Chegaram entre o vestíbulo e o altar; um tomou a pá e a lançou entre o vestíbulo e o altar. Ninguém ouvia a voz de seu companheiro em Jerusalém por causa do som da pá. E para três coisas servia: o sacerdote que ouve sua voz sabe que seus irmãos sacerdotes entram para se prostrar, e ele corre e vem. E o filho de Levi que ouve sua voz sabe que seus irmãos levitas entram para falar no canto, e ele corre e vem. E o chefe do turno posicionava os impuros no portão leste.
O sacerdote que carregava o incenso e o que carregava as brasas na pá de ouro, subindo juntos rumo ao Santuário, chegavam ao espaço entre o vestíbulo (ulam) e o altar externo. Nesse ponto, um dos sacerdotes tomava a magrefá — um instrumento ou vaso grande, distinto da pá de carvão — e a lançava ao chão com força, produzindo um estrondo tão retumbante que, segundo a mishná, ninguém em toda Jerusalém conseguia ouvir a voz de seu companheiro enquanto ele ressoava. Esse som cumpria três funções simultâneas, todas ligadas ao início iminente do serviço no Santuário: qualquer sacerdote que o ouvisse, estivesse onde estivesse, sabia que seus irmãos sacerdotes estavam prestes a entrar para se prostrar diante de D-us, e corria para se juntar a eles; qualquer levita que o ouvisse sabia que seus irmãos levitas estavam entrando para tomar posição no coro que acompanhava a libação com o cântico, e corria para se juntar a eles também. E, nesse mesmo momento, o chefe do maamad — o grupo de representantes leigos de Israel presente no Templo naquela semana — posicionava os sacerdotes e levitas que se encontravam ritualmente impuros junto ao portão leste do pátio, tornando publicamente claro que sua ausência do serviço se devia à impureza, e não a negligência ou desinteresse.
Rambam explica que já se esclareceu, em Taanit, o que são os maamadot; e diz que o chefe do maamad daquela semana, ao ouvir o som da pá, posicionava os leprosos que já se haviam purificado de sua lepra no portão leste, para que estivessem prontos para que se aspergisse sobre eles o sangue da oferenda de culpa (asham), como se explicará ao final de Negaim.
Bartenura explica que a magrefá era um vaso grande que se lançava para produzir um som, e o som que dele saía servia a três propósitos, como a mishná passa a explicar. Sobre “o sacerdote que ouve sua voz”: caso não estivesse no pátio. Sobre “corre e vem”: para se prostrar com seus irmãos sacerdotes. Sobre “e o chefe do turno”: ao ouvir o som da pá. Sobre “posicionava os impuros”: os daquela casa paterna que não estavam aptos a servir. Sobre “nos portões do leste”: há quem diga que era para envergonhá-los e fazer saber que era por impureza seminal que se abstinham de servir, para que se cuidassem outra vez; e há quem diga que era por causa da suspeita, para que não os suspeitassem de terem ido cuidar de seus próprios afazeres e abandonado o serviço, mas que soubessem que era por impureza involuntária de um réptil ou outra coisa que se abstinham de servir. E Rambam escreveu que eram os leprosos já purificados de sua lepra que ele posicionava no portão leste, para que estivessem prontos para que se aspergisse sobre eles o sangue da oferenda de culpa.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Hei, quinto capítulo de Massechet Tamid. Suas seis mishnayot acompanharam a transição do pátio do altar para o interior do Templo: a recitação do Shemá e das três bênçãos ao povo na Câmara de Pedras Lavradas, com o acréscimo especial dos sábados para o turno que se despede (5:1); o terceiro sorteio, restrito aos sacerdotes ainda não privilegiados com o incenso, e o quarto sorteio, para quem subiria os membros do tamid ao altar — com a opinião divergente de Rabi Eliezer ben Iaacov (5:2); a entrega dos sacerdotes não sorteados aos assistentes, que os despiam até restarem-lhes apenas as calças, e as janelas rotuladas onde se guardavam as vestes sacerdotais (5:3); a colher de ouro do incenso, semelhante a um grande tarkav, com o pequeno vaso transbordante em seu interior, sua tampa e o pano ornamental (5:4); a tomada das brasas na pá de prata, sua transferência para a pá de ouro, e o pesachter de três usos, com suas duas correntes (5:5); e, por fim, o lançamento estrondoso da pá entre o vestíbulo e o altar, cujo som convocava sacerdotes e levitas ao serviço e permitia ao chefe do turno posicionar publicamente os impuros no portão leste (5:6).
Massechet Tamid prossegue agora com o Perek Vav, o sexto capítulo do tratado.