A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A troca vale entre categorias diferentes de animais — boi por ovelha, cordeiro por cabra, macho por fêmea, animal são por defeituoso e vice-versa — pois a Torá fala apenas em “animal por animal”; define-se o que é “bom por mau”; a troca vale mesmo entre quantidades desiguais, um por dois ou um por cem, mas Rabi Shimon exige um por um
Troca-se do gado miúdo pelo gado graúdo e do gado graúdo pelo gado miúdo, dos cordeiros pelas cabras e das cabras pelos cordeiros, dos machos pelas fêmeas e das fêmeas pelos machos, dos sãos pelos defeituosos e dos defeituosos pelos sãos, pois foi dito: “não o trocará, nem substituirá bom por mau, ou mau por bom”. Qual é o “bom por mau”? O defeituoso cuja consagração precedeu o defeito. Troca-se um por dois e dois por um, um por cem e cem por um. Rabi Shimon diz: não se troca senão um por um, pois foi dito: “e ele e sua troca” — assim como ele é único, também sua troca é única.
— A mishná estabelece que a proibição de trocar não se restringe a animais da mesma espécie e do mesmo tipo: a Torá fala genericamente em “animal por animal”, e tanto o gado graúdo quanto o miúdo, machos e fêmeas, cabem sob esse termo comum — por isso a troca vale entre quaisquer dessas categorias. Ela vale inclusive quando o animal trocado tem defeito físico, desde que o defeito tenha surgido depois da consagração: se o animal já nasceu ou já tinha o defeito antes de ser consagrado, a santidade nunca recaiu plenamente sobre ele, e ele não pode efetuar a troca. Já quanto à quantidade, os Sábios entendem que se pode trocar um animal comum por dois consagrados, ou vice-versa, e mesmo cem por um — a proibição da Torá recai sobre o ato de trocar, não sobre a proporção. Rabi Shimon discorda: para ele, o versículo exige simetria estrita — “ele”, no singular, e “sua troca”, também no singular — de modo que só se pode substituir um único animal por outro único animal.
מְמִירִין מִן הַבָּקָר עַל הַצֹּאן וּמִן הַצֹּאן עַל הַבָּקָר, מִן הַכְּבָשִׂים עַל הָעִזִּים וּמִן הָעִזִּים עַל הַכְּבָשִׂים, מִן הַזְּכָרִים עַל הַנְּקֵבוֹת וּמִן הַנְּקֵבוֹת עַל הַזְּכָרִים, מִן הַתְּמִימִים עַל בַּעֲלֵי מוּמִין וּמִבַּעֲלֵי מוּמִין עַל הַתְּמִימִים, שֶׁנֶּאֱמַר (שם), לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא יָמִיר אֹתוֹ טוֹב בְּרָע אוֹ רַע בְּטוֹב. אֵיזֶהוּ טוֹב בְּרָע, בַּעֲלֵי מוּמִין שֶׁקָּדַם הֶקְדֵּשָׁן אֶת מוּמָם. מְמִירִים אֶחָד בִּשְׁנַיִם וּשְׁנַיִם בְּאֶחָד, אֶחָד בְּמֵאָה וּמֵאָה בְּאֶחָד. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין מְמִירִים אֶלָּא אֶחָד בְּאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא כז), וְהָיָה הוּא וּתְמוּרָתוֹ, מַה הוּא מְיֻחָד, אַף תְּמוּרָתוֹ מְיֻחָדֶת:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Vayikrá 27:10
לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא־יָמִיר אֹתוֹ טוֹב בְּרָע אוֹ־רַע בְּטוֹב, וְאִם־הָמֵר יָמִיר בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה וְהָיָה־הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ.
“Não o trocará nem o substituirá, bom por mau ou mau por bom; e se de fato substituir animal por animal, ele e sua substituição serão consagrados.”
A palavra genérica “animal” (behemá), repetida duas vezes — “substituir animal por animal” — é a base para incluir todas as subcategorias (gado graúdo e miúdo, machos e fêmeas) sob a mesma proibição de troca. Já a expressão “bom por mau ou mau por bom” ensina que a troca vale também para animais com defeito, desde que a consagração tenha precedido o defeito; e a palavra “ele” (no singular), no final do versículo, é a base da opinião individual de Rabi Shimon quanto à proporção um por um.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Temurá 1:2
ממירים מן הבקר על הצאן ומן הצאן על הבקר כו': ממירין אחד בשנים ושנים באחד אחד במאה ומאה באחד כו': ראיה על זה מה שאמר בהמה בבהמה, ושם בהמה נופל על מינים רבים זכרים ונקבות. וראיתו על בעלי מומין ממה שנאמר טוב ברע, שהקדים טוב ברע רוצה לומר שהיה טוב בתחלה ונעשה רע, רוצה לומר שאירע בו המומין, ולפיכך יעשה תמורה, אבל אם קדם מום להקדישו ולא חלה עליו קדושה לא יעשה תמורה, כמו שבארנו בשני מבכורות. והלכה כחכמים:
Rambam explica a prova textual: a repetição da palavra “animal” (“behemá behemá”) abrange várias subespécies, machos e fêmeas, permitindo a troca entre elas. Sobre os animais defeituosos, mostra que a ordem das palavras no versículo — “bom por mau” antes de “mau por bom” — ensina que o animal precisa ter sido “bom” (são) no momento da consagração e só depois ter desenvolvido o defeito; se o defeito já existia antes da consagração, a santidade nunca recaiu totalmente sobre ele, e ele não pode efetuar a troca — regra já explicada no tratado Bechorot. A halachá segue os Sábios, não Rabi Shimon.
Bartenura · Temurá 1:2
מְמִירִין מִן הַבָּקָר עַל הַצֹּאן וְכוּ'. דִּכְתִיב בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה, וְצֹאן וּבָקָר זְכָרִים וּנְקֵבוֹת כֻּלְּהוּ בְּהֵמָה מִקְּרוּ: טוֹב בְּרָע. טוֹב שֶׁל חֻלִּין לֹא יָמִיר אוֹתוֹ בְּרַע שֶׁל קֹדֶשׁ, וְאִם הָמֵר יָמִיר וְגוֹ', אַלְמָא בַּעֲלֵי מוּמִין עָבְדֵי תְּמוּרָה… וְאֵיזֶהוּ טוֹב בְּרָע. כְּלוֹמַר, אֵיזֶהוּ רַע שֶׁל קֹדֶשׁ דַּעֲבִיד תְּמוּרָה, כָּל שֶׁקָּדַם הֶקְדֵּשׁוֹ אֶת מוּמוֹ… טוֹב מֵעִקָּרוֹ, שֶׁבְּשָׁעָה שֶׁהֻקְדַּשׁ הָיָה תָּם וְשׁוּב נָפַל בּוֹ מוּם, עוֹשֶׂה תְּמוּרָה. רַע מֵעִקָּרוֹ, שֶׁנָּפַל בּוֹ מוּם קֹדֶם שֶׁהֻקְדַּשׁ, אֵין עוֹשֶׂה תְּמוּרָה: מַה הוּא מְיֻחָד. דִּכְתִיב הוּא. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:
Bartenura confirma que a palavra “animal” abrange gado graúdo e miúdo, machos e fêmeas, todos sob o mesmo termo genérico. Sobre “bom por mau”, explica que a Torá poderia ter escrito de forma mais econômica; ao repetir “bom” na segunda cláusula, ensina que o que importa é o estado do animal no momento da consagração: se era são e depois desenvolveu defeito, a troca vale; se já tinha o defeito antes, não vale. Por fim, confirma que a halachá segue os Sábios, permitindo trocar quantidades desiguais, e não Rabi Shimon.
Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רַשִׁ"י
Temurá 9a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' טוב ברע — תמים של חולין לא יתפיס ברע של קדש, ואם המר ימיר וגו', אלמא בעלי מומין עבדי תמורה. ואבעל מום חיילא תמורה, דכתיב או רע בטוב, דמשמע בעל מום דחולין בתם דהקדש: ואי זהו טוב ברע — כלומר איזהו רע דקדש דעביד תמורה, שקדם הקדשו את מומו, אבל קדם מומו את הקדשו לא עביד תמורה… ממירין אחד — של חולין: בשנים — דקדש, ואומר הרי זו תחת אלו: ושנים — דחולין באחד דקדש, הרי אלו תחת זו: מה הוא מיוחד — דכתיב הוא:
Rashi confirma que “bom por mau” significa que um animal são de uso comum não pode ser trocado por um defeituoso já consagrado, e que o versículo, ao mencionar explicitamente essa possibilidade, revela que animais com defeito também podem efetuar temurá — e, pela cláusula seguinte (“ou mau por bom”), que a troca vale igualmente na direção oposta. Precisa ainda que a diferença decisiva é o momento em que o defeito surgiu: antes ou depois da consagração. Sobre as proporções, explica com exemplos concretos — dizer “este [comum] em lugar daqueles [dois consagrados]”, ou “estes [dois comuns] em lugar deste [um consagrado]” — e confirma que Rabi Shimon fundamenta sua exigência de simetria na palavra singular “ele” do versículo.