pobre (como se já fosse o dízimo do pobre): separa até oito seín (pode ainda tirar do restante do celeiro, como teruma e dízimos regulares, até completar oito seín, calculando retroativamente que as duas primeiras seín já cumpriram sua função) e as consome (o restante que sobrar depois de descontadas as porções sagradas, tratando-o como produto já totalmente desobrigado)palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: não separa senão na proporção do cálculo (deve calcular exatamente qual fração do total as duas seín já dadas representam, e separar teruma e dízimos do restante apenas nessa mesma proporção, sem o arredondamento generoso de Rabi Meir).

מִי שֶׁהָיוּ פֵרוֹתָיו בַּמְּגוּרָה, וְנָתַן סְאָה לְבֶן לֵוִי וּסְאָה לְעָנִי, מַפְרִישׁ עַד שְׁמֹנֶה סְאִין וְאוֹכְלָן, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵינוֹ מַפְרִישׁ אֶלָּא לְפִי חֶשְׁבּוֹן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O debate desta mishná diz respeito à proporção exata entre teruma, dízimo levítico (maasser rishon) e dízimo do pobre (maasser ani), quando porções já foram entregues antes da separação formal ser concluída.

Bemidbar (Números) 18:24
כִּי אֶת מַעְשַׂר בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֲשֶׁר יָרִימוּ לַיהֹוָה תְּרוּמָה נָתַתִּי לַלְוִיִּם לְנַחֲלָה.
"Pois o dízimo dos filhos de Israel, que separarem como oferta ao Eterno, eu o dei aos levitas por herança" (Bemidbar 18:24) — o dízimo levítico é uma porção proporcional fixa (um décimo) do produto já desobrigado de teruma; a mishná discute o que ocorre quando frações do dízimo já foram entregues informalmente antes da separação oficial de teruma sobre o monte inteiro.

Por que Rabi Meir permite arredondar até oito seín, enquanto os sábios exigem o cálculo exato? Segundo Rabi Meir, uma vez que já se deu uma seá ao levita e uma ao pobre — presumindo que essas representam, respectivamente, o dízimo levítico e o dízimo do pobre de uma certa quantidade de produto —, pode-se generosamente presumir que aquele bloco already conta como referente a um total redondo de oito seín (a proporção padrão entre dízimo e o todo, somada a alguma margem), permitindo que o restante seja tratado com maior simplicidade prática. Os sábios rejeitam esse arredondamento: a designação de teruma e dízimos exige precisão proporcional exata, e presumir mais do que o cálculo estrito permite arriscaria consumir, sem desobrigação adequada, produto que ainda seria tevel (sujeito à obrigação). O debate reflete a tensão geral do Perek Dalet entre praticidade na estimativa (como se verá nas mishnayot seguintes, sobre o shiur da teruma) e o rigor da designação exata.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não dedica uma halachá específica e isolada a este caso preciso — o cálculo proporcional entre dízimo já entregue informalmente e a separação subsequente de teruma e dízimos do restante do celeiro. O tema geral da ordem de separação (bikurim, depois teruma, depois maasser rishon, depois maasser sheni ou maasser ani) é tratado alhures em Hilchot Terumot 3:23, já citado no comentário à mishná 3:9. Registra-se aqui, honestamente, a ausência de uma halachá dedicada a este caso específico, cuja opinião decisória (contra Rabi Meir, a favor dos sábios) permanece implícita no princípio geral de precisão proporcional.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 3:23 (princípio da ordem proporcional)
כְּשֶׁמַּפְרִישִׁין תְּרוּמָה וּמַעֲשֵׂר מַפְרִישִׁין אוֹתָן עַל הַסֵּדֶר. כֵּיצַד. מַפְרִישׁ בִּכּוּרִים תְּחִלָּה לַכּל. וְאַחַר כָּךְ תְּרוּמָה גְּדוֹלָה. וְאַחַר כָּךְ מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן. וְאַחַר כָּךְ מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אוֹ מַעֲשַׂר עָנִי.
Quando se separam teruma e dízimo, separam-se na ordem correta. Como assim? Separa-se primeiro bikurim de tudo, e depois a teruma grande, e depois o primeiro dízimo, e depois o segundo dízimo ou o dízimo do pobre.

É esse princípio de ordem e proporção — bikurim, depois teruma, depois maasser — que sustenta a exigência dos sábios de calcular com precisão o que as duas seín já entregues representam antes de completar a separação do restante, em vez do arredondamento de Rabi Meir.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 4:2
כבר בארנו במה שקדם שהמעשר הוא אחד מעשרה מן הכרי אחר תרומה גדולה, ואמרו כאן שאם היו לו פירות שלא הפרישו מהם עדיין תרומה גדולה ולא מעשר, ונתן סאה ללוי בחשבו כי הוא מעשר, ונתן סאה לעני בחשבו שהוא מעשר עני, יש לו רשות שיפריש מן השאר עד שיעלה החשבון שמנה סאין תרומה ומעשר ראשון ומעשר עני, וזה מבואר, לפי שהמעשר ראשון הוא אחד מעשרה מתשע סאין שנשארו אחר תרומה גדולה, ומעשר עני הוא ג"כ כן, ואם היה החשבון כן שנתן לכל אחד מהם סאה יהיה השיעור הכולל שמנה סאין, כמו שיתבאר בחשבון, ורבי מאיר סובר שהוא רשאי להשלים אותו החשבון אעפ"י שלא כיון בתחלה למספר ידוע, וחכ"א שאין לו רשות אלא לפי חשבון תחלת מחשבתו, כלומר אם היה בדעתו בתחלת מעשיו לתת ללוי מעשר על שיעור מאה סאה, לא יפריש עתה למשלים החשבון הזה, אלא לפי אותו החשבון שהיה בדעתו, ואין הלכה כרבי מאיר:

Já explicamos anteriormente que o dízimo é um décimo do monte, depois da teruma grande. E aqui se ensina que, se alguém tinha frutos dos quais ainda não havia separado teruma grande nem dízimo, e deu uma seá ao levita pensando que era o dízimo, e deu uma seá ao pobre pensando que era o dízimo do pobre — tem permissão de separar do restante até que o cálculo total chegue a oito seín de teruma, primeiro dízimo e dízimo do pobre. E isso se explica assim: o primeiro dízimo é um décimo das nove seín que restam depois da teruma grande, e o dízimo do pobre é igualmente assim; e se o cálculo for tal que se deu uma seá para cada um deles, a medida total será de oito seín, como se explicará no cálculo.

E Rabi Meir sustenta que ele tem permissão de completar esse cálculo, ainda que não tivesse originalmente pretendido um número determinado; e os sábios dizem que ele só tem permissão conforme o cálculo de sua intenção original — ou seja, se sua intenção inicial era dar ao levita o dízimo sobre a medida de cem seín, não separa agora para completar este cálculo (de oito), mas apenas segundo aquele cálculo que tinha em mente. E a lei não segue Rabi Meir.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 4:2
מִי שֶׁהָיוּ פֵרוֹתָיו בַּמְּגוּרָה. וְלֹא הִפְרִישׁ מֵהֶן עֲדַיִן תְּרוּמָה וּמַעֲשֵׂר: וְנָתַן סְאָה לְבֶן לֵוִי. בְּחֶשְׁבּוֹן שֶׁהוּא מַעֲשֵׂר: וּסְאָה לְעָנִי. בְּחֶשְׁבּוֹן מַעְשַׂר עָנִי: מַפְרִישׁ עַד שְׁמֹנֶה סְאִין. מִשְּׁאָר הַמְּגוּרָה, תְּרוּמָה וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּמַעֲשַׂר עָנִי, וְעוֹלֶה הַחֶשְׁבּוֹן שֶׁהַסְּאָה שֶׁנָּתַן לְבֶן לֵוִי וְהַסְּאָה שֶׁנָּתַן לֶעָנִי הָיוּ בְּתוֹךְ שְׁמֹנֶה סְאִין, וְהַשְּׁאָר חֻלִּין וְאוֹכְלָן: דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. שֶׁסּוֹמֵךְ עַל אֹמֶד הַדַּעַת: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים אֵינוֹ מַפְרִישׁ אֶלָּא לְפִי חֶשְׁבּוֹן. הַמְדֻקְדָּק, כְּפִי מַה שֶּׁהָיָה בְּדַעְתּוֹ מִתְּחִלָּה. וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

"Aquele cujos frutos estavam no celeiro": e ainda não havia separado deles teruma e dízimo.

"E deu uma seá ao levita": no cálculo de que seria o dízimo.

"E uma seá ao pobre": no cálculo do dízimo do pobre.

"Separa até oito seín": do restante do celeiro — teruma, primeiro dízimo e dízimo do pobre — e o cálculo se completa de modo que a seá dada ao levita e a seá dada ao pobre estejam dentro dessas oito seín, e o restante é produto comum e pode ser consumido.

"Palavras de Rabi Meir": que se apoia na estimativa aproximada.

"Mas os sábios dizem: não separa senão na proporção do cálculo": o cálculo minucioso, conforme o que tinha em mente desde o início. E a lei segue os sábios.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.