Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Guimel · Mishná 1

"O que separa um pepino e o encontra amargo"

הַתּוֹרֵם קִשּׁוּת וְנִמְצֵאת מָרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o Perek Guimel com o caso da teruma separada de boa-fé que se revela imprestável — pepino amargo, melão podre, vinho azedado — e a distinção entre o que já era assim antes da separação (invalidando a teruma) e o que se estragou depois (validando-a); e o princípio de que uma teruma duvidosa, sozinha, não torna medumá o que nela cai

O que separa um pepino (como teruma) e o encontra amargo (impróprio para consumo), um melão e o encontra podre (por dentro, embora aparentasse estar bom por fora)é teruma (pois no momento da separação parecia válido, e o defeito só se revelou depois), mas deve voltar e separar novamente (pois um produto imprestável não pode efetivamente servir de alimento ao cohen, e por isso não cumpre a obrigação; mas, sendo um caso de erro involuntário e não de má-fé evidente, retém alguma santidade). O que separa um barril de vinho e o encontra vinagre (azedado): se sabia que já era vinagre antes de separá-lo, não é teruma (pois vinho e vinagre são duas espécies distintas, e não se separa teruma de uma sobre a outra); se azedou depois de separado, eis que é teruma (pois no momento da separação era realmente vinho); se há dúvida (sobre quando azedou), é teruma, mas deve voltar e separar novamente (por precaução). A primeira (teruma duvidosa, se cair em produto comum) não torna medumá por si só (pois talvez não fosse teruma válida), e não se é responsável por ela ao acréscimo de um quinto (a multa devida por quem come teruma por engano); e o mesmo vale para a segunda (a teruma separada por precaução).

הַתּוֹרֵם קִשּׁוּת וְנִמְצֵאת מָרָה, אֲבַטִּיחַ וְנִמְצָא סָרוּחַ, תְּרוּמָה, וְיַחֲזֹר וְיִתְרֹם. הַתּוֹרֵם חָבִית שֶׁל יַיִן וְנִמְצֵאת שֶׁל חֹמֶץ, אִם יָדוּעַ שֶׁהָיְתָה שֶׁל חֹמֶץ עַד שֶׁלֹּא תְרָמָהּ, אֵינָה תְרוּמָה. אִם מִשֶּׁתְּרָמָהּ הֶחֱמִיצָה, הֲרֵי זוֹ תְרוּמָה. אִם סָפֵק, תְּרוּמָה, וְיַחֲזֹר וְיִתְרֹם. הָרִאשׁוֹנָה, אֵינָהּ מְדַמַּעַת בִּפְנֵי עַצְמָהּ, וְאֵין חַיָּבִין עָלֶיהָ חֹמֶשׁ. וְכֵן הַשְּׁנִיָּה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Com esta mishná abre-se o Perek Guimel, dedicado às circunstâncias em que a validade da teruma é afetada por erro, defeito descoberto posteriormente, ou dúvida. A base é o princípio de que a teruma deve ser "do melhor" e efetivamente utilizável como alimento pelo cohen no momento em que é separada.

Bemidbar (Números) 18:12
כֹּל חֵלֶב יִצְהָר וְכָל חֵלֶב תִּירוֹשׁ וְדָגָן, רֵאשִׁיתָם אֲשֶׁר יִתְּנוּ לַיהֹוָה, לְךָ נְתַתִּים.
"Todo o melhor do azeite, e todo o melhor do vinho e do grão, suas primícias que derem ao Eterno, a ti as dei" (Bemidbar 18:12) — a exigência de que a teruma seja "o melhor" implica que deve ser um produto efetivamente próprio para consumo; um produto estragado ou de espécie distinta do que se pretendia separar não cumpre essa condição.

Por que a teruma de um pepino amargo ou melão podre é válida (embora exija nova separação), enquanto a de um barril reconhecidamente já avinagrado antes da separação é totalmente inválida? A diferença está na natureza do defeito. O pepino amargo e o melão podre continuam sendo, tecnicamente, a mesma espécie e a mesma substância que se pretendia separar — apenas com um defeito de qualidade que os torna imprestáveis ao consumo; por isso a designação verbal do doador ainda "pega" no produto, tornando-o teruma válida quanto à santidade, embora, na prática, ela precise ser refeita para que o cohen tenha algo comestível. Já o vinho que já era vinagre antes da separação não é apenas um defeito de qualidade: vinho e vinagre são consideradas, para efeitos de teruma, duas espécies distintas (como se verá também em 2:6) — de modo que separar teruma de vinagre "para" um barril de vinho é como separar de uma espécie sobre outra, o que é proibido e inválido desde a origem. A regra de que a primeira teruma duvidosa "não torna medumá por si só" protege o produto comum de contaminação baseada em mera possibilidade, mantendo o princípio de que apenas a certeza (ou o encontro de ambas as porções duvidosas no mesmo lugar, como ensina a mishná seguinte) gera a obrigação plena.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às combinações de produto e às consequências do vinho que azedou.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 5:22-23
הַתּוֹרֵם חָבִית שֶׁל יַיִן עַל הַיַּיִן וְנִמְצָא חֹמֶץ. אִם יוֹדֵעַ שֶׁהָיְתָה חֹמֶץ עַד שֶׁלֹּא תְּרָמָהּ אֵינָהּ תְּרוּמָה. וְאִם מִשֶּׁתְּרָמָהּ הֶחְמִיצָה הֲרֵי זוֹ תְּרוּמָה. וְאִם סָפֵק תְּרוּמָה וְיַחֲזֹר וְיִתְרֹם מִמָּקוֹם אַחֵר. כֵּיצַד. נָפְלָה אַחַת מֵהֶן עַל הַחֻלִּין אֵינָהּ מְדַמַּעַת. נָפְלָה שְׁנִיָּה לְמָקוֹם אַחֵר אֵינָהּ מְדַמַּעַת. נָפְלוּ שְׁתֵּיהֶן לְמָקוֹם אֶחָד מְדַמְּעוֹת כִּקְטַנָּה שֶׁבִּשְׁתֵּיהֶן.
O que separa um barril de vinho como teruma do vinho (de um monte de barris) e se descobre que era vinagre: se sabia que já era vinagre antes de separá-lo, não é teruma. E se azedou depois de separado, eis que é teruma. E se há dúvida, é teruma, mas deve voltar e separar de outro lugar. Como assim? Se uma delas caiu no produto comum, não o torna medumá. Se a segunda caiu em outro lugar, também não o torna medumá. Se ambas caíram no mesmo lugar, tornam-no medumá segundo a menor das duas.

O Rambam une nesta mesma passagem o caso do barril azedado (mishná 3:1) e o caso das duas quedas separadas (mishná 3:2), tratando-os como uma única unidade halachica sobre teruma duvidosa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o Perek Guimel.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 3:1
סרוח. הוא דבר נפסד ומעופש והוא שימצא הפנימי שלו שאינו ראוי לאכילה ודין אלו השתי תרומות שיתנם לכהן ויתן לו הכהן דמי הגדולה שבהם כי העיקר אצלנו המוציא מחברו עליו הראיה ואוכלן הכהן שתיהם: וענין אינה מדמעת בפני עצמה. שאם נפלה האחת בחולין לא יהיה הכל מדומע אלא שיוציאנו מאותן חולין שיעור מה שנפל בהן מן התרומה בלבד: ואין חייבין עליה חומש. מי שאכלה בשוגג כמו שיתבאר וכן השניה לפי שכל א' מהן יש בו ספק אם היא תרומה אם לאו:

"Podre": é algo estragado e apodrecido, isto é, quando se descobre que seu interior está impróprio para consumo. E a lei destas duas terumot (a primeira e a segunda separação) é que se entreguem ambas ao cohen, e o cohen lhe pague o valor da maior delas — pois nosso princípio é que "quem quer tirar de seu companheiro, a ele cabe a prova" (o dono não é obrigado a entregar de graça, já que não se sabe qual das duas é realmente a teruma válida) — e o cohen come ambas.

E quanto a "não torna medumá por si só": se uma delas caiu em produto comum, não se torna tudo medumá, mas se retira daquele produto comum apenas a quantidade equivalente ao que nele caiu da teruma.

"E não se é responsável pelo acréscimo de um quinto": quem a comeu por engano, como se explicará; e o mesmo para a segunda, pois cada uma delas está em dúvida se é teruma ou não.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 3:1
הַתּוֹרֵם וְכוּ'. בְּשׁוֹגֵג אַיְרֵי, וַאֲפִלּוּ הָכִי יַחֲזֹר וְיִתְרֹם, דַּהֲוֵי קָרוֹב לְמֵזִיד, מִשּׁוּם דַּהֲוָה לֵיהּ לְמִטְעַמֵּיהּ: וְנִמְצֵאת שֶׁל חֹמֶץ כוּ'. שֶׁהַתּוֹרֵם מִן הַחֹמֶץ עַל הַיַּיִן אֵין תְּרוּמָתוֹ תְרוּמָה, דְּיַיִן וְחֹמֶץ שְׁנֵי מִינִים הֵן: אִם סָפֵק. עַד שֶׁלֹּא תְרָמָהּ הֶחֱמִיצָה אוֹ לְאַחַר שֶׁתְּרָמָהּ הֶחֱמִיצָה: תְּרוּמָה וְיַחֲזֹר וְיִתְרֹם. וְנוֹתֵן שְׁתֵּיהֶן לַכֹּהֵן, וְכֹהֵן נוֹתֵן לוֹ דְּמֵי הָרִאשׁוֹנָה שֶׁהִיא גְדוֹלָה מִן הַשְּׁנִיָּה, שֶׁהַשְּׁנִיָּה מִתְמַעֶטֶת כְּפִי מַה שֶּׁעוֹלָה תְּרוּמַת הָרִאשׁוֹנָה, וּלְפִי שֶׁהַכֹּהֵן הוּא הַמּוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ וַאֲנַן קַיְמָא לָן בְּכָל דּוּכְתָּא הַמּוֹצִיא מֵחֲבֵרוֹ עָלָיו הָרְאָיָה, לְפִיכָךְ אֵינוֹ לוֹקֵחַ בְּלֹא דָמִים אֶלָּא הַקְּטַנָּה, וְצָרִיךְ שֶׁיִּתֵּן לוֹ דְּמֵי הַגְּדוֹלָה שֶׁהִיא הָרִאשׁוֹנָה: הָרִאשׁוֹנָה אֵינָהּ מְדַמַּעַת בִּפְנֵי עַצְמָהּ. אִם נָפְלָה לְפָחוֹת מִמֵּאָה שֶׁל חֻלִּין אֵין נַעֲשֵׂית מְדֻמָּע, דְּשֶׁמָּא אֵינָהּ תְּרוּמָה אֶלָּא הַשְּׁנִיָּה הִיא תְרוּמָה, וְכֵן הַשְּׁנִיָּה אֵינָהּ מְדַמַּעַת בִּפְנֵי עַצְמָהּ, שֶׁמָּא הָרִאשׁוֹנָה תְּרוּמָה וְלֹא הַשְּׁנִיָּה: וְאֵין חַיָּבִים עָלֶיהָ חֹמֶשׁ. זָר שֶׁאָכַל הָרִאשׁוֹנָה לְבַדָּהּ אוֹ הַשְּׁנִיָּה לְבַדָּהּ אֵינוֹ מְשַׁלֵּם חֹמֶשׁ כְּדִין שְׁאָר אוֹכְלֵי תְּרוּמָה בִּשְׁגָגָה:

"O que separa...": trata-se de um caso de erro involuntário; e ainda assim deve voltar e separar novamente, pois isso se aproxima de um ato deliberado, já que lhe cabia provar o produto antes de separá-lo.

"E o encontra vinagre...": pois quem separa do vinagre para o vinho, sua teruma não é teruma, já que vinho e vinagre são duas espécies distintas.

"Se há dúvida": se azedou antes ou depois de separá-lo.

"É teruma, mas deve voltar e separar": e entrega ambas ao cohen, que lhe paga o valor da primeira, que é maior que a segunda — pois a segunda se reduz na proporção do que já valeu a primeira teruma; e como é o cohen quem está tirando de seu companheiro, e temos como princípio geral que "quem tira de seu companheiro, a ele cabe a prova", por isso o cohen só toma sem pagamento a menor delas, devendo pagar o valor da maior, que é a primeira.

"A primeira não torna medumá por si só": se caiu em menos de cem partes de produto comum, não se torna medumá, pois talvez não seja teruma, e sim a segunda o seja; e o mesmo para a segunda, que talvez a primeira seja a teruma, e não ela.

"E não se é responsável pelo acréscimo de um quinto": um estranho que comeu a primeira sozinha, ou a segunda sozinha, não paga o quinto, como se paga por quem come teruma por engano em outros casos.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o Perek Guimel de Massechet Terumot.