Tiltan (feno-grego, planta cujas sementes e caule têm sabor semelhante) que caiu dentro de um poço de vinho (de chulin): se era teruma, ou segundo dízimo (maasser sheni), se há na semente (sozinha, sem contar o caule) o suficiente para dar sabor (proíbe o vinho — mas isso se calcula apenas pela quantidade de semente que caiu, ignorando a contribuição do caule, ainda que este também tenha caído e também contribua fisicamente para o sabor), mas não se calcula pelo caule (pois o caule do tiltan, mesmo tendo sabor semelhante ao da semente, nunca foi santificado como teruma nem sujeito ao dízimo — apenas a semente, que é a parte comestível relevante para essas leis, o foi; por isso o caule é irrelevante para o cálculo, mesmo contribuindo sensorialmente). No sétimo ano (shevi'it, cuja santidade recai sobre toda a planta, incluindo o caule), e em kilei hakerem (mistura proibida de sementes no vinhedo, cuja proibição também recai sobre a planta inteira), e em hekdesh (consagração ao Templo, igualmente abrangente): se há na semente e no caule (somados juntos) o suficiente para dar sabor (proíbe — pois, nestes três casos, diferentemente da teruma e do segundo dízimo, a própria planta inteira, caule incluído, possui o status proibido, e por isso ambas as partes se somam no cálculo do sabor).
Esta mishná distingue entre categorias de santidade cujo âmbito recai apenas sobre o produto comestível (teruma, maasser sheni) e categorias cuja santidade recai sobre a planta inteira (shevi'it, kilei hakerem, hekdesh).
Por que o caule do tiltan conta para o sétimo ano e para hekdesh, mas não para teruma e maasser sheni, mesmo tendo sabor idêntico ou muito próximo ao da semente? A resposta está na origem da santidade de cada categoria, não em suas propriedades sensoriais. A teruma e o dízimo recaem exclusivamente sobre a produção agrícola destinada à colheita e ao consumo — a Torá fala em "primícias do grão" e da "tevuá" no sentido de produto colhido para uso alimentar, o que exclui estruturalmente o caule, que nunca foi parte do produto separado como teruma nem contado no dízimo. Já a santidade do sétimo ano e do hekdesh não se limita ao produto comestível: recai sobre a planta e sua produção como um todo orgânico, incluindo partes não comestíveis, pois a lei de shevi'it trata do próprio uso da terra e de tudo o que dela cresce, e o hekdesh, uma vez consagrado, satura o objeto inteiro. Por isso, ainda que o caule do tiltan tenha sabor tão intenso quanto a semente — como o Bartenura confirma explicitamente — apenas nos casos de santidade abrangente ele se soma ao cálculo do sabor que proíbe.
O Rambam codifica o caso da teruma nesta mishná dentro de Hilchot Terumot; os casos de sétimo ano, kilei hakerem e hekdesh são tratados em seus respectivos tratados de Mishné Torá.
Quanto aos casos de sétimo ano (shevi'it), kilei hakerem e hekdesh mencionados na segunda parte desta mishná, o Rambam os codifica em seus respectivos tratados — Hilchot Shemitá VeYovel e Hilchot Kilaim — onde reafirma o princípio de que a santidade dessas categorias recai sobre a planta inteira, incluindo o caule, de modo que o cálculo do sabor soma semente e caule juntos, diferentemente do caso da teruma tratado acima.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Tiltan é conhecido, em árabe chelba (identificação da planta, popularmente conhecida como feno-grego). E é sabido que teruma e segundo dízimo não obrigam senão as sementes comestíveis apenas (o âmbito dessas duas categorias de santidade está estruturalmente limitado à parte da planta destinada ao consumo). E a lei do hekdesh, do sétimo ano e do kilaim aplica-se tanto às sementes quanto ao caule (estas três categorias têm âmbito mais amplo, abrangendo a planta inteira). E o tiltan — o sabor de seu caule é próximo ao sabor de sua semente (o Rambam nota explicitamente a razão prática pela qual esta mishná escolheu o tiltan como exemplo: por ter caule e semente com sabores muito semelhantes, ele ilustra com clareza a distinção puramente legal — e não sensorial — entre as categorias que contam o caule e as que não contam).
"Tiltan": em árabe chulba, e em língua estrangeira fenigrego (o Bartenura fornece os nomes vernáculos da planta, confirmando tratar-se do feno-grego comum).
"Mas não pelo caule": ainda que o sabor de seu caule e de seu fruto sejam iguais, o caule não se soma ao fruto para proibir vinho de chulin, porque o caule não é santificado pela teruma (a razão estrutural é reafirmada: a ausência de santidade no caule, e não a ausência de sabor, é o que o exclui do cálculo). Mas no sétimo ano, kilaim e hekdesh, também o caule é proibido (nestas três categorias, a santidade ou proibição abrange a planta inteira). E o caule do tiltan no vinho dá sabor para melhorar (noten taam lishevach — uma observação adicional do Bartenura: o caule, quando misturado ao vinho, na verdade aprimora seu sabor, o que é relevante para outras discussões halachicas sobre se um sabor que melhora o produto, ao invés de apenas mantê-lo neutro, teria um peso diferente no cálculo — ainda que, aqui, isso não altere a conclusão central da mishná).