Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Bet · Mishná 3

"Quem imerge utensílios em Shabat"

הַמַּטְבִּיל כֵּלִים בְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Digressão temática: partindo do padrão engano/propósito estabelecido em 2:2, a mishná reúne quatro casos análogos que não são, em si, leis de teruma — imergir utensílios impuros em Shabat, separar dízimo ou cozinhar em Shabat, plantar em Shabat, e a regra mais severa do ano sabático, em que mesmo o engano exige arrancar a planta

Quem imerge utensílios (impuros, na mikvê, para purificá-los) em Shabat (o que é proibido, por parecer um reparo do utensílio): por engano, pode usá-los; de propósito, não pode usá-los (até o fim do Shabat). Quem separa o dízimo (levantando teruma e maasser, proibido em Shabat pela mesma razão) e quem cozinha em Shabat: por engano, pode comer (o que preparou, ainda no mesmo Shabat, ou no caso do cozido, apenas depois de terminado o Shabat); de propósito, não pode comer (até o fim do Shabat). Quem planta em Shabat (violando a proibição de lavoura): por engano, pode manter (a árvore ou planta, sem precisar arrancá-la); de propósito, deve arrancá-la. E no ano sabático (Shevi'it, quando toda lavoura é proibida por si só), seja por engano, seja de propósito, deve arrancá-la (pois aqui não se aplica a leniência do engano, dada a gravidade maior desta transgressão).

הַמַּטְבִּיל כֵּלִים בְּשַׁבָּת, שׁוֹגֵג, יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם, מֵזִיד, לֹא יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם. הַמְעַשֵּׂר וְהַמְבַשֵּׁל בְּשַׁבָּת, שׁוֹגֵג, יֹאכַל, מֵזִיד, לֹא יֹאכַל. הַנּוֹטֵעַ בְּשַׁבָּת, שׁוֹגֵג, יְקַיֵּם, מֵזִיד, יַעֲקֹר. וּבַשְּׁבִיעִית, בֵּין שׁוֹגֵג בֵּין מֵזִיד, יַעֲקֹר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná é uma digressão temática: partindo do padrão "engano/propósito" que 2:2 aplicou à teruma, os sábios reuniram aqui outros casos regidos pelo mesmo padrão — mas que pertencem, em sua origem, às leis de Shabat e do ano sabático, não às leis de teruma propriamente ditas. Por isso, embora o assunto central de Massechet Terumot seja a oferta sacerdotal, esta mishná se apoia em fontes bíblicas distintas: a proibição geral de trabalho em Shabat, e a proibição específica de lavoura no ano sabático.

Shemot (Êxodo) 31:14; Vayikrá (Levítico) 25:4
וּשְׁמַרְתֶּם אֶת הַשַּׁבָּת כִּי קֹדֶשׁ הִוא לָכֶם... וּבַשָּׁנָה הַשְּׁבִיעִת שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן יִהְיֶה לָאָרֶץ, שַׁבָּת לַיהֹוָה: שָׂדְךָ לֹא תִזְרָע וְכַרְמְךָ לֹא תִזְמֹר.
"E guardareis o Shabat, pois é sagrado para vós" (Shemot 31:14) — a base da proibição geral de trabalho em Shabat, incluindo a lavoura e o preparo de alimentos; e "no sétimo ano haverá descanso completo para a terra, um Shabat para o Eterno: teu campo não semearás, e tua vinha não podarás" (Vayikrá 25:4) — a proibição específica de lavoura durante o ano sabático.

Por que, no caso de Shabat, o engano é tratado com leniência (permitindo usar, comer, ou manter o plantado), enquanto no ano sabático mesmo o engano exige arrancar a planta? A Guemará explica, segundo o princípio citado pelo Rambam em seu comentário, que "Israel não é suspeito quanto ao Shabat, mas é suspeito quanto ao ano sabático" — isto é: como o Shabat é observado com tanto rigor e constância pelo povo, um caso de violação é presumido genuinamente acidental, e por isso a Torá — através do princípio de que "o Shabat é sagrado, mas seus atos não são sagrados" — permite usufruir do resultado. Já a observância do ano sabático, historicamente mais frágil (por envolver perda econômica direta e prolongada), levou os sábios a suspeitar que alegações de "engano" pudessem encobrir violações deliberadas; por isso trataram o engano nesse caso com o mesmo rigor do propósito, exigindo sempre arrancar a planta, como medida preventiva.

Halachot · הֲלָכוֹת

Esta mishná não trata de leis de teruma propriamente ditas, mas de leis de Shabat e do ano sabático — por isso o Rambam a codifica não em Hilchot Terumot, mas em Hilchot Shabat e em Hilchot Shemitá VeYovel.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 23:8-9, 15
אָסוּר לְהַטְבִּיל כֵּלִים טְמֵאִין בְּשַׁבָּת מִפְּנֵי שֶׁהוּא כִּמְתַקֵּן כְּלִי... הַמַּטְבִּיל כֵּלִים בְּשַׁבָּת בְּשׁוֹגֵג יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן. בְּמֵזִיד לֹא יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן עַד לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת... אֵין מַגְבִּיהִין תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת בְּשַׁבָּת מִפְּנֵי שֶׁנִּרְאֶה כִּמְתַקֵּן דָּבָר שֶׁלֹּא הָיָה מְתֻקָּן... הַמַּגְבִּיהַּ תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת בְּשַׁבָּת אוֹ בְּיוֹם טוֹב בְּשׁוֹגֵג יֹאכַל מִמַּה שֶּׁהִתְקִין. בְּמֵזִיד לֹא יֹאכַל עַד מוֹצָאֵי שַׁבָּת.
É proibido imergir utensílios impuros em Shabat, por parecer um reparo do utensílio [...] Quem imerge utensílios em Shabat, por engano, pode usá-los; de propósito, não pode usá-los até o fim do Shabat [...] Não se levanta teruma e dízimos em Shabat, por parecer um reparo de algo que não estava reparado [...] Quem levanta teruma e dízimos em Shabat ou em dia festivo, por engano, pode comer do que preparou; de propósito, não pode comer até o fim do Shabat.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá VeYovel 1:12
הַנּוֹטֵעַ בַּשְּׁבִיעִית בֵּין בְּשׁוֹגֵג בֵּין בְּמֵזִיד יַעֲקֹר. מִפְּנֵי שֶׁיִּשְׂרָאֵל חֲשׁוּדִין עַל הַשְּׁבִיעִית. אִם תֹּאמַר בְּשׁוֹגֵג יְקַיֵּם יֹאמַר הַמֵּזִיד שׁוֹגֵג הָיִיתִי.
Quem planta no ano sabático, seja por engano, seja de propósito, deve arrancar — pois Israel é suspeito quanto ao ano sabático. Se disséssemos que, por engano, pode manter a planta, o transgressor deliberado diria: "eu agi por engano" (e escaparia da penalidade).

O Rambam confirma o mesmo raciocínio da mishná: a leniência do engano em Shabat se justifica pela confiabilidade geral da observância; sua ausência no ano sabático, pela vulnerabilidade da alegação de engano nesse caso — o que exige a medida preventiva de arrancar sempre, sem exceção.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 2:3
אלו כלים הם כלים טמאים ואסור להטבילן בשבת לפי שהוא מתקן ועוד יתבאר לך שאסור להוציא תרומה ומעשרות בשבת לפי שהוא מתקן: ואמרו המבשל בשבת בשוגג יאכל ר"ל מותר לו לאכול אותו התבשיל למוצאי שבת ואסור לו לאכול בשבת בשום פנים: במזיד לא יאכל. ר"ל מי שעבר ובשל בשבת אסור לו לאכול אותו תבשיל לעולם אבל אחרים מותר להם לאכול אותו תבשיל למוצאי שבת לפי שהש"י אמר בשבת קדש היא ואמרו רז"ל היא קדש ואין מעשיה קדש ומה שהצריכו להחמיר בשביעית יותר משבת כי העיקר אצלנו לא נחשדו ישראל על השבת ונחשדו על השביעית:

Estes utensílios são utensílios impuros, e é proibido imergi-los em Shabat, por ser considerado um reparo (do utensílio); e adiante se explicará que é proibido separar teruma e dízimos em Shabat, pelo mesmo motivo. E o que disseram, "quem cozinha em Shabat, por engano, pode comer" — significa que lhe é permitido comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, mas é absolutamente proibido comê-lo durante o próprio Shabat.

"De propósito, não pode comer": significa que aquele que transgrediu e cozinhou em Shabat, é proibido a ele mesmo comer aquele cozido para sempre; mas a outras pessoas é permitido comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, pois o Nome, bendito seja, disse "é sagrado o Shabat", e disseram nossos sábios, de abençoada memória: "ele é sagrado, mas seus atos não são sagrados". E o motivo pelo qual exigiram maior rigor no ano sabático do que em Shabat é que, segundo nosso princípio, Israel não é suspeito quanto ao Shabat, mas é suspeito quanto ao ano sabático.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 2:3
הַמַּטְבִּיל כֵּלִים בְּשַׁבָּת. שֶׁאָסוּר לְהַטְבִּיל כֵּלִים טְמֵאִים לְהַעֲלוֹתָם מִידֵי טֻמְאָתָן בְּשַׁבָּת, מִפְּנֵי שֶׁנִּרְאֶה כִּמְתַקֵּן כְּלִי. הַמְּעַשֵּׂר. שֶׁאָסוּר לְהַפְרִישׁ תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת בְּשַׁבָּת, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְתַקֵּן. וְהַמְבַשֵּׁל בַּשַּׁבָּת. בְּשׁוֹגֵג, יֹאכַל אוֹתוֹ תַבְשִׁיל לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת, אֲבָל לֹא בְּשַׁבָּת עַצְמוֹ. וּבְמֵזִיד לֹא יֹאכַל הוּא, אֲבָל אֲחֵרִים אוֹכְלִים לְמוֹצָאֵי שַׁבָּת, דִּכְתִיב (שמות לא) וּשְׁמַרְתֶּם אֶת הַשַּׁבָּת כִּי קֹדֶשׁ הִיא, הִיא קֹדֶשׁ וְאֵין מַעֲשֶׂיהָ קֹדֶשׁ. וּבַשְּׁבִיעִית בֵּין שׁוֹגֵג בֵּין מֵזִיד יַעֲקֹר. שֶׁנֶּחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל הַשְּׁבִיעִית וְלֹא נֶחְשְׁדוּ עַל הַשַּׁבָּת.

"Quem imerge utensílios em Shabat": pois é proibido imergir utensílios impuros para purificá-los de sua impureza em Shabat, por parecer um reparo do utensílio.

"Quem separa o dízimo": pois é proibido separar teruma e dízimos em Shabat, por ser considerado um reparo.

"E quem cozinha em Shabat": por engano, pode comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, mas não no próprio Shabat. E de propósito, ele mesmo não pode comer, mas outros podem comer depois de terminado o Shabat, conforme está escrito (Shemot 31): "e guardareis o Shabat, pois é sagrado" — ele é sagrado, mas seus atos não são sagrados.

"E no ano sabático, seja por engano, seja de propósito, deve arrancar": pois Israel foi suspeito quanto ao ano sabático, e não foi suspeito quanto ao Shabat.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.