Quem imerge utensílios (impuros, na mikvê, para purificá-los) em Shabat (o que é proibido, por parecer um reparo do utensílio): por engano, pode usá-los; de propósito, não pode usá-los (até o fim do Shabat). Quem separa o dízimo (levantando teruma e maasser, proibido em Shabat pela mesma razão) e quem cozinha em Shabat: por engano, pode comer (o que preparou, ainda no mesmo Shabat, ou no caso do cozido, apenas depois de terminado o Shabat); de propósito, não pode comer (até o fim do Shabat). Quem planta em Shabat (violando a proibição de lavoura): por engano, pode manter (a árvore ou planta, sem precisar arrancá-la); de propósito, deve arrancá-la. E no ano sabático (Shevi'it, quando toda lavoura é proibida por si só), seja por engano, seja de propósito, deve arrancá-la (pois aqui não se aplica a leniência do engano, dada a gravidade maior desta transgressão).
Esta mishná é uma digressão temática: partindo do padrão "engano/propósito" que 2:2 aplicou à teruma, os sábios reuniram aqui outros casos regidos pelo mesmo padrão — mas que pertencem, em sua origem, às leis de Shabat e do ano sabático, não às leis de teruma propriamente ditas. Por isso, embora o assunto central de Massechet Terumot seja a oferta sacerdotal, esta mishná se apoia em fontes bíblicas distintas: a proibição geral de trabalho em Shabat, e a proibição específica de lavoura no ano sabático.
Por que, no caso de Shabat, o engano é tratado com leniência (permitindo usar, comer, ou manter o plantado), enquanto no ano sabático mesmo o engano exige arrancar a planta? A Guemará explica, segundo o princípio citado pelo Rambam em seu comentário, que "Israel não é suspeito quanto ao Shabat, mas é suspeito quanto ao ano sabático" — isto é: como o Shabat é observado com tanto rigor e constância pelo povo, um caso de violação é presumido genuinamente acidental, e por isso a Torá — através do princípio de que "o Shabat é sagrado, mas seus atos não são sagrados" — permite usufruir do resultado. Já a observância do ano sabático, historicamente mais frágil (por envolver perda econômica direta e prolongada), levou os sábios a suspeitar que alegações de "engano" pudessem encobrir violações deliberadas; por isso trataram o engano nesse caso com o mesmo rigor do propósito, exigindo sempre arrancar a planta, como medida preventiva.
Esta mishná não trata de leis de teruma propriamente ditas, mas de leis de Shabat e do ano sabático — por isso o Rambam a codifica não em Hilchot Terumot, mas em Hilchot Shabat e em Hilchot Shemitá VeYovel.
O Rambam confirma o mesmo raciocínio da mishná: a leniência do engano em Shabat se justifica pela confiabilidade geral da observância; sua ausência no ano sabático, pela vulnerabilidade da alegação de engano nesse caso — o que exige a medida preventiva de arrancar sempre, sem exceção.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Estes utensílios são utensílios impuros, e é proibido imergi-los em Shabat, por ser considerado um reparo (do utensílio); e adiante se explicará que é proibido separar teruma e dízimos em Shabat, pelo mesmo motivo. E o que disseram, "quem cozinha em Shabat, por engano, pode comer" — significa que lhe é permitido comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, mas é absolutamente proibido comê-lo durante o próprio Shabat.
"De propósito, não pode comer": significa que aquele que transgrediu e cozinhou em Shabat, é proibido a ele mesmo comer aquele cozido para sempre; mas a outras pessoas é permitido comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, pois o Nome, bendito seja, disse "é sagrado o Shabat", e disseram nossos sábios, de abençoada memória: "ele é sagrado, mas seus atos não são sagrados". E o motivo pelo qual exigiram maior rigor no ano sabático do que em Shabat é que, segundo nosso princípio, Israel não é suspeito quanto ao Shabat, mas é suspeito quanto ao ano sabático.
"Quem imerge utensílios em Shabat": pois é proibido imergir utensílios impuros para purificá-los de sua impureza em Shabat, por parecer um reparo do utensílio.
"Quem separa o dízimo": pois é proibido separar teruma e dízimos em Shabat, por ser considerado um reparo.
"E quem cozinha em Shabat": por engano, pode comer aquele cozido depois de terminado o Shabat, mas não no próprio Shabat. E de propósito, ele mesmo não pode comer, mas outros podem comer depois de terminado o Shabat, conforme está escrito (Shemot 31): "e guardareis o Shabat, pois é sagrado" — ele é sagrado, mas seus atos não são sagrados.
"E no ano sabático, seja por engano, seja de propósito, deve arrancar": pois Israel foi suspeito quanto ao ano sabático, e não foi suspeito quanto ao Shabat.