Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Guimel · Mishná 8

"Aquele que pretendia dizer teruma e disse dízimo"

הַמִּתְכַּוֵּן לוֹמַר תְּרוּמָה וְאָמַר מַעֲשֵׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Princípio geral aplicado a toda designação verbal de santidade (teruma, dízimo, ofertas, votos): quando a boca erra e pronuncia palavra diferente da que o coração pretendia, o ato não tem efeito algum — pois a designação exige que fala e intenção coincidam plenamente

Aquele que pretendia dizer "teruma" e disse "dízimo" (por lapso de fala), "dízimo" e disse "teruma" (o erro inverso), "oferta queimada" e disse "oferta de paz" (referindo-se a votos de sacrifícios), "oferta de paz" e disse "oferta queimada", "não entrarei nesta casa" e disse "naquela" (um voto de abstenção, errando o objeto), "não usufruirei disto" e disse "daquilo" (votos de proibição de benefício, com o mesmo tipo de erro)não disse nada (o ato verbal não produz efeito algum de santidade ou proibição), até que sua boca e seu coração estejam de acordo (a designação só é válida quando a palavra pronunciada corresponde exatamente à intenção interior).

הַמִּתְכַּוֵּן לוֹמַר תְּרוּמָה וְאָמַר מַעֲשֵׂר, מַעֲשֵׂר וְאָמַר תְּרוּמָה, עוֹלָה וְאָמַר שְׁלָמִים, שְׁלָמִים וְאָמַר עוֹלָה, שֶׁאֵינִי נִכְנָס לְבַיִת זֶה וְאָמַר לָזֶה, שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה וְאָמַר לָזֶה, לֹא אָמַר כְּלוּם, עַד שֶׁיִּהְיוּ פִיו וְלִבּוֹ שָׁוִין:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná generaliza o princípio de que toda designação de santidade — teruma, dízimo, ofertas ou votos — depende da coincidência entre a palavra pronunciada e a intenção do coração, com base na exigência de que os votos e ofertas espontâneas sejam expressão fiel da vontade interior.

Devarim (Deuteronômio) 23:24 · Shemot (Êxodo) 35:5
מוֹצָא שְׂפָתֶיךָ תִּשְׁמֹר וְעָשִׂיתָ. כֹּל נְדִיב לִבּוֹ יְבִיאֶהָ אֵת תְּרוּמַת יְהֹוָה.
"Aquilo que saiu de teus lábios guardarás e farás" (Devarim 23:24) — a obrigação recai sobre o que efetivamente saiu da boca; e "todo generoso de coração a trará, a oferta do Eterno" (Shemot 35:5) — a oferta deve vir do coração, isto é, da intenção genuína. A tradição concilia os dois versículos: exige-se tanto a expressão pelos lábios quanto a intenção correspondente do coração — nenhum dos dois, isoladamente, basta.

Por que a Torá exige tanto a fala quanto a intenção, e não se contenta com apenas uma delas? Os dois versículos, à primeira vista, poderiam parecer contraditórios: um enfatiza "o que saiu de teus lábios", sugerindo que basta a fala; o outro enfatiza "todo generoso de coração", sugerindo que basta a intenção. A tradição resolve a aparente tensão exigindo ambos simultaneamente: a designação de teruma, dízimo ou qualquer voto exige que a pessoa "termine em seu coração e pronuncie com seus lábios" — ou seja, que a fala seja a expressão fiel e completa da intenção. Quando há uma discrepância entre o que se pretendia dizer e o que efetivamente se disse — como no lapso de trocar "teruma" por "dízimo" — nem a fala sozinha basta (pois não corresponde à intenção real do coração), nem a intenção sozinha basta (pois não foi expressa pelos lábios daquilo que se pretendia); o resultado é que o ato de designação simplesmente não ocorreu, permanecendo o produto em seu estado anterior, sem qualquer mudança de status.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às condições para que a designação verbal da teruma seja válida.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 4:16
הַמִּתְכַּוֵּן לוֹמַר תְּרוּמָה וְאָמַר מַעֲשֵׂר. מַעֲשֵׂר וְאָמַר תְּרוּמָה. לֹא אָמַר כְּלוּם. עַד שֶׁיִּהְיֶה פִּיו וְלִבּוֹ שָׁוִין. הִפְרִישׁ תְּרוּמָה בְּמַחֲשַׁבְתּוֹ וְלֹא הוֹצִיא בִּשְׂפָתָיו כְּלוּם הֲרֵי זוֹ תְּרוּמָה שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר יח כז) "וְנֶחְשַׁב לָכֶם תְּרוּמַתְכֶם כַּדָּגָן מִן הַגֹּרֶן" בְּמַחֲשָׁבָה בִּלְבַד תִּהְיֶה תְּרוּמָה.
Quem pretendia dizer "teruma" e disse "dízimo", ou "dízimo" e disse "teruma", não disse nada, até que sua boca e seu coração estejam de acordo. Mas se separou teruma apenas em pensamento, sem pronunciar nada com os lábios, eis que é teruma, conforme se declara (Bemidbar 18:27): "e se contará para vós vossa teruma como o grão da eira" — apenas com o pensamento já se torna teruma.

O Rambam acrescenta uma distinção crucial ausente na formulação simples da mishná: o mero pensamento silencioso, sem qualquer fala, já basta para separar teruma validamente — o problema surge apenas quando há fala que contradiz a intenção, e não quando há apenas intenção sem fala alguma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 3:8
כל זה מבואר והעיקר אצלנו גמר בלבו צריך להוציא בשפתיו:

Tudo isto é claro; e nosso princípio é que, mesmo quando a pessoa já decidiu em seu coração, ainda precisa expressá-lo com seus lábios (para que a designação seja plenamente válida quando há fala envolvida — mas quando não há fala alguma, o pensamento sozinho basta, como explica o Rambam em Hilchot Terumot 4:16).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 3:8
עַד שֶׁיִּהְיוּ פִיו וְלִבּוֹ שָׁוִין. דִּכְתִיב (שם כג) מוֹצָא שְׂפָתֶיךָ תִּשְׁמֹר, וּכְתִיב (שמות לד) כָּל נְדִיב לֵב, הָא כֵּיצַד, בָּעִינַן גּוֹמֵר בְּלִבּוֹ וּמוֹצִיא בִשְׂפָתָיו:

"Até que sua boca e seu coração estejam de acordo": pois está escrito (Devarim 23): "aquilo que saiu de teus lábios guardarás", e está escrito (Shemot 34, referindo-se a Shemot 35): "todo generoso de coração". Como se concilia isso? Exigimos que a pessoa termine em seu coração e expresse com seus lábios (as duas condições devem coincidir para que a designação seja válida).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.