Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Bet · Mishná 2 de 3

A oferenda de pecado cujo dono já se expiou

חַטָּאת הַיָּחִיד שֶׁכִּפְּרוּ בְעָלָיו מֵתוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A chatat de indivíduo cujo dono já obteve expiação por outra é deixada para morrer; a da comunidade não; debate entre os Sábios anônimos, Rabi Yehuda e Rabi Shimon sobre quais das cinco categorias de chatat que morrem valem também para a comunidade

A oferenda de pecado do indivíduo cujos donos já obtiveram expiação, morre; e a da comunidade, não morre. Rabi Yehuda diz: morrerão. Disse Rabi Shimon: o que encontramos quanto à cria da oferenda de pecado, e quanto à troca da oferenda de pecado, e quanto à oferenda de pecado cujos donos morreram — no indivíduo essas palavras foram ditas, mas não na comunidade — também quanto às que os donos obtiveram expiação e cujo ano passou, no indivíduo essas palavras foram ditas, mas não na comunidade.

— Existe uma halachá recebida de Moshé no Sinai segundo a qual cinco categorias de oferenda de pecado (chatat) ficam impróprias para o altar sem remédio, e por isso são deixadas para morrer de fome, encerradas: a cria da chatat, a troca (temurá) da chatat, a chatat cujo dono morreu, a chatat cujo dono já obteve expiação por outra (porque a primeira, perdida, foi depois encontrada) e a chatat cujo ano se passou. Esta mishná debate se essa lei vale igualmente para chatat da comunidade. Os Sábios anônimos (tanna kamma) sustentam que apenas a chatat de indivíduo cujo dono já se expiou é deixada para morrer — a comunidade, por não poder “morrer” como entidade nem gerar cria ou troca, não estaria sujeita a essa mesma regra em nenhuma de suas cinco formas, mas quanto especificamente ao caso de expiação alheia, entendem que ela se aplica igualmente à comunidade. Rabi Yehuda discorda quanto a esse ponto e sustenta que, mesmo a chatat da comunidade cujo grupo já se expiou por outra, deve morrer. Rabi Shimon propõe um raciocínio comparativo mais amplo: três das cinco categorias — cria, troca e morte do dono — simplesmente não podem ocorrer com oferendas da comunidade (a comunidade não tem chatat fêmea capaz de gerar cria, não gera temurá, e não pode “morrer”); e, já que essas três são exclusivas do indivíduo, as outras duas — expiação alheia e o ano vencido — devem ser lidas da mesma forma, como exclusivas do indivíduo, ainda que fisicamente pudessem ocorrer também com uma oferenda comunitária.

חַטָּאת הַיָּחִיד שֶׁכִּפְּרוּ בְעָלָיו, מֵתוֹת. וְשֶׁל צִבּוּר, אֵינָן מֵתוֹת. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יָמוּתוּ. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, מַה מָּצִינוּ בִּוְלַד חַטָּאת וּבִתְמוּרַת חַטָּאת וּבְחַטָּאת שֶׁמֵּתוּ בְעָלֶיהָ, בְּיָחִיד דְּבָרִים אֲמוּרִים אֲבָל לֹא בְצִבּוּר, אַף שֶׁכִּפְּרוּ הַבְּעָלִים וְשֶׁעָבְרָה שְׁנָתָן, בְּיָחִיד דְּבָרִים אֲמוּרִים אֲבָל לֹא בְצִבּוּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 2:2
חטאת היחיד שכפרו בעליו מתות ושל צבור אינן מתות כו': שכפרו הבעלים הוא שיפריש חטאתו ואבדה, והפריש אחרת והקריבה, ואחר כך נמצאת הראשונה. וממה שזכרנו כבר במסכת הזאת יתבאר לך שחטאת הצבור לא יהיה לה ולד, לפי שכל קרבנות ציבור זכרים, ואפילו חטאת, כמו שבארנו בקצרה בתחלת הסדר הזה. ואי אפשר גם כן שתהא לחטאת הצבור תמורה, לפי שאין הצבור עושין תמורה, כמו שהקדמנו. ואי אפשר לומר גם כן בחטאת צבור שמתו בעליה, לפי שאי אפשר שימות ציבור, ועיקר בידינו “שבט לא בטיל”, כל שכן ישראל כולו. אבל שכפרו הבעלים ושעברה שנתו הרי זה אפשר בצבור, אבל לא נאמרו בפירוש אם חייבת חטאת צבור בכך או אינו נוהג אלא ביחיד, וקבלה ביד כולנו ממשה רבינו שחמש חטאת מתות. רבי שמעון יליף סתום ממפורש, ואומר כמו שאותן שלש מינים אינן נוהגים בצבור, כך אלו השנים. ורבי יהודה לא יליף, אלא אומר: מה שאפשר להיות מחמשת המינין בצבור יהיה, ומה שאי אפשר אי אפשר. והלכה כרבי שמעון:

Rambam esclarece primeiro o que significa “cujo dono já se expiou”: o dono separou sua chatat, ela se perdeu, ele separou outra e a trouxe, e só depois a primeira foi encontrada — essa primeira, agora sobrando, é deixada para morrer. Explica por que três das cinco categorias não existem, por definição, entre as ofertas comunitárias: não há cria, pois todo korban tzibbur é macho, mesmo a chatat; não há temurá, pois a comunidade não gera troca; e não há “morte do dono”, pois um povo, ou mesmo uma tribo, não “morre” como entidade. Já as outras duas categorias — expiação alheia e ano vencido — são fisicamente possíveis também na comunidade, e por isso o debate: Rabi Shimon aprende o caso implícito (não explicitado na tradição sinaítica) a partir do caso explícito, aplicando a mesma restrição ao indivíduo; Rabi Yehuda não faz essa comparação, e aplica a regra da morte sempre que fisicamente possível, mesmo à comunidade. A halachá segue Rabi Shimon.

Bartenura · Temurá 2:2
חַטָּאת הַיָּחִיד שֶׁכִּפְּרוּ בְעָלָיו. שֶׁאָבְדָה וְנִתְכַּפֵּר בְּאַחֶרֶת, וְאַחַר כָּךְ נִמְצֵאת הָרִאשׁוֹנָה: וְשֶׁל צִבּוּר. שֶׁכִּפְּרוּ בְּאַחֶרֶת: אֵינָן מֵתוֹת. דְּחַטָּאוֹת הַמֵּתוֹת הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי הִיא, וּסְבִירָא לֵיהּ לְתַנָּא קַמָּא דִּלְיָחִיד גְּמִירֵי וְלֹא לְשֶׁל צִבּוּר: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר יָמוּתוּ. דִּבְשֶׁל צִבּוּר נַמִּי גְּמִירֵי: אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן מַה מָּצִינוּ. כְּלוֹמַר, קַיְמָא לָן חָמֵשׁ חַטָּאוֹת מֵתוֹת: שֶׁמֵּתוּ בְּעָלֶיהָ, וְשֶׁכִּפְּרוּ בְּעָלֶיהָ בְּאַחֶרֶת, וְשֶׁעָבְרָה שְׁנָתָהּ, וְלַד חַטָּאת, וּתְמוּרַת חַטָּאת. וְכִי הֵיכִי דִּתְלַת מִנַּיְהוּ לָאו בְּצִבּוּר גְּמִירֵי, דְּהָא לֹא מַשְׁכַּחַת לְהוּ בְּקָרְבְּנוֹת צִבּוּר: וְלַד חַטָּאת לֹא מַשְׁכַּחַת לַהּ בְּצִבּוּר, שֶׁאֵין חַטַּאת נְקֵבָה בְּצִבּוּר. וּתְמוּרַת חַטָּאת נַמִּי אֵין קָרְבַּן צִבּוּר עוֹשֶׂה תְּמוּרָה. וְשֶׁמֵּתוּ בְּעָלֶיהָ אֵין צִבּוּר מֵתִים: אַף שֶׁכִּפְּרוּ בְעָלֶיהָ וְשֶׁעָבְרָה שְׁנָתָהּ. אַף עַל גַּב דְּאֶפְשָׁר דְּמִשְׁתַּכְּחֵי בְּצִבּוּר, לֹא גְּמִירֵי דְּמֵתוֹת: בְּיָחִיד דְּבָרִים אֲמוּרִים. דְּמֵתוֹת. אֲבָל לֹא בְצִבּוּר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura define os dois casos concretos: “cujo dono já se expiou” é a chatat perdida e depois encontrada, quando já houve expiação com outra; “da comunidade” é o caso paralelo, quando a comunidade já se expiou com outra chatat comunitária. Explica a posição dos Sábios anônimos como baseada na leitura de que a tradição sinaítica fala apenas do indivíduo. Detalha o raciocínio de Rabi Shimon caso a caso: cria não existe na comunidade porque não há chatat fêmea comunitária; troca não existe porque a comunidade não gera temurá; morte do dono não existe porque a comunidade não morre — e, sendo essas três exclusivamente do indivíduo, as outras duas (expiação alheia, ano vencido), embora fisicamente possíveis na comunidade, seguem a mesma regra por comparação. Conclui confirmando que a halachá segue Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 15a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' שכיפרו הבעלים — שאבדה ונתכפר באחרת, ונמצאת הראשונה: ושל ציבור — שכפרו באחרת: אינה מתה — דחטאות המתות הלכה למשה מסיני בהא מסכתא, וסבירא ליה לתנא קמא דשל יחיד גמירי ולא של ציבור: [רבי יהודה אומר] תמות — דבצבור נמי גמירי: אמר רבי שמעון מה מצינו כו' — כלומר קיימא לן חמשה חטאות מתות: חטאת שמתו בעליה, ושכפרו בעליה, ושעיברה שנתה, ולד חטאת, ותמורת חטאת. וכי היכי דתלת מינייהו לאו בציבור גמירי, דהא לא משכחת להו בקרבנות צבור: ולד חטאת לא משכחת בציבור, דאין נקבה בציבור, ותמורת חטאת נמי אין קרבן ציבור עושה תמורה, ושמתו בעליה אין הציבור מתים, כדאמרינן לקמן בגמרא: אף שכפרו בעליה ושעברה שנתה — אף על גב דמצינן לאשכוחינהו בציבור, לא גמירי דמתות:

Rashi segue de perto a mesma estrutura do Bartenura, confirmando que a exclusão da comunidade nas três primeiras categorias decorre da própria impossibilidade física: não há chatat fêmea entre as oferendas comunitárias (pois todo korban tzibbur é macho), a comunidade não gera temurá, e um povo não “morre” como o dono individual de uma oferenda morre. A partir dessas três impossibilidades, Rabi Shimon estende por comparação a mesma exclusão às outras duas categorias, ainda que fisicamente possíveis na comunidade. Rashi remete à continuação da sugya na Guemará para a fonte de que “a comunidade não morre”.