Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Dalet · Mishná 4 de 4

A chatat com defeito vendida e substituída

הַמַּפְרִישׁ חַטָּאתוֹ, וַהֲרֵי הִיא בַעֲלַת מוּם, מוֹכְרָהּ וְיָבִיא בְדָמֶיהָ אַחֶרֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecho do Perek Dalet: quem separa uma chatat que tem defeito a vende e traz outra com o dinheiro; Rabi Elazar ben Rabi Shimon discorda dos Sábios e sustenta que a primeira, ainda que vendida, morre se a segunda for oferecida antes de ela ser abatida para uso comum

Aquele que separa sua chatat, e eis que ela tem defeito — vende-a e traz com seu dinheiro outra. Rabi Elazar filho de Rabi Shimon diz: se a segunda foi oferecida antes que a primeira fosse abatida, ela morrerá, pois os donos já obtiveram expiação.

— Esta última mishná do Perek Dalet trata do caso mais simples: um animal separado como chatat que já nasce, ou se torna, defeituoso antes mesmo de qualquer expiação ter sido tentada. A lei básica, aceita pelos Sábios, é direta: vende-se o animal defeituoso — que passa a ser propriedade comum de quem o comprar — e com o dinheiro da venda compra-se e oferece-se uma nova chatat em seu lugar. Como o animal original já saiu, pela venda, da posse e do domínio de seu dono, ele deixa de estar sujeito à regra de “chatat cujo dono já se expiou”, mesmo que a segunda venha a ser oferecida depois. Rabi Elazar ben Rabi Shimon discorda: para ele, o que importa não é a posse, mas a mera existência do animal no mundo; enquanto ele ainda existir — esteja com o dono original, com o comprador, ou em qualquer outra mão — o fato de a substituta ter sido oferecida antes de ele ser abatido para consumo comum já basta para retroativamente classificá-lo como “chatat cujo dono já se expiou por outra”, condenando-o a morrer mesmo depois de vendido. A halachá não segue Rabi Elazar ben Rabi Shimon.

הַמַּפְרִישׁ חַטָּאתוֹ, וַהֲרֵי הִיא בַעֲלַת מוּם, מוֹכְרָהּ וְיָבִיא בְדָמֶיהָ אַחֶרֶת. רַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אִם קָרְבָה הַשְּׁנִיָּה עַד שֶׁלֹּא נִשְׁחֲטָה הָרִאשׁוֹנָה, תָּמוּת, שֶׁכְּבָר כִּפְּרוּ הַבְּעָלִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 4:4
הַמַּפְרִישׁ חַטָּאתוֹ וַהֲרֵי הִיא בַעֲלַת מוּם מוֹכְרָהּ כו': רַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין הֶפְרֵשׁ בֵּין שֶׁתְּהֵא הַבְּהֵמָה הַזֹּאת תַּחַת יָדוֹ אוֹ תַּחַת יַד אַחֵר, כָּל זְמַן שֶׁתִּמָּצֵא אַחַר שֶׁנִּתְכַּפְּרוּ הַבְּעָלִים תָּמוּת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים אֵינוֹ כֵן, אֶלָּא כָּל זְמַן שֶׁהִיא מְצוּיָה תַּחַת יַד בְּעָלֶיהָ, דָּנִין בָּהּ דִּין זֶה, אֲבָל אִם מְכָרָהּ, הֲרֵי הִיא כְּאִלּוּ אֵינָהּ מְצוּיָה. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים. וּכְבָר זָכַרְנוּ בַּסְּדָרִים שֶׁלִּפְנֵי זֶה שֶׁזּוֹ שֶׁדִּינָהּ תָּמוּת, מְבִיאִין אוֹתָהּ בַּבַּיִת וְנוֹעֲלִים דֶּלֶת בְּפָנֶיהָ עַד שֶׁתָּמוּת בָּרָעָב. וְרָאוּי שֶׁתֵּדַע בְּכָאן שֶׁהַמַּפְרִישׁ שְׁנֵי צִבּוּרֵי מָעוֹת לְאַחֲרָיוּת, מִתְכַּפֵּר בְּאֶחָד מֵהֶם וְהַשֵּׁנִי יָבִיא בּוֹ עוֹלַת נְדָבָה. וְכֵן הַמַּפְרִישׁ שְׁתֵּי חַטָּאוֹת בְּאַחֲרָיוּת, מִתְכַּפֵּר בְּאֵיזוֹ שֶׁיִּרְצֶה, וְהַשְּׁנִיָּה תִּרְעֶה עַד שֶׁתִּסְתָּאֵב וְיָבִיא בְדָמֶיהָ עוֹלַת נְדָבָה. וְהַמַּקְדִּישׁ חַטָּאת מְעֻבֶּרֶת, הֲרֵי הִיא וְוַלְדָּהּ כְּמַפְרִישׁ שְׁתֵּי חַטָּאוֹת לְאַחֲרָיוּת:

Rambam apresenta a opinião de Rabi Elazar ben Rabi Shimon: não há diferença entre o animal estar em posse do dono original ou de outra pessoa — sempre que for achado depois que os donos já se expiaram, morrerá. Os Sábios discordam: esse julgamento só se aplica enquanto o animal ainda está em posse de seu próprio dono; uma vez vendido, é como se ele simplesmente não existisse mais para efeitos dessa lei. A halachá segue os Sábios. Rambam recorda, como já mencionado em ordens anteriores da Mishná, que o animal condenado a morrer é trazido a um recinto e a porta é fechada diante dele até que morra de fome. Acrescenta, por fim, duas notas úteis sobre casos correlatos: quem separa duas somas de dinheiro como garantia (caso uma se perca) expia-se com uma delas, e com a outra traz uma oferenda voluntária de elevação; do mesmo modo, quem separa duas chatat como garantia expia-se com a que quiser, e a outra pasta até adquirir defeito, com seu dinheiro comprando uma oferenda voluntária; e quem consagra uma chatat prenhe é como quem separou duas chatat como garantia, valendo o mesmo raciocínio para ela e para sua cria.

Bartenura · Temurá 4:4
מוֹכְרָהּ וְיָבִיא בְדָמֶיהָ אַחֶרֶת. דְּמִכִּי מְכָרָהּ לְאַחֵר, חֲשִׁיבָה כְּאִלּוּ אֵינָהּ בָּעוֹלָם. אֲבָל כָּל זְמַן שֶׁהִיא תַּחַת בַּעְלָהּ בְּשָׁעָה שֶׁנִּתְכַּפֵּר בְּאַחֶרֶת, תָּמוּת. וְרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן סָבַר, כָּל זְמַן שֶׁהִיא בָּעוֹלָם לְאַחַר שֶׁנִּתְכַּפְּרוּ הַבְּעָלִים בְּאַחֶרֶת, בֵּין שֶׁהִיא תַּחַת בַּעְלָהּ בֵּין בְּיַד אֲחֵרִים, תָּמוּת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura explica que, a partir do momento em que o dono vende o animal a outra pessoa, ele é considerado como se simplesmente não existisse mais no mundo — para efeito da regra que condena à morte a chatat cujo dono já se expiou. Mas, enquanto o animal ainda estiver em posse de seu próprio dono no momento em que este se expia com outro, ele morre normalmente. Rabi Elazar ben Rabi Shimon discorda dessa distinção: para ele, basta que o animal continue a existir no mundo depois que os donos se expiaram com outro — esteja com o dono ou em mãos alheias — para que ele morra. A halachá não segue Rabi Elazar ben Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 22b, sobre a Guemará desta mishná
אם קרבה שניה עד שלא נשחטה — הָרִאשׁוֹנָה בַּבַּיִת לוֹקֵחַ לַאֲכִילַת חֻלִּין, תָּמוּת, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא חֻלִּין, דְּחַטָּאת שֶׁכִּפְּרוּ הַבְּעָלִים הִיא:

Rashi esclarece o cenário exato de Rabi Elazar ben Rabi Shimon: mesmo que a primeira chatat já esteja na casa de quem a comprou, destinada ao abate para consumo comum — portanto já formalmente profana — ela ainda assim morre, pois, no momento em que a segunda foi oferecida, ela se tornou, retroativamente, a chatat cujo dono já obteve expiação com outra.

סוֹף פֶּרֶק רְבִיעִי דְּמַסֶּכֶת תְּמוּרָה

Com esta mishná, encerra-se o Perek Dalet de Massechet Temurá — quatro mishnayot dedicadas às leis da cria e da troca da chatat, e aos casos em que a chatat ou o dinheiro reservado para comprá-la se perdem e reaparecem: a abertura, retomando e ampliando as cinco categorias de chatat condenadas a morrer, com as duas condicionais — a que passou seu ano e a que se perdeu e foi achada com defeito (mishná 1); o caso em que o item perdido reaparece somente depois que a substituição já se consumou, fazendo a chatat morrer e o dinheiro ir ao Mar Morto (mishná 2); os quatro casos em que o item perdido reaparece antes da substituição se consumar, exigindo que se traga a chatat de uma combinação de ambos, e o quinto caso, com a disputa entre Rabi e os Sábios quando ambos os animais estão perfeitos (mishná 3); e por fim a chatat defeituosa vendida e substituída, com a opinião rejeitada de Rabi Elazar ben Rabi Shimon (mishná 4). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as quatro mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 21b–22b — as últimas três reunidas em um único bloco de mishná na Guemará — e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

O tratado prossegue, em seu próximo capítulo (Perek Hei), com as leis da santidade do corpo e da santidade do valor entre os diversos tipos de consagrados.