Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Alef · Mishná 1 de 6

Todos podem trocar um animal consagrado

הַכֹּל מְמִירִים, אֶחָד אֲנָשִׁים וְאֶחָד נָשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do tratado: todos, homens e mulheres, podem efetuar a troca (temurá) de um animal consagrado, embora seja proibido fazê-lo; se a fez, ambos os animais ficam consagrados e quem trocou recebe os quarenta açoites. Os sacerdotes trocam o que é seu, mas não podem trocar por chatat, asham ou bechor recebidos de um israelita — debate entre Rabi Yochanan ben Nuri e Rabi Akiva sobre o motivo

Todos trocam — tanto homens quanto mulheres. Não que seja permitido ao homem trocar, mas sim que, se trocou, está trocado, e recebe os quarenta açoites. Os sacerdotes trocam o que é deles, e o israelita troca o que é dele. Os sacerdotes não trocam nem por chatat, nem por asham, nem por bechor. Disse Rabi Yochanan ben Nuri: E por que não trocam por bechor? Disse-lhe Rabi Akiva: Chatat e asham são presente para o sacerdote, e o bechor é presente para o sacerdote — assim como não trocam por chatat e asham, também não trocará por bechor. Disse-lhe Rabi Yochanan ben Nuri: Que diferença há para mim em não trocar por chatat e asham, pois não se adquire neles em vida do doador — dirás o mesmo do bechor, que se adquire nele em vida? Disse-lhe Rabi Akiva: Não foi já dito: “e ele e sua troca serão consagrados” (Vayikrá 27)? Onde recai a consagração sobre ele? Na casa do proprietário — também a troca, na casa do proprietário.

— A mishná abre o tratado com o princípio de que qualquer pessoa — inclusive uma mulher, diferentemente de leis como a semichá, restritas aos homens — pode fazer com que a troca de um animal consagrado por outro entre em vigor, se declarar “este, em lugar daquele”. A Torá proíbe expressamente o ato (“não o trocará”), mas a proibição não anula o efeito: mesmo tendo agido contra a lei, o animal trocado também se consagra, e ambos permanecem sagrados — e quem trocou recebe os trinta e nove açoites pela transgressão. Sacerdotes podem trocar as ofertas que lhes pertencem por inteiro, mas não podem trocar a chatat, o asham ou o bechor que um israelita lhes entregou, pois nesses casos o sacerdote ainda não tem posse plena sobre o animal — no caso de chatat e asham, sua parte só se define a partir da queima das gorduras no altar; quanto ao bechor, Rabi Yochanan ben Nuri objeta que o sacerdote já o possui desde o nascimento, na casa do próprio dono israelita. Rabi Akiva responde com uma leitura do versículo: a consagração da troca só recai onde recaiu a consagração original — na casa do proprietário israelita, não na do sacerdote — de modo que, mesmo o bechor já estando em posse do sacerdote, este não pode efetuar nele a troca.

הַכֹּל מְמִירִים, אֶחָד אֲנָשִׁים וְאֶחָד נָשִׁים. לֹא שֶׁאָדָם רַשַּׁאי לְהָמִיר, אֶלָּא, שֶׁאִם הֵמִיר, מוּמָר, וְסוֹפֵג אֶת הָאַרְבָּעִים. הַכֹּהֲנִים מְמִירִים אֶת שֶׁלָּהֶם, וְיִשְׂרָאֵל מְמִירִים אֶת שֶׁלָּהֶם. אֵין הַכֹּהֲנִים מְמִירִים לֹא בְחַטָּאת וְלֹא בְאָשָׁם וְלֹא בִבְכוֹר. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, וְכִי מִפְּנֵי מָה אֵין מְמִירִים בִּבְכוֹר. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, חַטָּאת וְאָשָׁם מַתָּנָה לַכֹּהֵן, וְהַבְּכוֹר מַתָּנָה לַכֹּהֵן. מַה חַטָּאת וְאָשָׁם אֵין מְמִירִים בּוֹ, אַף הַבְּכוֹר לֹא יְמִירֶנּוּ בוֹ. אָמַר לוֹ רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, מַה לִּי אֵינוֹ מֵמִיר בְּחַטָּאת וּבְאָשָׁם, שֶׁאֵין זָכִין בָּהֶן בְּחַיֵּיהֶם. תֹּאמַר בִּבְכוֹר, שֶׁזָּכִין בּוֹ בְחַיָּיו. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, וַהֲלֹא כְבָר נֶאֱמַר, וְהָיָה הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה קֹּדֶשׁ (ויקרא כז), הֵיכָן קְדֻשָּׁה חָלָה עָלָיו, בְּבֵית הַבְּעָלִים, אַף תְּמוּרָה בְּבֵית הַבְּעָלִים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 27:9–10
וְאִם־בְּהֵמָה אֲשֶׁר יַקְרִיבוּ מִמֶּנָּה קׇרְבָּן לַיהֹוָה, כֹּל אֲשֶׁר יִתֵּן מִמֶּנּוּ לַיהֹוָה יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ. לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא־יָמִיר אֹתוֹ טוֹב בְּרָע אוֹ־רַע בְּטוֹב, וְאִם־הָמֵר יָמִיר בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה וְהָיָה־הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ.
“E se for animal do qual se oferece oferenda a Deus, tudo o que dele for dado a Deus será consagrado. Não o trocará nem o substituirá, bom por mau ou mau por bom; e se de fato substituir animal por animal, ele e sua substituição serão consagrados.”
É desta última cláusula — “ele e sua troca serão consagrados” — que Rabi Akiva extrai a resposta a Rabi Yochanan ben Nuri: o pronome “ele” ensina que a consagração da troca se equipara, em seu ponto de origem, à consagração do próprio animal trocado — e esta, no caso do bechor, ocorreu na casa do proprietário israelita, não na do sacerdote.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 1:1
הכל ממירין אחד אנשים ואחד נשים לא שאדם כו': הכהנים ממירין בשלהן וישראל ממירין בשלהן כו': מה שאמר הכל ממירין כך סדורו הכל עושין תמורה אם המירו, ואפילו יורש אם המיר בקרבן שהניח מורישו עושה תמורה. וכבר בארנו בתחלת מכות שלאו שניתק לעשה אין לוקין עליו, ותמורה לאו שניתק לעשה, ומה שחייבו ללקות עליו היות הלאו כולל לכל בני אדם, והוא שנאמר “ולא ימירנו”, ועשה שבה שהוא “והיה הוא ותמורתו יהיה קדש” אינו כולל הכל כמו הלאו, לפי ששותפין וצבור אינם עושין תמורה… וא"ר עקיבא, כמו שהקדושה לא תחול אלא לדבר שיש בביתו, כך התמורה צריך שתהא בביתו, ובכור אינו בביתו מעיקרא אלא בביתו של ישראל. והלכה כר"ע:

Rambam explica a estrutura da mishná: “todos trocam” significa que todos efetuam a temurá se trocaram — inclusive o herdeiro, que, se trocou por um korban que seu falecido deixou separado, sua troca é válida. Sobre a punição, esclarece um ponto técnico: embora a regra geral seja que não se aplicam açoites a uma proibição “transferida a um preceito positivo” (quando a Torá liga um “faça” à mesma cláusula do “não faça”), aqui os açoites se aplicam porque a proibição (“não o trocará”) é mais abrangente do que o preceito positivo que a acompanha (“ele e sua troca serão consagrados”) — pois sócios e a comunidade estão proibidos de trocar, mas não efetuam a consagração da troca caso o façam; a proibição, portanto, não se converte inteiramente num preceito positivo, e por isso permanece passível de açoites. Por fim, resume a resposta de Rabi Akiva: assim como a consagração original só recai sobre um bem que já está na posse do dono, também a troca exige que o objeto esteja em sua posse — e o bechor nunca esteve, desde o início, na posse do sacerdote, mas sim na do israelita. A halachá segue Rabi Akiva.

Bartenura · Temurá 1:1
הַכֹּל מְמִירִין. הַכֹּל מַתְפִּיסִין בִּקְדֻשַּׁת תְּמוּרָה, שֶׁתּוֹפֶסֶת קְדֻשַּׁת תְּמוּרָה בְּבֶהֱמַת חֻלִּין, אִם אָמַר זוֹ תַּחַת זוֹ שֶׁל הֶקְדֵּשׁ. בֵּין עַל פִּי אֲנָשִׁים בֵּין עַל פִּי נָשִׁים… וְהַכֹּל דִּתְנִינַן הָכָא, לַאֲתוֹיֵי יוֹרֵשׁ שֶׁאִם הֵמִיר בְּקָרְבָּן שֶׁהִפְרִישׁ מוֹרִישׁוֹ בְּחַיָּיו, תְּמוּרָתוֹ תְּמוּרָה: וְסוֹפֵג אֶת הָאַרְבָּעִים. לוֹקֶה עַל לָאו דְּלֹא יָמִיר, וְאַף עַל גַּב דְּלָאו שֶׁאֵין בּוֹ מַעֲשֶׂה הוּא… לֹא בְחַטָּאת וְלֹא בְאָשָׁם. שֶׁנָּתַן לוֹ יִשְׂרָאֵל שֶׁיַּקְרִיב לוֹ, אִם הֵמִיר בּוֹ הַכֹּהֵן אֵין עוֹשֶׂה תְּמוּרָה עַל יָדוֹ, דְּהָא אֵין לוֹ חֵלֶק בּוֹ אֶלָּא מִשְּׁעַת הַקְטָרַת אֵמוּרִין וָאֵילָךְ… אַף תְּמוּרָה. לֹא תָחוּל אֶלָּא בְּבֵית בְּעָלִים, אֲבָל בְּבֵית כֹּהֵן לֹא חָיְלָא לְגַמְרֵי, הִלְכָּךְ אֵין כֹּהֵן מֵמִיר בִּבְכוֹר… וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא:

Bartenura precisa que “todos trocam” significa que a troca prende a santidade num animal comum sempre que alguém — homem ou mulher — a declarar; e que a expressão inclui especificamente o herdeiro, que pode trocar por um korban que seu pai já havia separado em vida. Quanto aos açoites, embora a regra geral isente de açoites as proibições sem ato físico, esta é uma das exceções junto com o juramento e a maldição pelo Nome, e permanece passível de açoites mesmo sendo tecnicamente uma “proibição ligada a um preceito”, pois o preceito positivo não cobre exatamente o mesmo alcance da proibição. Sobre o bechor, esclarece que o sacerdote não tem parte na chatat ou no asham antes da queima das gorduras — daí não poder trocá-los — e que, embora o bechor já esteja fisicamente com ele, a santidade da troca só recai onde recaiu a consagração original, isto é, na casa do israelita. A halachá segue Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 2a e 7b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' הכל ממירין — בהמת חולין זו תחת זו של הקדש: לא שאדם רשאי להמיר — דהא כתיב לא ימיר: מומר — דמתפיס עלה קדושה ושתיהן קדושות: וסופג את הארבעים — משום לאו דלא ימיר… יורש — שהמיר בקרבן שהפריש אביו בחייו שתמורתו תמורה… מתני' הכהנים ממירים בשלהן — קרבנות שהפריש הכהן לעצמו, אם המיר בהן נתפסים בתמורה: לא בחטאת ואשם — שנתן לו ישראל שיקריבנו לו, אם המיר בו הכהן אינו עושה תמורה על ידו, דהא אין לו חלק בו אלא משעת הקטרת אימורין ואילך וזכה בבשר, ואמר בברייתא בהאי פירקא: אין אדם מתפיס בדבר שאינו שלו… הוא ותמורתו — מקיש התמורה להקדש עצמו, היכן קדושה חלה על ההקדש, בבית הבעלים, אף תמורה לא תחול אלא בבית הבעלים, אבל בבית כהן לא חיילא לגמרי, הלכך אין כהן ממיר בבכור…

Rashi esclarece a mecânica de cada cláusula: “todos trocam” refere-se a substituir um animal comum por outro já consagrado; a proibição está no versículo “não o trocará”, mas, mesmo assim, a troca prende a santidade em ambos os animais, e quem a fez recebe os quarenta açoites por essa transgressão. Sobre os sacerdotes, explica que eles podem trocar apenas as ofertas que separaram para si mesmos; quanto à chatat e ao asham que um israelita lhes entregou para oferecer, o sacerdote não tem parte alguma neles até o momento da queima das gorduras no altar — e, como ensina uma baraita citada neste mesmo capítulo, ninguém prende a santidade da troca num objeto que não é seu. Por fim, Rashi confirma a leitura do versículo proposta por Rabi Akiva: o termo “ele” equipara a troca à consagração original, que só recai onde o próprio dono tem posse — e, como a santidade do bechor nasceu na casa do israelita, e não chega a recair plenamente na casa do sacerdote, este não pode efetuar nele a troca.