Qual é o etnan? Aquele que diz a uma prostituta: eis para ti este cordeiro, por teu pagamento — ainda que sejam cem, todos são proibidos. E do mesmo modo aquele que diz a seu companheiro: eis para ti este cordeiro, e que tua escrava se deite junto a meu escravo — Rabi diz: não é etnan. E os Sábios dizem: é etnan.
— Esta mishná define com precisão o que conta como etnan, a categoria mencionada na abertura do capítulo anterior. O caso paradigmático é o de um homem que entrega um cordeiro a uma prostituta como pagamento pelo serviço sexual prestado; a mishná ensina que, mesmo que o pagamento tenha sido de cem cordeiros — muito além do valor combinado ou esperado — todos eles ficam proibidos ao altar como etnan, e não apenas o primeiro, ou o que corresponderia ao valor justo do serviço; não se diz que o excedente é um mero presente, isento da proibição. A segunda parte da mishná traz um caso mais sutil: um homem diz a seu companheiro “eis para ti este cordeiro, e em troca deixa tua escrava passar a noite junto a meu escravo” — ou seja, o pagamento não é por um serviço prestado ao próprio doador, mas para viabilizar a união entre a escrava do destinatário e o escravo do doador. Sobre esse caso há uma disputa: Rabi sustenta que isso não configura etnan, pois o pagamento não foi dado à própria prostituta ou à própria mulher em troca de seu serviço, mas ao dono da escrava, por uma finalidade distinta; os Sábios, por sua vez, sustentam que a definição de etnan se estende também a esse caso, e o cordeiro fica igualmente proibido ao altar.
Rambam explica que não há diferença entre a mulher ser prostituta, escrava, gentia ou israelita, contanto que se trate de uma união proibida por preceito negativo ou de relação incestuosa; mas quanto à solteira já explicamos, em outras ocasiões, que sua relação não a torna proibida ao sacerdote como “zoná”, pois não é uma união de prostituição, e por isso seu pagamento é permitido. E saiba que o etnan dado a um homem também é proibido ao altar; mas se foi a mulher quem deu o pagamento ao homem, esse pagamento não é proibido. E o que a mishná diz, “ainda que sejam cem”, significa que, se combinou com ela pagar um único cordeiro, por exemplo, e deu-lhe cem, todos ficam proibidos como etnan.
Bartenura explica que “aquele que diz a uma prostituta” refere-se tanto a uma gentia quanto a uma israelita, desde que se trate de uma relação proibida por preceito negativo. Sobre “ainda que sejam cem, todos são proibidos”: combinou com ela dar-lhe um único cordeiro como pagamento e lhe enviou até cem — não se diz que apenas o cordeiro combinado é etnan e os demais são um presente à parte, mas todos são considerados etnan e proibidos. Sobre “e que tua escrava se deite junto a meu escravo”: trata-se do escravo hebreu que não tem esposa nem filhos, pois seu senhor não tem autoridade para lhe entregar uma escrava cananeia; por isso, o pagamento é proibido segundo os Sábios. E a lei não segue a opinião de Rabi.
Rashi observa apenas que a disputa entre Rabi e os Sábios, registrada nesta mishná sobre o caso da escrava e do escravo, é explicada em detalhe na Guemará que se segue.