Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Alef · Mishná 2

"O surdo que fala e não ouve"

חֵרֵשׁ הַמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná esclarece que a categoria de "surdo" desqualificado na mishná anterior é especificamente o surdo-mudo — quem não ouve nem fala —, distinguindo-o do que fala mas não ouve, cuja teruma vale se retroativamente separada

O surdo que fala e não ouve (por ter perdido a audição depois de aprender a falar) não deve separar teruma a princípio (pois não pode ouvir a si mesmo pronunciar a bênção que acompanha a separação); mas se separou, sua teruma é teruma (pois tem discernimento pleno, sendo a exigência da bênção apenas um requisito inicial, não uma condição de validade). O surdo de que falam os sábios em toda parte (sempre que a Mishná usa o termo "surdo" sem qualificação, referindo-se a alguém legalmente incapaz) é aquele que nem ouve nem fala (desde o nascimento, e por isso presumido sem o discernimento necessário para atos que exigem intenção, como votos, casamento e a separação de teruma).

חֵרֵשׁ הַמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ, לֹא יִתְרֹם. וְאִם תָּרַם, תְּרוּמָתוֹ תְרוּמָה. חֵרֵשׁ שֶׁדִּבְּרוּ בוֹ חֲכָמִים בְּכָל מָקוֹם, שֶׁאֵינוֹ לֹא שׁוֹמֵעַ וְלֹא מְדַבֵּר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná refina a categoria de "surdo" (חֵרֵשׁ) já mencionada em 1:1, esclarecendo que a desqualificação bíblica derivada de "cujo coração o incitar" (Shemot 25:2) aplica-se apenas a quem carece por completo de audição e fala — não a quem apenas perdeu um dos dois sentidos.

Shemot (Êxodo) 25:2
מֵאֵת כָּל אִישׁ אֲשֶׁר יִדְּבֶנּוּ לִבּוֹ תִּקְחוּ אֶת תְּרוּמָתִי.
"De todo homem cujo coração o incitar, tomareis Minha oferta" (Shemot 25:2) — a base pela qual a tradição oral exclui da separação de teruma quem carece do discernimento necessário para agir por vontade própria.

A exclusão bíblica do "surdo" não é sobre a falta de audição por si mesma, mas sobre a presunção de falta de discernimento (דעת) que a acompanha quando total e congênita — daí a mishná restringir a categoria ao que nem ouve nem fala. Quem nasce surdo-mudo nunca desenvolveu a linguagem através da qual o intelecto se articula socialmente, e por isso a tradição oral o trata, para fins legais, como alguém sem pleno discernimento — de modo semelhante ao menor e ao louco. Já quem apenas perdeu a audição depois de adulto, mas ainda fala com clareza, mantém intacto seu discernimento; a única razão pela qual a mishná diz que ele "não deve separar teruma a princípio" é de ordem prática — a separação da teruma deveria, idealmente, ser acompanhada de uma bênção que o próprio separador ouve pronunciar, e ele não pode ouvi-la. Por isso, se já separou, sua teruma vale plenamente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no mesmo capítulo dedicado aos desqualificados para separar teruma.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 4:4
חֲמִשָּׁה לֹא יִתְרֹמוּ וְאִם תָּרְמוּ תְּרוּמָתָן תְּרוּמָה. חֵרֵשׁ מְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ מִפְּנֵי שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ הַבְּרָכָה. וְהָאִלֵּם שֶׁשּׁוֹמֵעַ וְאֵינוֹ מְדַבֵּר. וְהֶעָרוּם. מִפְּנֵי שֶׁאֵינָן יְכוֹלִין לְבָרֵךְ. וְהַשִּׁכּוֹר וְהַסּוּמָא מִפְּנֵי שֶׁאֵינָן יְכוֹלִין לְכַוֵּן וּלְהַפְרִישׁ אֶת הַיָּפֶה:
Cinco não devem separar teruma a princípio, mas se separaram, sua teruma é teruma: o surdo que fala e não ouve, porque não ouve a bênção; e o mudo que ouve e não fala; e o nu, porque não podem pronunciar a bênção; e o embriagado, e o cego, porque não conseguem escolher com atenção e separar do melhor (estes últimos três serão detalhados em 1:6).

O Rambam reúne, num único halachá, os cinco casos em que a desqualificação é apenas para "a princípio" (לְכַתְּחִלָּה) — casos em que, se a teruma já foi separada, ela vale plenamente, ao contrário dos cinco de 1:1, cuja teruma é sempre inválida. O surdo que fala e não ouve, tratado nesta mishná, inaugura essa segunda categoria — a das desqualificações apenas processuais, não substanciais.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 1:2
חֵרֵשׁ. בִּלְשׁוֹנֵנוּ הוּא שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ... וּכְבָר נִתְבָּאֵר זֶה בְּסֵפֶר הַשְּׁאֵלוֹת הַטִּבְעִיּוֹת וְקָרָא לָאִלֵּם בְּסִבַּת הָאִלְמוּת חֵרֵשׁ. וְדַע כִּי כְּשֶׁנּוֹלַד בָּאָדָם הַחֵרְשׁוּת אַחַר שֶׁשָּׁמַע אוֹ נִשְׁתַּתֵּק אַחַר שֶׁהָיָה מְדַבֵּר מֻתָּר לוֹ לִתְרֹם.

"Surdo" em nossa língua é quem não ouve (mesmo que fale) — e os sábios, de bendita memória, chamam também de "surdo" o mudo, por causa da causa comum da mudez: ela se desenvolve no feto ainda no ventre materno (quando a criança nunca ouviu o que se fala a ela, tornando-se incapaz de aprender a falar) — e isto já se explicou no Livro das Questões Naturais. Por isso chamou-se "surdo" também ao mudo por causa da mudez (sua origem congênita comum).

E saiba que, quando a surdez sobrevém no adulto depois de já ter ouvido (perdendo a audição já formado), ou quando fica mudo depois de já ter falado (perdendo a fala já tendo audição), é permitido a ele separar teruma (pois manteve o discernimento pleno, adquirido enquanto capaz).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 1:2
לֹא יִתְרֹם. לְכַתְּחִלָּה, דְּצָרִיךְ לְהַשְׁמִיעַ לְאָזְנוֹ כְּשֶׁיְּבָרֵךְ. חֵרֵשׁ שֶׁדִּבְּרוּ בוֹ חֲכָמִים בְּכָל מָקוֹם וְכוּ'. לָאו כְּלָלָא הוּא, דִּבְרֵישׁ חֲגִיגָה תָּנֵי חֵרֵשׁ, וּמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ בִּכְלָל, וּבְפֶרֶק מִצְוַת חֲלִיצָה לְעִנְיַן חֲלִיצָה. שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ וְאֵינוֹ מְדַבֵּר. שֶׁנּוֹלַד חֵרֵשׁ מִמְּעֵי אִמּוֹ, וְכֵיוָן שֶׁלֹּא שָׁמַע מֵעוֹלָם מַה שֶּׁמְּדַבְּרִים לוֹ אִי אֶפְשָׁר לוֹ שֶׁיְּדַבֵּר.

"Não deve separar teruma": a princípio, pois é necessário fazer chegar à própria orelha o som quando abençoa (a bênção deve ser ouvida por quem a pronuncia).

"O surdo de que falam os sábios em toda parte etc.": não é uma regra absoluta (sem exceções), pois no início de Chagigá ensina-se que "surdo" inclui também quem fala e não ouve, e no capítulo "Mitzvat Chalitzá" (Yevamot), quanto às leis de chalitzá, o mesmo se aplica (ali, o surdo que fala mas não ouve também é considerado desqualificado, diferentemente do caso de teruma).

"Que não ouve e não fala": refere-se a quem nasceu surdo do ventre de sua mãe; e, como nunca ouviu o que lhe falam, é impossível que aprenda a falar (por isso a mudez, nesse caso, é consequência necessária da surdez congênita, e ambas juntas indicam a falta de discernimento pleno).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.