Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Vav · Mishná 2 de 5

Qual é o etnan

אֵיזֶהוּ אֶתְנָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A definição do etnan: o pagamento dado a uma prostituta por seu serviço, ainda que sejam cem cordeiros, todos proibidos ao altar; e o caso de quem dá um cordeiro para que a escrava de outro se deite com seu escravo, com a disputa entre Rabi e os Sábios

Qual é o etnan? Aquele que diz a uma prostituta: eis para ti este cordeiro, por teu pagamento — ainda que sejam cem, todos são proibidos. E do mesmo modo aquele que diz a seu companheiro: eis para ti este cordeiro, e que tua escrava se deite junto a meu escravo — Rabi diz: não é etnan. E os Sábios dizem: é etnan.

— Esta mishná define com precisão o que conta como etnan, a categoria mencionada na abertura do capítulo anterior. O caso paradigmático é o de um homem que entrega um cordeiro a uma prostituta como pagamento pelo serviço sexual prestado; a mishná ensina que, mesmo que o pagamento tenha sido de cem cordeiros — muito além do valor combinado ou esperado — todos eles ficam proibidos ao altar como etnan, e não apenas o primeiro, ou o que corresponderia ao valor justo do serviço; não se diz que o excedente é um mero presente, isento da proibição. A segunda parte da mishná traz um caso mais sutil: um homem diz a seu companheiro “eis para ti este cordeiro, e em troca deixa tua escrava passar a noite junto a meu escravo” — ou seja, o pagamento não é por um serviço prestado ao próprio doador, mas para viabilizar a união entre a escrava do destinatário e o escravo do doador. Sobre esse caso há uma disputa: Rabi sustenta que isso não configura etnan, pois o pagamento não foi dado à própria prostituta ou à própria mulher em troca de seu serviço, mas ao dono da escrava, por uma finalidade distinta; os Sábios, por sua vez, sustentam que a definição de etnan se estende também a esse caso, e o cordeiro fica igualmente proibido ao altar.

אֵיזֶהוּ אֶתְנָן. הָאוֹמֵר לְזוֹנָה, הֵא לִיךְ טָלֶה זֶה בִשְׂכָרֵךְ, אֲפִלּוּ מֵאָה, כֻּלָּן אֲסוּרִין. וְכֵן הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, הֵא לְךָ טָלֶה זֶה וְתָלִין שִׁפְחָתְךָ אֵצֶל עַבְדִּי, רַבִּי אוֹמֵר, אֵינוֹ אֶתְנָן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֶתְנָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 6:2
אֵיזֶהוּ אֶתְנָן הָאוֹמֵר לְזוֹנָה הֵא לָךְ טָלֶה זֶה כו': אֵין הֶפְרֵשׁ בֵּין שֶׁתְּהֵא זוֹנָה אוֹ שִׁפְחָה אוֹ כּוּתִית אוֹ יִשְׂרְאֵלִית, וּבִלְבַד שֶׁתְּהֵא מֵחַיָּבֵי לָאוִין אוֹ עֶרְוָה, אֲבָל פְּנוּיָה כְּבָר בֵּאַרְנוּ פְּעָמִים שֶׁאִם נִבְעֲלָה לֹא נֶאֶסְרָה לְכֹהֵן מִשּׁוּם זוֹנָה, לְפִי שֶׁאֵינָהּ בְּעִילַת זְנוּת, לְפִיכָךְ אֶתְנָנָהּ מֻתָּר. וְדַע שֶׁאֶתְנַן זָכָר לְגַבֵּי מִזְבֵּחַ אָסוּר, וְאִם הָאִשָּׁה הִיא שֶׁנָּתְנָה הָאֶתְנָן לָאִישׁ, הֲרֵי אֵינוֹ אָסוּר הָאֶתְנָן הַהוּא. וּמַה שֶּׁאָמַר אֲפִלּוּ הֵן מֵאָה, עִנְיָנוֹ שֶׁאִם הִסְכִּים עִמָּהּ עַל שְׂכִירוּתָהּ בְּכֶבֶשׂ אֶחָד עַל דֶּרֶךְ מָשָׁל, וְנָתַן לָהּ מֵאָה, הֲרֵי כֻּלָּן אֲסוּרִין מִשּׁוּם אֶתְנָן:

Rambam explica que não há diferença entre a mulher ser prostituta, escrava, gentia ou israelita, contanto que se trate de uma união proibida por preceito negativo ou de relação incestuosa; mas quanto à solteira já explicamos, em outras ocasiões, que sua relação não a torna proibida ao sacerdote como “zoná”, pois não é uma união de prostituição, e por isso seu pagamento é permitido. E saiba que o etnan dado a um homem também é proibido ao altar; mas se foi a mulher quem deu o pagamento ao homem, esse pagamento não é proibido. E o que a mishná diz, “ainda que sejam cem”, significa que, se combinou com ela pagar um único cordeiro, por exemplo, e deu-lhe cem, todos ficam proibidos como etnan.

Bartenura · Temurá 6:2
הָאוֹמֵר לְזוֹנָה. אַחַת נָכְרִית וְאַחַת יִשְׂרְאֵלִית, וְהוּא שֶׁתִּהְיֶה מֵחַיָּבֵי לָאוִין: אֲפִלּוּ מֵאָה כֻּלָּן אֲסוּרִים. הִתְנָה עִמָּהּ לָתֵת לָהּ טָלֶה אֶחָד בְּאֶתְנָנָהּ וְשָׁלַח לָהּ אֲפִלּוּ מֵאָה, לֹא אָמְרִינַן חַד דְּאַתְנֵי עִמָּהּ הָוֵי אֶתְנָן וְהָנָךְ אַחֲרִינֵי כֻּלָּם מַתָּנָה, אֶלָּא כֻּלְּהוּ חֲשִׁיבֵי אֶתְנָן וַאֲסוּרִין: וְתָלִין שִׁפְחָתְךָ אֵצֶל עַבְדִּי. בְּעֶבֶד עִבְרִי שֶׁאֵין לוֹ אִשָּׁה וּבָנִים מַיְרֵי, שֶׁאֵין רְשׁוּת בְּיַד רַבּוֹ לִמְסֹר לוֹ שִׁפְחָה כְּנַעֲנִית, הִלְכָּךְ אֶתְנָנָהּ אָסוּר לְדִבְרֵי חֲכָמִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי:

Bartenura explica que “aquele que diz a uma prostituta” refere-se tanto a uma gentia quanto a uma israelita, desde que se trate de uma relação proibida por preceito negativo. Sobre “ainda que sejam cem, todos são proibidos”: combinou com ela dar-lhe um único cordeiro como pagamento e lhe enviou até cem — não se diz que apenas o cordeiro combinado é etnan e os demais são um presente à parte, mas todos são considerados etnan e proibidos. Sobre “e que tua escrava se deite junto a meu escravo”: trata-se do escravo hebreu que não tem esposa nem filhos, pois seu senhor não tem autoridade para lhe entregar uma escrava cananeia; por isso, o pagamento é proibido segundo os Sábios. E a lei não segue a opinião de Rabi.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 29a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' פלוגתא דרבי ורבנן — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא:

Rashi observa apenas que a disputa entre Rabi e os Sábios, registrada nesta mishná sobre o caso da escrava e do escravo, é explicada em detalhe na Guemará que se segue.