Não se separa teruma de uma espécie sobre outra que não é sua espécie. E se separou, sua teruma não é teruma (totalmente inválida, sem exceção). Todo tipo de trigo é uma só espécie (mesmo havendo variedades distintas de cor ou qualidade, como o trigo escuro e o branco). Todo tipo de figos, figos secos e bolo de figos é uma só espécie (pois são o mesmo fruto em estágios diferentes de processamento — fresco, seco ao sol, e prensado em bolo), e separa-se de um sobre o outro. Em todo lugar onde há cohen (presente para receber a teruma), separa-se do melhor (a variedade de melhor qualidade, como o figo fresco em vez do seco); e em todo lugar onde não há cohen (e a teruma precisará ser transportada ou guardada até que ele venha buscá-la), separa-se do que mais se conserva (mesmo que seja de qualidade inferior, como o figo seco, que dura mais que o fresco). Rabi Yehudá diz: sempre se separa do melhor (independentemente de haver ou não cohen presente, pois considera que a Torá exige sempre a melhor porção, ainda que isso resulte em perda por deterioração).
Retoma-se aqui o tema de 1:5 (mesma exigência de mesma espécie, ali quanto a azeite e vinho), agora generalizado a todos os produtos agrícolas — e complementado pela exigência de que a teruma seja tomada sempre "do melhor", base do debate entre os sábios e Rabi Yehudá.
Por que a exigência de "espécie sobre espécie" é absoluta e sem exceção (a teruma é totalmente inválida se violada), enquanto a exigência de "do melhor" admite a leniência de separar do que mais se conserva quando não há cohen presente? A distinção reflete a diferença entre uma condição de validade e uma recomendação de qualidade. A exigência de mesma espécie deriva do princípio geral de que a teruma deve corresponder exatamente ao produto do qual é retirada — separar de espécie diferente equivale, na prática, a não separar teruma alguma daquele produto, pois não há identidade entre o que se consagra e o que permanece comum. Já a exigência de "do melhor" (חֶלְבּוֹ) é uma orientação de qualidade dentro da mesma espécie — e por isso os sábios permitiram, quando circunstâncias práticas o exigem (a ausência do cohen, que faria o produto de melhor qualidade se deteriorar antes de chegar às suas mãos), inverter a prioridade e separar do que se conserva, preservando o valor real da doação ao longo do tempo. Rabi Yehudá discorda dessa leniência, entendendo que a exigência bíblica de "o seu melhor" é absoluta, e que eventual perda por deterioração é um risco aceitável diante do princípio de dar sempre o melhor a D'us.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, reunindo a exigência de "do melhor" e a definição de espécie única.
O Rambam registra a lei conforme os sábios anônimos da mishná (sem mencionar a opinião discordante de Rabi Yehudá como norma), confirmando que a presença ou ausência do cohen no local determina qual variedade deve ser separada.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Separa-se do que mais se conserva": seu significado é que se deve separar da coisa mais durável e que mais se conserva, até que chegue às mãos do cohen. E toda esta declaração é evidente por si mesma. E a lei não segue Rabi Yehudá.
"Todo tipo de trigo é uma só espécie": ainda que haja o trigo escuro e o branco (variedades distintas em aparência).
"E todo tipo de figos é uma só espécie": ainda que haja figos pretos e brancos. Os figos, enquanto ainda úmidos, são chamados figos; e quando secam, são chamados grogarot (figos secos); e quando são prensados em forma redonda, são chamados bolo de dvelá.
"Separa-se do melhor": dos figos frescos sobre os figos secos, pois os figos frescos são melhores que os secos.
"Separa-se do que mais se conserva": dos figos secos sobre os figos frescos, pois os figos secos se conservam mais.
"Sempre se separa do melhor": pois está escrito (Bemidbar 18): "quando separardes o seu melhor" — sempre exigimos "o seu melhor", e se houver perda por deterioração, que haja perda. E a lei não segue Rabi Yehudá.