Aquele que pretendia dizer "teruma" e disse "dízimo" (por lapso de fala), "dízimo" e disse "teruma" (o erro inverso), "oferta queimada" e disse "oferta de paz" (referindo-se a votos de sacrifícios), "oferta de paz" e disse "oferta queimada", "não entrarei nesta casa" e disse "naquela" (um voto de abstenção, errando o objeto), "não usufruirei disto" e disse "daquilo" (votos de proibição de benefício, com o mesmo tipo de erro) — não disse nada (o ato verbal não produz efeito algum de santidade ou proibição), até que sua boca e seu coração estejam de acordo (a designação só é válida quando a palavra pronunciada corresponde exatamente à intenção interior).
Esta mishná generaliza o princípio de que toda designação de santidade — teruma, dízimo, ofertas ou votos — depende da coincidência entre a palavra pronunciada e a intenção do coração, com base na exigência de que os votos e ofertas espontâneas sejam expressão fiel da vontade interior.
Por que a Torá exige tanto a fala quanto a intenção, e não se contenta com apenas uma delas? Os dois versículos, à primeira vista, poderiam parecer contraditórios: um enfatiza "o que saiu de teus lábios", sugerindo que basta a fala; o outro enfatiza "todo generoso de coração", sugerindo que basta a intenção. A tradição resolve a aparente tensão exigindo ambos simultaneamente: a designação de teruma, dízimo ou qualquer voto exige que a pessoa "termine em seu coração e pronuncie com seus lábios" — ou seja, que a fala seja a expressão fiel e completa da intenção. Quando há uma discrepância entre o que se pretendia dizer e o que efetivamente se disse — como no lapso de trocar "teruma" por "dízimo" — nem a fala sozinha basta (pois não corresponde à intenção real do coração), nem a intenção sozinha basta (pois não foi expressa pelos lábios daquilo que se pretendia); o resultado é que o ato de designação simplesmente não ocorreu, permanecendo o produto em seu estado anterior, sem qualquer mudança de status.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às condições para que a designação verbal da teruma seja válida.
O Rambam acrescenta uma distinção crucial ausente na formulação simples da mishná: o mero pensamento silencioso, sem qualquer fala, já basta para separar teruma validamente — o problema surge apenas quando há fala que contradiz a intenção, e não quando há apenas intenção sem fala alguma.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Tudo isto é claro; e nosso princípio é que, mesmo quando a pessoa já decidiu em seu coração, ainda precisa expressá-lo com seus lábios (para que a designação seja plenamente válida quando há fala envolvida — mas quando não há fala alguma, o pensamento sozinho basta, como explica o Rambam em Hilchot Terumot 4:16).
"Até que sua boca e seu coração estejam de acordo": pois está escrito (Devarim 23): "aquilo que saiu de teus lábios guardarás", e está escrito (Shemot 34, referindo-se a Shemot 35): "todo generoso de coração". Como se concilia isso? Exigimos que a pessoa termine em seu coração e expresse com seus lábios (as duas condições devem coincidir para que a designação seja válida).