Aquele que separa sua chatat, e eis que ela tem defeito — vende-a e traz com seu dinheiro outra. Rabi Elazar filho de Rabi Shimon diz: se a segunda foi oferecida antes que a primeira fosse abatida, ela morrerá, pois os donos já obtiveram expiação.
— Esta última mishná do Perek Dalet trata do caso mais simples: um animal separado como chatat que já nasce, ou se torna, defeituoso antes mesmo de qualquer expiação ter sido tentada. A lei básica, aceita pelos Sábios, é direta: vende-se o animal defeituoso — que passa a ser propriedade comum de quem o comprar — e com o dinheiro da venda compra-se e oferece-se uma nova chatat em seu lugar. Como o animal original já saiu, pela venda, da posse e do domínio de seu dono, ele deixa de estar sujeito à regra de “chatat cujo dono já se expiou”, mesmo que a segunda venha a ser oferecida depois. Rabi Elazar ben Rabi Shimon discorda: para ele, o que importa não é a posse, mas a mera existência do animal no mundo; enquanto ele ainda existir — esteja com o dono original, com o comprador, ou em qualquer outra mão — o fato de a substituta ter sido oferecida antes de ele ser abatido para consumo comum já basta para retroativamente classificá-lo como “chatat cujo dono já se expiou por outra”, condenando-o a morrer mesmo depois de vendido. A halachá não segue Rabi Elazar ben Rabi Shimon.
Rambam apresenta a opinião de Rabi Elazar ben Rabi Shimon: não há diferença entre o animal estar em posse do dono original ou de outra pessoa — sempre que for achado depois que os donos já se expiaram, morrerá. Os Sábios discordam: esse julgamento só se aplica enquanto o animal ainda está em posse de seu próprio dono; uma vez vendido, é como se ele simplesmente não existisse mais para efeitos dessa lei. A halachá segue os Sábios. Rambam recorda, como já mencionado em ordens anteriores da Mishná, que o animal condenado a morrer é trazido a um recinto e a porta é fechada diante dele até que morra de fome. Acrescenta, por fim, duas notas úteis sobre casos correlatos: quem separa duas somas de dinheiro como garantia (caso uma se perca) expia-se com uma delas, e com a outra traz uma oferenda voluntária de elevação; do mesmo modo, quem separa duas chatat como garantia expia-se com a que quiser, e a outra pasta até adquirir defeito, com seu dinheiro comprando uma oferenda voluntária; e quem consagra uma chatat prenhe é como quem separou duas chatat como garantia, valendo o mesmo raciocínio para ela e para sua cria.
Bartenura explica que, a partir do momento em que o dono vende o animal a outra pessoa, ele é considerado como se simplesmente não existisse mais no mundo — para efeito da regra que condena à morte a chatat cujo dono já se expiou. Mas, enquanto o animal ainda estiver em posse de seu próprio dono no momento em que este se expia com outro, ele morre normalmente. Rabi Elazar ben Rabi Shimon discorda dessa distinção: para ele, basta que o animal continue a existir no mundo depois que os donos se expiaram com outro — esteja com o dono ou em mãos alheias — para que ele morra. A halachá não segue Rabi Elazar ben Rabi Shimon.
Rashi esclarece o cenário exato de Rabi Elazar ben Rabi Shimon: mesmo que a primeira chatat já esteja na casa de quem a comprou, destinada ao abate para consumo comum — portanto já formalmente profana — ela ainda assim morre, pois, no momento em que a segunda foi oferecida, ela se tornou, retroativamente, a chatat cujo dono já obteve expiação com outra.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Dalet de Massechet Temurá — quatro mishnayot dedicadas às leis da cria e da troca da chatat, e aos casos em que a chatat ou o dinheiro reservado para comprá-la se perdem e reaparecem: a abertura, retomando e ampliando as cinco categorias de chatat condenadas a morrer, com as duas condicionais — a que passou seu ano e a que se perdeu e foi achada com defeito (mishná 1); o caso em que o item perdido reaparece somente depois que a substituição já se consumou, fazendo a chatat morrer e o dinheiro ir ao Mar Morto (mishná 2); os quatro casos em que o item perdido reaparece antes da substituição se consumar, exigindo que se traga a chatat de uma combinação de ambos, e o quinto caso, com a disputa entre Rabi e os Sábios quando ambos os animais estão perfeitos (mishná 3); e por fim a chatat defeituosa vendida e substituída, com a opinião rejeitada de Rabi Elazar ben Rabi Shimon (mishná 4). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as quatro mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 21b–22b — as últimas três reunidas em um único bloco de mishná na Guemará — e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
O tratado prossegue, em seu próximo capítulo (Perek Hei), com as leis da santidade do corpo e da santidade do valor entre os diversos tipos de consagrados.