Qual é o mechir kelev? Aquele que diz a seu companheiro: eis para ti este cordeiro, em troca deste cão. E do mesmo modo, dois sócios que dividiram, um tomou dez e um tomou nove e um cão — os que correspondem ao cão são proibidos, os que estão com o cão são permitidos. O etnan de cão e o mechir de prostituta são permitidos, pois está dito (Devarim 23): “dois”, e não quatro. E suas crias são permitidas, pois está dito (ali): “eles”, e não suas crias.
— Esta mishná define o mechir kelev, o preço de cão, pelo caso paradigmático de um homem que entrega um cordeiro a outro em troca de um cão — esse cordeiro fica proibido ao altar. A mishná ilustra a mesma lei num caso de partilha: dois sócios possuíam em comum dez cordeiros e um cão; ao dividir o patrimônio, um ficou com os dez cordeiros e o outro com nove cordeiros e o cão. Os dez cordeiros que o primeiro sócio recebeu correspondem, na divisão, ao valor do cão que o segundo recebeu junto com seus nove cordeiros — e por isso ficam proibidos ao altar, como se tivessem sido dados em troca do cão; já os nove cordeiros que permaneceram com o próprio cão são permitidos, pois não foram trocados por ele, mas divididos junto com ele. A mishná então traz um refinamento essencial, extraído da leitura precisa do versículo de Devarim: a Torá proíbe apenas duas combinações específicas — o etnan dado a uma prostituta e o mechir pago por um cão — e não as combinações inversas: o pagamento dado por relação com um cão, ou o preço pago para adquirir uma prostituta como serva. Essas duas últimas, ainda que moralmente questionáveis, não geram a proibição ritual ao altar, pois o versículo, ao dizer “dois”, delimita precisamente as duas categorias proibidas, e não quatro. E, quanto às duas categorias que de fato são proibidas — o etnan e o mechir —, suas crias são permitidas ao altar, pois o versículo diz “eles”, os próprios animais entregues, e não as crias que deles nascerem depois.
Rambam explica que os cordeiros correspondentes ao cão ficam proibidos porque o preço do cão, tomado à parte, valia mais do que cada um dos dez cordeiros que lhe correspondiam na divisão — de modo que a parcela equivalente a esse excedente está presente, em pequena medida, em cada um dos dez cordeiros, e por isso todos ficam proibidos. E sobre “dois”: o sentido da mishná é que o versículo se lê como se estivesse duplicado, como se o discurso oculto tivesse sido dividido e interpretado, proibindo assim as duas categorias e ligando o tema de “dois” ao tema de “eles”.
Bartenura explica que, correspondendo aos dez cordeiros que o companheiro tomou, os dez cordeiros que correspondem aos nove e ao cão ficam todos proibidos por serem preço de cão, e os nove que ficaram com o cão são permitidos. Sobre “dois, e não quatro”: a palavra “ambos” (shneihem), tal como o versículo a escreveu, é dividida como se estivesse escrito “dois, eles são”. “Dois” ensina especificamente o etnan de prostituta e o mechir de cão, e não os quatro casos que incluiriam também o etnan de cão e o mechir de prostituta. E “eles” implica eles mesmos, e não suas crias.
Rashi observa, sobre “os que correspondem ao cão são proibidos”, que a proibição aqui é especificamente para a oferenda no altar, pois esses cordeiros equivalem ao preço do cão.