Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Alef · Mishná 1 de 7

A partir de quando se menciona os poderes da chuva?

מֵאֵימָתַי מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo Massechet Taanit imediatamente após o encerramento de Rosh Hashaná — cujo último perek terminou com a menção de que em Sucot o mundo é julgado quanto à água — a mishná discute a partir de quando o fiel passa a mencionar a chuva na Amidá, e por que fazê-lo justamente na festa em que a chuva é vista como sinal desfavorável.

A partir de quando se menciona os poderes da chuva?A mishná pergunta a partir de que momento se insere na segunda bênção da Amidá, a bênção das potências divinas, a fórmula "que faz soprar o vento e descer a chuva" — chamada "poderes da chuva" porque a descida da chuva é contada entre os grandes feitos de D'us.

Rabi Eliezer diz: a partir do primeiro dia festivo da Festa.Rabi Eliezer opina que a menção começa já no primeiro dia de Sucot, ligando-a ao início da festa em que a colheita é concluída e a estação chuvosa se aproxima.

Rabi Yehoshua diz: a partir do último dia festivo da Festa.Rabi Yehoshua discorda, e situa o início da menção apenas no oitavo dia — Shemini Atzeret —, o último dia festivo ligado a Sucot.

Disse-lhe Rabi Yehoshua: já que a chuva não é senão sinal de maldição na Festa, por que mencioná-la?Rabi Yehoshua justifica sua posição perguntando a Rabi Eliezer: se a chuva, durante os sete dias em que se mora na sucá, é recebida como um sinal desfavorável — pois interrompe a alegria da festa —, por que começar já então a mencioná-la na oração?

Disse-lhe Rabi Eliezer: também eu não disse para pedi-la, mas para mencionar "que faz soprar o vento e descer a chuva" em sua estação.Rabi Eliezer responde que não propôs pedir a chuva — o que de fato seria impróprio durante a festa —, mas apenas mencionar, de passagem, que D'us é Aquele que faz descer a chuva na estação apropriada, sem que isso implique um pedido para que ela caia justamente ali.

Disse-lhe: se assim, que a mencione sempre.Rabi Yehoshua replica que, se a menção não é um pedido e apenas descreve um atributo geral de D'us, não haveria razão para restringi-la à estação chuvosa — deveria ser recitada o ano inteiro, inclusive no verão —, o que mostra que a data de início de fato importa, e reforça sua própria posição de que a menção só deve começar quando a chuva já é bem-vinda, no oitavo dia.

מֵאֵימָתַי מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִיּוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן שֶׁל חָג. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, מִיּוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן שֶׁל חָג. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, הוֹאִיל וְאֵין הַגְּשָׁמִים אֶלָּא סִימַן קְלָלָה בֶּחָג, לָמָּה מַזְכִּיר. אָמַר לוֹ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, אַף אֲנִי לֹא אָמַרְתִּי לִשְׁאוֹל, אֶלָּא לְהַזְכִּיר מַשִּׁיב הָרוּחַ וּמוֹרִיד הַגֶּשֶׁם בְּעוֹנָתוֹ. אָמַר לוֹ, אִם כֵּן, לְעוֹלָם יְהֵא מַזְכִּיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Iyov 5:9-10
עֹשֶׂה גְדֹלוֹת וְאֵין חֵקֶר, נִפְלָאוֹת עַד אֵין מִסְפָּר. הַנֹּתֵן מָטָר עַל פְּנֵי אָרֶץ, וְשֹׁלֵחַ מַיִם עַל פְּנֵי חוּצוֹת.
Que faz grandes coisas e insondáveis, maravilhas sem número; que dá chuva sobre a face da terra e envia águas sobre a face dos campos.

Bartenura explica que este verso é a origem da expressão "poderes da chuva" que dá nome à nossa mishná. O livro de Iyov associa explicitamente "faz grandes coisas insondáveis" — expressão que descreve os atos de poder de D'us — com "dá chuva sobre a face da terra", de modo que a queda da chuva é contada entre as manifestações da força divina no mundo, ao lado da própria criação. É por isso que a fórmula "que faz soprar o vento e descer a chuva", inserida na segunda bênção da Amidá — a bênção que trata precisamente dos atos de poder de D'us —, recebe o nome de "gevurot geshamim", os poderes da chuva: não se trata de um pedido, mas de um reconhecimento de que a chuva, como a ressurreição dos mortos mencionada na mesma bênção, revela o domínio de D'us sobre forças que escapam ao controle humano.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica a ligação editorial com o fim de Rosh Hashaná e fixa a halachá conforme Rabi Yehoshua; Rambam remete ao ensinamento já dado em Sucá sobre a chuva como sinal desfavorável na festa.

Bartenura · Taanit 1:1
מֵאֵימָתַי מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים. אַיְדֵי דְּתָנָא בְּמַסֶּכֶת רֹאשׁ הַשָּׁנָה דְּסָלֵיק מִנָּהּ וּבֶחָג נִדּוֹנִין עַל הַמַּיִם, תָּנָא הָכָא מֵאֵימָתַי מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים. וּלְפִי שֶׁהַגְּשָׁמִים אַחַת מִגְּבוּרוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, דִּכְתִיב עוֹשֶׂה גְדוֹלוֹת וְאֵין חֵקֶר הַנּוֹתֵן מָטָר עַל פְּנֵי אָרֶץ, מִשּׁוּם הָכִי קָרֵי לְהוּ גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים. אִם כֵּן, אַתָּה אוֹמֵר מַזְכִּירִין אַף עַל פִּי שֶׁאֵין שׁוֹאֲלִין הוֹאִיל וּמַשְׁמַע בְּעוֹנָתוֹ, אֲפִלּוּ בַּקַּיִץ יַזְכִּירוֹ, וּמַה אַתָּה נוֹתֵן סִימָן מִיּוֹם טוֹב רִאשׁוֹן. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

"A partir de quando se menciona os poderes da chuva" — como o tratado anterior, Rosh Hashaná, terminava tratando de Sucot, dizendo que nessa festa o mundo é julgado quanto à água, a mishná ensina aqui, em continuidade, a partir de quando se menciona os poderes da chuva. E como a chuva é um dos poderes do Santo, bendito seja, conforme está escrito "que faz grandes coisas insondáveis, que dá chuva sobre a face da terra", por isso a chamam de "poderes da chuva". Concluindo a réplica de Rabi Yehoshua a Rabi Eliezer: se assim é — que a menção não é um pedido, mas apenas indica que a chuva cai em sua estação — dirias que se deve mencioná-la mesmo quando não se pede, e então mesmo no verão se deveria mencioná-la; e por que davas então o sinal do primeiro dia festivo? E a halachá segue Rabi Yehoshua.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 1:1
מאימתי מזכירין גבורות גשמים רבי אליעזר אומר מיום טוב הראשון כו': כבר קדם לך בסוף הפרק השני מסוכה כי ירידת הגשמים בסוכות אינו סימן ברכה. והלכה כרבי יהושע.

Já te foi ensinado antes, ao final do segundo perek de Sucá, que a descida da chuva em Sucot não é sinal de bênção — remetendo o leitor ao princípio, já estabelecido naquele tratado, de que a chuva durante os sete dias da festa é recebida como interrupção indesejada da alegria de habitar na sucá. E a halachá segue Rabi Yehoshua, isto é, a menção começa apenas no oitavo dia, Shemini Atzeret.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, explica por que a chuva em Sucot é recebida como sinal desfavorável e o sentido preciso de "em sua estação" na réplica de Rabi Eliezer.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 2a
מתני' מאימתי מזכירין גבורות גשמים – שאומר משיב הרוח ומוריד הגשם ובגמרא מפרש טעמא אמאי קרי ליה גבורות גשמים מפני שיורדין בגבורה שנאמר עושה גדולות וגו'.

"Nossa mishná: a partir de quando se menciona os poderes da chuva" — refere-se à inserção da fórmula "que faz soprar o vento e descer a chuva"; e a Guemará explica adiante por que a chamam "poderes da chuva": porque a chuva desce com poder, conforme está dito "que faz grandes coisas" etc.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sinal de maldição na Festa"
סימן קללה בחג הן – כדאמרינן במס' סוכה בפרק הישן, משל לעבד שבא למזוג כוס לרבו ושפך לו קיתון על פניו, ואמר לו: אי אפשי בשמושך.

"É sinal de maldição na Festa" — como já dissemos em Massechet Sucá, no capítulo "Hayashen": é semelhante a um servo que veio misturar uma taça para seu senhor, e o senhor derramou-lhe um jarro de água no rosto, dizendo-lhe: "não quero teu serviço" — assim também a chuva caindo sobre a sucá é lida como um sinal de que D'us, por assim dizer, rejeitou naquele momento o serviço oferecido por Israel ao habitar a cabana.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "em sua estação" e a réplica final de Rabi Yehoshua
בעונתו – כלומר בזמנו. אם כן – ואמאי פוסק בפסח מלהזכיר.

"Em sua estação" — isto é, em seu tempo próprio, a estação chuvosa. "Se assim" — a objeção final de Rabi Yehoshua questiona: se a menção é apenas descritiva e não um pedido, por que então Rabi Eliezer haveria de interromper a menção na Páscoa, quando a estação chuvosa termina? A resposta implícita é que, mesmo sendo descritiva, a menção só faz sentido dentro da estação em que a chuva de fato ocorre — o que é precisamente o ponto que Rabi Yehoshua explora para sustentar sua própria opinião.