Seder Kodashim · Massechet Tamid · Perek Hei · Mishná 6 de 6 — última do capítulo

O som da pá entre o vestíbulo e o altar

נָטַל אֶחָד אֶת הַמַּגְרֵפָה וְזוֹרְקָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Hei, a mishná descreve o lançamento estrondoso da pá entre o vestíbulo e o altar, seu som audível por toda Jerusalém, os três propósitos a que servia, e o posicionamento dos sacerdotes impuros no portão leste

Chegaram entre o vestíbulo e o altar; um tomou a pá e a lançou entre o vestíbulo e o altar. Ninguém ouvia a voz de seu companheiro em Jerusalém por causa do som da pá. E para três coisas servia: o sacerdote que ouve sua voz sabe que seus irmãos sacerdotes entram para se prostrar, e ele corre e vem. E o filho de Levi que ouve sua voz sabe que seus irmãos levitas entram para falar no canto, e ele corre e vem. E o chefe do turno posicionava os impuros no portão leste.

O sacerdote que carregava o incenso e o que carregava as brasas na pá de ouro, subindo juntos rumo ao Santuário, chegavam ao espaço entre o vestíbulo (ulam) e o altar externo. Nesse ponto, um dos sacerdotes tomava a magrefá — um instrumento ou vaso grande, distinto da pá de carvão — e a lançava ao chão com força, produzindo um estrondo tão retumbante que, segundo a mishná, ninguém em toda Jerusalém conseguia ouvir a voz de seu companheiro enquanto ele ressoava. Esse som cumpria três funções simultâneas, todas ligadas ao início iminente do serviço no Santuário: qualquer sacerdote que o ouvisse, estivesse onde estivesse, sabia que seus irmãos sacerdotes estavam prestes a entrar para se prostrar diante de D-us, e corria para se juntar a eles; qualquer levita que o ouvisse sabia que seus irmãos levitas estavam entrando para tomar posição no coro que acompanhava a libação com o cântico, e corria para se juntar a eles também. E, nesse mesmo momento, o chefe do maamad — o grupo de representantes leigos de Israel presente no Templo naquela semana — posicionava os sacerdotes e levitas que se encontravam ritualmente impuros junto ao portão leste do pátio, tornando publicamente claro que sua ausência do serviço se devia à impureza, e não a negligência ou desinteresse.

הִגִּיעוּ בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ, נָטַל אֶחָד אֶת הַמַּגְרֵפָה וְזוֹרְקָהּ בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ. אֵין אָדָם שׁוֹמֵעַ קוֹל חֲבֵרוֹ בִּירוּשָׁלַיִם מִקּוֹל הַמַּגְרֵפָה. וּשְׁלשָׁה דְבָרִים הָיְתָה מְשַׁמֶּשֶׁת, כֹּהֵן שֶׁשּׁוֹמֵעַ אֶת קוֹלָהּ, יוֹדֵעַ שֶׁאֶחָיו הַכֹּהֲנִים נִכְנָסִים לְהִשְׁתַּחֲווֹת, וְהוּא רָץ וּבָא. וּבֶן לֵוִי שֶׁהוּא שׁוֹמֵעַ אֶת קוֹלָהּ, יוֹדֵעַ שֶׁאֶחָיו הַלְוִיִּם נִכְנָסִים לְדַבֵּר בַּשִּׁיר, וְהוּא רָץ וּבָא. וְרֹאשׁ הַמַּעֲמָד הָיָה מַעֲמִיד אֶת הַטְּמֵאִים בְּשַׁעַר הַמִּזְרָח:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tamid 5:6
כבר נתבאר בתענית (דף כז.) המעמדות מה הם ואומר שראש מעמד המעמדות באותה שבת כששומע קול המגריפה מעמיד המצורעים שכבר טהרו מצרעתם בשערי המזרח כדי שיהיו מזומנים לזרוק עליהם דם האשם כמו שיתבאר בסוף נגעים:

Rambam explica que já se esclareceu, em Taanit, o que são os maamadot; e diz que o chefe do maamad daquela semana, ao ouvir o som da pá, posicionava os leprosos que já se haviam purificado de sua lepra no portão leste, para que estivessem prontos para que se aspergisse sobre eles o sangue da oferenda de culpa (asham), como se explicará ao final de Negaim.

Bartenura · Tamid 5:6
הַמַּגְרֵפָה. כְּלִי גָדוֹל שֶׁהָיוּ זוֹרְקִים אוֹתוֹ כְדֵי לְהַשְׁמִיעַ קוֹל, וְהַקּוֹל הַיּוֹצֵא מִמֶּנּוּ מְשַׁמֵּשׁ שְׁלֹשָׁה דְבָרִים כְּדִמְפָרֵשׁ וְאָזֵיל: כֹּהֵן הַשּׁוֹמֵעַ קוֹלָהּ. אִם לֹא הָיָה בָעֲזָרָה: רָץ וּבָא. לְהִשְׁתַּחֲווֹת עִם אֶחָיו הַכֹּהֲנִים: וְרֹאשׁ הַמַּעֲמָד. כְּשֶׁהָיָה שׁוֹמֵעַ קוֹל הַמַּגְרֵפָה: הָיָה מַעֲמִיד אֶת הַטְּמֵאִים. שֶׁל אוֹתוֹ בֵית אָב שֶׁלֹּא הָיוּ רְאוּיִים לַעֲבֹד: בְּשַׁעֲרֵי הַמִּזְרָח. אִית דְּאָמְרֵי כְדֵי לְבַיְּשָׁן וּלְהוֹדִיעַ שֶׁמִּפְּנֵי טֻמְאַת קֶרִי הוּא נִמְנָע לַעֲבֹד, כְּדֵי שֶׁיִּזָּהֵר פַּעַם אַחֶרֶת. וְאִית דְּאָמְרֵי מִפְּנֵי הַחֲשָׁד, שֶׁלֹּא יַחְשְׁדוּהוּ שֶׁלִּמְלַאכְתּוֹ הָלַךְ וְהִנִּיחַ מִלַּעֲבֹד, אֲבָל יֵדְעוּ שֶׁמִּפְּנֵי טֻמְאַת אֹנֶס שֶׁל שֶׁרֶץ אוֹ דָבָר אַחֵר נִמְנָע מִלַּעֲבֹד. וְהָרַמְבַּ"ם כָּתַב, שֶׁמְּצֹרָעִים שֶׁכְּבָר טָהֲרוּ מִצָּרַעְתָּם הָיָה מַעֲמִידָם בְּשַׁעַר הַמִּזְרָח, כְּדֵי שֶׁיִּהְיוּ מְזֻמָּנִים לִזְרֹק עֲלֵיהֶם דַּם הָאָשָׁם:

Bartenura explica que a magrefá era um vaso grande que se lançava para produzir um som, e o som que dele saía servia a três propósitos, como a mishná passa a explicar. Sobre “o sacerdote que ouve sua voz”: caso não estivesse no pátio. Sobre “corre e vem”: para se prostrar com seus irmãos sacerdotes. Sobre “e o chefe do turno”: ao ouvir o som da pá. Sobre “posicionava os impuros”: os daquela casa paterna que não estavam aptos a servir. Sobre “nos portões do leste”: há quem diga que era para envergonhá-los e fazer saber que era por impureza seminal que se abstinham de servir, para que se cuidassem outra vez; e há quem diga que era por causa da suspeita, para que não os suspeitassem de terem ido cuidar de seus próprios afazeres e abandonado o serviço, mas que soubessem que era por impureza involuntária de um réptil ou outra coisa que se abstinham de servir. E Rambam escreveu que eram os leprosos já purificados de sua lepra que ele posicionava no portão leste, para que estivessem prontos para que se aspergisse sobre eles o sangue da oferenda de culpa.

סְלִיקָא לַהּ פֶּרֶק ה’ דְּמַסֶּכֶת תָּמִיד

Com esta mishná, encerra-se o Perek Hei, quinto capítulo de Massechet Tamid. Suas seis mishnayot acompanharam a transição do pátio do altar para o interior do Templo: a recitação do Shemá e das três bênçãos ao povo na Câmara de Pedras Lavradas, com o acréscimo especial dos sábados para o turno que se despede (5:1); o terceiro sorteio, restrito aos sacerdotes ainda não privilegiados com o incenso, e o quarto sorteio, para quem subiria os membros do tamid ao altar — com a opinião divergente de Rabi Eliezer ben Iaacov (5:2); a entrega dos sacerdotes não sorteados aos assistentes, que os despiam até restarem-lhes apenas as calças, e as janelas rotuladas onde se guardavam as vestes sacerdotais (5:3); a colher de ouro do incenso, semelhante a um grande tarkav, com o pequeno vaso transbordante em seu interior, sua tampa e o pano ornamental (5:4); a tomada das brasas na pá de prata, sua transferência para a pá de ouro, e o pesachter de três usos, com suas duas correntes (5:5); e, por fim, o lançamento estrondoso da pá entre o vestíbulo e o altar, cujo som convocava sacerdotes e levitas ao serviço e permitia ao chefe do turno posicionar publicamente os impuros no portão leste (5:6).

Massechet Tamid prossegue agora com o Perek Vav, o sexto capítulo do tratado.