Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 8

"Aquele que despeja de um jarro a outro"

הַמְעָרֶה מִכַּד לְכַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O critério objetivo das três gotas para liberar o jarro esvaziado de teruma; a mudança de status quando o dono ativamente inclina e espreme o resto; e a medida mínima de teruma do dízimo do demai que obriga a busca ativa de um cohen

Aquele que despeja (vinho ou azeite de teruma) de um jarro a outro, e ainda goteja três gotas (depois de esvaziado, o jarro original continua a pingar naturalmente algumas gotas residuais, uma após a outra, como é normal em qualquer recipiente que acabou de ser esvaziado), pode colocar nele (no jarro original, já considerado suficientemente esvaziado) produto comum (sem necessidade de esperar mais ou de limpá-lo com esmero — as três gotas residuais que ainda possam pingar não impedem seu uso para chulin). Mas se o inclinou (deliberadamente, virando o jarro de lado) e o espremeu (forçando ativamente a saída do líquido residual que ainda restava agarrado às paredes internas), eis que isso ainda é teruma (pois esse ato deliberado de espremer demonstra que o dono ainda considerava aquele líquido residual como teruma valiosa, e não como resquício insignificante — e por isso o próprio jarro permanece classificado como recipiente de teruma até que essa extração ativa termine). E quanto (à quantidade mínima) deve haver na teruma do dízimo (terumat maasser) do demai (produto agrícola de origem duvidosa quanto à separação do dízimo) para que se leve ao cohen (obrigando o dono a efetivamente buscar um cohen e entregar-lhe a porção)? Um oitavo de um oitavo de log (uma medida mínima extremamente pequena — abaixo dela, o dono não é obrigado a se dar ao trabalho de procurar um cohen, podendo simplesmente guardar a porção até que um apareça, ou deixá-la se estragar).

הַמְעָרֶה מִכַּד לְכַד וְנוֹטֵף שָׁלֹשׁ טִפִּים, נוֹתֵן לְתוֹכָהּ חֻלִּין. הִרְכִּינָהּ וּמִצָּהּ, הֲרֵי זוֹ תְרוּמָה. וְכַמָּה תְהֵא בִתְרוּמַת מַעֲשֵׂר שֶׁל דְּמַאי וְיוֹלִיכֶנָּה לַכֹּהֵן, אֶחָד מִשְּׁמֹנָה לַשְּׁמִינִית:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná estabelece critérios objetivos e mensuráveis — três gotas naturais, versus a ação deliberada de espremer; um oitavo de oitavo de log — para determinar quando cessa a obrigação de zelo ativo pela teruma, aplicando de forma concreta o princípio da guarda proporcional já visto nas mishnayot 11:6-7.

Bemidbar (Números) 18:8
וַאֲנִי הִנֵּה נָתַתִּי לְךָ אֶת מִשְׁמֶרֶת תְּרוּמֹתָי.
"E Eu, eis que te dei a guarda das Minhas ofertas" (Bemidbar 18:8) — a mishná traduz o dever geral de "guarda" em critérios objetivos e verificáveis: três gotas de gotejamento natural e passivo já são consideradas o limite razoável de esvaziamento, liberando o recipiente para uso com chulin; mas o ato deliberado de inclinar e espremer demonstra intenção ativa de extrair mais teruma, prolongando a classificação do recipiente. Do mesmo modo, a quantidade mínima de "um oitavo de oitavo de log" (extremamente pequena) estabelece o limiar abaixo do qual a obrigação positiva de "levar ao cohen" — um dever ativo de busca e entrega — não se aplica, permitindo tratamento mais simples da porção.

Por que o ato de espremer muda o status do resíduo, mas o gotejamento natural não? A distinção repousa novamente no princípio de intenção (machshavá), já visto na mishná 11:5 sobre sementes reunidas ou descartadas: quando o dono simplesmente despeja o conteúdo principal e permite que o jarro goteje naturalmente até parar, ele está, por essa passividade, tratando o resíduo como insignificante — e a halachá aceita esse julgamento, com o parâmetro objetivo de três gotas marcando o ponto em que o gotejamento cessa de ser "esvaziamento em curso" e passa a ser mero resíduo residual desprezível. Mas se o dono inclina o jarro e o espreme ativamente — um gesto que exige esforço deliberado — ele está demonstrando, por essa mesma ação, que ainda valoriza aquele líquido residual como teruma útil, e não como refugo; por isso, enquanto durar esse processo de extração ativa, o jarro permanece classificado como recipiente de teruma, e não se pode nele colocar produto comum. O mesmo raciocínio de proporcionalidade prática rege a segunda parte da mishná: quantidades de teruma do dízimo do demai tão ínfimas quanto um oitavo de oitavo de log não justificam o esforço ativo de sair à procura de um cohen — mas quantidades maiores, sim.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, precisando o momento exato em que cessa o gotejamento considerado parte do esvaziamento.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:15
הַמְעָרֶה כַּד שֶׁל שֶׁמֶן תְּרוּמָה הֲרֵי זֶה מְעָרֶה עַד שֶׁיִּפְסֹק הָעַמּוּד וְיַתְחִיל הַשֶּׁמֶן לִנְטֹף מְעַט מְעַט וְכֵיוָן שֶׁנָּטְפוּ שָׁלֹשׁ טִפִּים זוֹ אַחַר זוֹ דַּיּוֹ. וּמֻתָּר לִתֵּן בְּכַד שֶׁמֶן חֻלִּין. הֲרֵי שֶׁלֹּא נָתַן אֶלָּא הִנִּיחַ הַכַּד עַד שֶׁנִּתְמַצֵּית אוֹתָהּ הַתַּמְצִית תְּרוּמָה.
"Aquele que despeja um jarro de azeite de teruma, despeja até que o jato cesse e o azeite comece a pingar pouco a pouco; e assim que pingaram três gotas, uma após a outra, é suficiente. E é permitido colocar no jarro azeite comum. Eis que, se não colocou nada, mas deixou o jarro até que aquele resíduo se destilasse por completo, esse resíduo é teruma" (o Rambam esclarece um detalhe técnico não explícito na mishná: a transição de "jato contínuo" para "gotejamento" marca o início da contagem das três gotas; e reafirma que, mesmo depois das três gotas, se o dono opta por deixar o jarro destilando passivamente sem ainda colocar chulin, o líquido que continua saindo mantém o status de teruma — a permissão de a partir das três gotas colocar chulin é uma opção, não uma mudança automática de status do próprio resíduo restante).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:8
אומר בכאן כי כשעירה כד שיש בו שמן של תרומה או יין של תרומה בכד שני לא נחייב אותו לקנח אותו הכד עד שלא ישאר שם לחלוחית ואז יתן שם החולין אלא מאחר שנתמצה מן הכד כל מה שהי'בתוכו ונטפו ממנו שלש טפים טפה אחר טפה כאשר יארע לכלי כשמריקין ממנו כל מה שבתוכו מותר לו לשום באותו הכד החולין... וכבר בארנו כי הדמאי אין לכהן בו אלא תרומת מעשר ושמינית הוא שמינית הלוג וכבר בארנו שיעור הלוג וכשתהיה תרומת מעשר של דמאי שמינית השמינית או יותר על זה אז יתחייב להטריח עצמו עד שיגיענה ליד כהן ואם היה פחות מזה אינו חייב להגיעו ליד כהן אבל יצניענו עד שיבא כהן ויתננו לו או עד שיפסד וזכר בכאן את זה הדין לפי שקדם לו הדבר בשיעורין הקטנים מן התרומה שאינן ראוין לחוש בהם מפני מעוטן:

Diz aqui que, quando se despeja um jarro que contém azeite de teruma ou vinho de teruma em um segundo jarro, não obrigamos o dono a limpar aquele jarro até que não reste ali nenhuma umidade, e só então colocar ali o chulin; mas, depois que se destilou do jarro tudo o que havia dentro dele e pingaram dele três gotas, uma após a outra, como acontece a um recipiente quando se esvazia dele tudo o que está dentro, é permitido colocar naquele jarro o chulin (o Rambam confirma que o critério das três gotas marca o fim razoável do processo de esvaziamento).

E já explicamos que o cohen não tem, no demai, senão a teruma do dízimo, e "shemin'it" é um oitavo do log, e já explicamos a medida do log; e quando a teruma do dízimo do demai for um oitavo do oitavo ou mais que isso, então se obriga a se esforçar até que ela chegue à mão de um cohen; e se for menos que isso, não se obriga a fazê-la chegar à mão de um cohen, mas a reserva até que venha um cohen e a entregue a ele, ou até que se estrague. E mencionou aqui esta lei porque já lhe precedeu o assunto das medidas pequenas de teruma que não são dignas de preocupação por sua pequenez (explicando a conexão temática entre as duas partes da mishná, aparentemente distintas — ambas tratam de limiares mínimos de preocupação prática).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:8
הַמְעָרֶה. יַיִן אוֹ שֶׁמֶן שֶׁל תְּרוּמָה מִכַּד לְכַד, וְאַחַר שֶׁעִירָה כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ נָטְפוּ מִמֶּנּוּ שָׁלֹשׁ טִפִּין, טִפָּה אַחַר טִפָּה, כְּדֶרֶךְ הַכֵּלִים לְאַחַר שֶׁעִירָה כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָן: נוֹתֵן לְתוֹכָהּ חֻלִּין. וְאֵין צָרִיךְ לְקַנְּחָהּ יָפֶה קֹדֶם שֶׁיִּתֵּן הַחֻלִּין לְתוֹכָהּ: הִרְכִּינָהּ. הִטָּה אוֹתָהּ עַל צִדָּהּ לְחָבִית שֶׁהָיָה בָהּ תְּרוּמָה אַחַר שֶׁעִירָה כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָהּ, וּמִצָּה הַיַּיִן אוֹ הַשֶּׁמֶן שֶׁהָיָה בָהּ וְנִרְאָה כָּנוּס בְּתוֹכָהּ: הֲרֵי זוֹ תְרוּמָה. וְלֹא אָמְרִינַן חֻלִּין הֵן, הוֹאִיל וְעִירָה כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָהּ וְנָטְפוּ מִמֶּנּוּ שָׁלֹשׁ טִפִּים: בִּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר שֶׁל דְּמַאי. שֶׁהַמַּעֲשֵׂר שֶׁלּוֹ, וְנוֹתֵן תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר לַכֹּהֵן, וְאִם יֵשׁ בְּיָדוֹ אֶחָד מִשְּׁמֹנָה שֶׁבִּשְׁמִינִית הַלֹּג צָרִיךְ לְהוֹלִיכָהּ לַכֹּהֵן, אֲבָל פָּחוֹת לֹא.

"Aquele que despeja": vinho ou azeite de teruma de um jarro a outro, e depois que despejou tudo o que estava dentro, pingaram dele três gotas, uma após a outra, do modo como costuma acontecer aos recipientes depois que se despeja tudo o que há dentro deles. "Pode colocar ali produto comum": e não precisa limpá-lo bem antes de colocar o chulin ali.

"Inclinou-o": virou-o de lado, em direção ao barril onde havia teruma, depois de já ter despejado tudo o que estava dentro, e espremeu o vinho ou azeite que ainda havia nele e que parecia reunido em seu interior. "Eis que isso ainda é teruma": e não dizemos que já são chulin, apenas porque despejou tudo o que estava dentro e pingaram dele três gotas (o ato ativo de espremer reabre, por assim dizer, a classificação do jarro como recipiente de teruma).

"Na teruma do dízimo do demai": que é o dízimo dele, e dá a teruma do dízimo ao cohen; e se tem em mãos um oitavo do oitavo do log, precisa levá-la ao cohen, mas menos que isso, não.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.