Há nas ofertas do indivíduo o que não há nas ofertas da comunidade, e há nas ofertas da comunidade o que não há nas ofertas do indivíduo. Que as ofertas do indivíduo geram troca, e as ofertas da comunidade não geram troca. As ofertas do indivíduo se aplicam a machos e a fêmeas, e as ofertas da comunidade não se aplicam senão a machos. As ofertas do indivíduo obrigam quanto à sua responsabilidade e quanto à responsabilidade de suas libações, e as ofertas da comunidade não obrigam nem quanto à sua responsabilidade nem quanto à responsabilidade de suas libações — mas obrigam quanto à responsabilidade de suas libações desde que o sacrifício foi oferecido. Há nas ofertas da comunidade o que não há nas ofertas do indivíduo: que as ofertas da comunidade afastam o shabat e a impureza, e as ofertas do indivíduo não afastam nem o shabat nem a impureza. Disse Rabi Meir: Mas acaso as fogaças do sumo sacerdote e o touro de Yom Hakipurim não são oferenda de indivíduo, e afastam o shabat e a impureza? Antes, é que o seu tempo é fixo.
— Abrindo o Perek Bet, a mishná contrasta sistematicamente ofertas de indivíduo e ofertas da comunidade, em quatro pontos. Primeiro, apenas ofertas de indivíduo geram temurá — como já se estabeleceu no perek anterior, a comunidade e os sócios não geram troca. Segundo, ofertas de indivíduo podem ser machos ou fêmeas, conforme o tipo de korban, mas as ofertas trazidas pela comunidade — majoritariamente holocaustos (olot), que são sempre machos, e os cordeiros de Shavuot como oferenda de paz (shelamim), também machos — se restringem a machos. Terceiro, quando uma oferenda de indivíduo tem tempo fixo (como a oferenda de parturiente ou do leproso) e esse tempo passa sem que ela seja trazida, o dono continua obrigado a trazê-la depois; já as ofertas da comunidade com tempo fixo, se o tempo passa, a obrigação simplesmente se extingue — embora, se o sacrifício principal já tiver sido oferecido no seu tempo mas faltarem as libações que o acompanham, a comunidade continua obrigada a completá-las depois. Quarto, apenas as ofertas da comunidade têm o poder de afastar as proibições do shabat e da impureza ritual, sendo oferecidas mesmo quando isso implica violar o shabat tecnicamente, ou quando a maioria dos sacerdotes está impura. Rabi Meir desafia esse último critério com um contraexemplo: as fogaças diárias do sumo sacerdote e o touro trazido por ele em Yom Hakipurim são, ambos, ofertas de um único indivíduo (o sumo sacerdote), e, no entanto, afastam o shabat e a impureza. Sua conclusão é que o critério verdadeiro não é se a oferenda é de indivíduo ou da comunidade, mas se ela tem tempo fixo: toda oferenda de tempo fixo — seja de indivíduo, seja da comunidade — afasta o shabat e a impureza, precisamente porque, se perdido esse momento, não há mais como compensá-la depois.
Rambam explica que o princípio por trás da terceira diferença é a regra conhecida: “quando passa o tempo da oferenda, extingue-se a obrigação de trazê-la” — regra que vale apenas para as ofertas da comunidade com tempo fixo, como os tamidim e os mussafim, e por isso a comunidade não é responsável por atrasos. Já quanto à quarta diferença, esclarece que qualquer oferenda de tempo fixo afasta o shabat e a impureza, e que, quando a maioria dos sacerdotes está impura, chegam a oferecer os sacrifícios mesmo em estado de impureza — como já explicou no sétimo capítulo de Pessachim. E conclui que a razão dada por Rabi Meir para explicar as exceções é verdadeira e consensual, sem quem discorde dela.
Bartenura precisa por que as ofertas da comunidade se restringem a machos: a maioria delas são olot, que só podem ser machos, e as raras shelamim comunitárias (os cordeiros de Shavuot) também são machos, assim como a chatat comunitária, sempre um bode. Explica a terceira diferença com exemplos concretos: a oferenda de parturiente e as oferendas do leproso têm tempo fixo, mas, mesmo passando o oitavo dia sem serem trazidas, o dono segue obrigado a trazê-las depois — diferente das ofertas da comunidade, cuja obrigação simplesmente cai quando passa o tempo. E confirma, ao final, que a halachá segue Rabi Meir: o verdadeiro critério para afastar o shabat e a impureza não é ser oferenda de indivíduo ou comunidade, mas ter tempo fixo, sem possibilidade de compensação posterior.
Rashi confirma, com a mesma linguagem do Rambam e do Bartenura, que as ofertas da comunidade se limitam a machos porque a maioria são holocaustos e as demais categorias (shelamim, chatat) também só se apresentam como machos entre as ofertas comunitárias. Sobre “pai yom hakipurim”, esclarece tratar-se do touro de Aharon, o sumo sacerdote original. E, sobre a conclusão de Rabi Meir, formula com precisão a regra final: toda oferenda de tempo fixo — seja de indivíduo, seja da comunidade — afasta o shabat e a impureza, precisamente porque, se o momento passar, não há mais compensação possível; e toda oferenda sem tempo fixo não afasta nem shabat nem impureza, mesmo sendo da comunidade, dando como exemplo o touro trazido pela comunidade por transgressão inadvertida de idolatria e os bodes de idolatria, que não têm tempo fixo.