Pois assim seria pelo raciocínio: se o primeiro testemunho, que não a proíbe com proibição eterna, não se estabelece com menos de duas testemunhas, o testemunho final, que a proíbe com proibição eterna, não é justo que não se estabeleça com menos de duas? Ensina o versículo: "e não houver testemunha nela" — toda testemunha que nela houver. E ainda um kal vachomer para o primeiro testemunho, a partir de agora: se o testemunho final, que a proíbe com proibição eterna, eis que se estabelece com uma só testemunha, o primeiro testemunho, que não a proíbe com proibição eterna, não é justo que se estabeleça com uma só testemunha? Ensina o versículo: "pois achou nela coisa indecente", e adiante diz: "por boca de duas testemunhas se estabelecerá o caso" — assim como ali por boca de duas testemunhas, também aqui por boca de duas testemunhas. — Esta mishná é um caso raro de puro raciocínio jurídico incorporado ao texto mishnaico, quase como se fosse um trecho de Guemará: primeiro, apresenta o argumento lógico natural — o kal vachomer, ou "a fortiori" — que se esperaria: se mesmo o testemunho sobre a reclusão, cuja consequência é apenas proibi-la temporariamente até que beba as águas, exige duas testemunhas, então certamente o testemunho sobre a contaminação em si, cuja consequência é proibi-la para sempre, deveria exigir ao menos o mesmo padrão de duas testemunhas — e talvez até mais. Mas a Torá subverte essa lógica: o versículo "e não houver testemunha nela" é lido de forma expansiva, "toda testemunha que nela houver", ensinando que mesmo uma só testemunha basta para a contaminação, contrariando o que o raciocínio puro sugeriria. A mishná então inverte a lógica: agora que se sabe que o testemunho mais grave (contaminação) se estabelece com uma só testemunha, seria de se esperar, por kal vachomer inverso, que o testemunho mais leve (reclusão) também se estabelecesse com uma só. Mas aqui a Torá intervém pelo lado oposto, trazendo o versículo sobre o divórcio comum — "pois achou nela coisa indecente" — que é justaposto ao versículo padrão de duas testemunhas em Devarim, estabelecendo por analogia verbal (guezerá shavá) que o primeiro testemunho, o da reclusão, exige sim duas testemunhas, resistindo à tentação lógica de reduzir também esse padrão a uma só pessoa.
Três versículos sustentam o raciocínio desta mishná: o da sotá sobre a testemunha única, e os dois que se cruzam por guezerá shavá para exigir duas testemunhas na reclusão.
O termo "coisa indecente" (עֶרְוַת דָּבָר) em Devarim 24:1, associado ao divórcio comum, é ligado por guezerá shavá — analogia verbal entre versículos que compartilham a mesma palavra ou expressão — ao versículo geral de duas testemunhas em Devarim 19:15, criando a base para exigir também duas testemunhas na reclusão da sotá. Rambam e Bartenura explicam que essa dupla operação exegética — primeiro expandir "e não houver testemunha nela" para aceitar uma só testemunha na contaminação, depois usar a guezerá shavá para manter duas testemunhas na reclusão — evita que a lógica humana, por si só, nivele os dois padrões de prova em qualquer direção, preservando a estrutura exata que a Torá pretendeu.
Rambam explica o valor probatório da expressão "e não houver testemunha nela"; Bartenura detalha por que a palavra "testemunha" no singular normalmente implica duas, salvo exceção explícita.
Rambam explica a leitura técnica de "e não houver testemunha nela": a expressão indica que ali não há um testemunho completo formado por duas pessoas, mas apenas um testemunho parcial, de uma só pessoa — e mesmo assim ele é suficiente. Rambam nota que a expressão seguinte, "e ela não foi surpreendida", esclarece que a proibição eterna decorre precisamente da ausência de captura formal — a mera falta de uma prisão em flagrante, combinada com o testemunho parcial de uma pessoa, já basta para estabelecer a proibição definitiva, distinta do padrão usual de duas testemunhas que a expressão "um só testemunho" em Devarim 19:15 pressupõe.
Bartenura explica o princípio hermenêutico geral por trás desta mishná: sempre que a Torá menciona a palavra "testemunha" sem qualificação numérica, o padrão implícito é o de duas pessoas, e é justamente por isso que, quando a Torá quer estabelecer uma exceção — permitindo que uma só testemunha baste, como no verso "não se levantará uma só testemunha contra um homem" —, ela precisa especificar explicitamente o número "um". A partir dessa mesma lógica reversa, a mishná deduz que "e não houver testemunha nela" também é uma exceção deliberada, abrindo espaço para qualquer testemunho, por menor que seja, bastar para a contaminação da sotá.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 31a-31b), Rambam e Bartenura.
Rashi confirma que o princípio de que uma só testemunha basta na contaminação não decorre da lógica natural do kal vachomer, mas exclusivamente de uma decisão explícita da Torá — sem esse decreto textual, a lógica sozinha exigiria duas testemunhas também aqui. Rashi observa ainda que a exigência de duas testemunhas na reclusão, segundo Rabi Yehoshua, decorre especificamente da guezerá shavá exposta na mishná — a analogia entre "coisa indecente" no divórcio comum e o padrão de duas testemunhas em Devarim 19:15 —, e nota que a força da proibição eterna na contaminação é tão grande que se aplica até ao caso de contaminação apenas duvidosa, com maior razão à contaminação certa.
Rambam resume os dois testemunhos em jogo: o "primeiro testemunho" refere-se à reclusão após a advertência — já explicada no início da massechet como exigindo duas testemunhas, com a consequência limitada de proibir a mulher apenas até que beba as águas —, enquanto o "testemunho final" refere-se à contaminação propriamente dita, que basta com uma só testemunha e produz a proibição eterna. Rambam destaca que essa é precisamente a inversão lógica que causa perplexidade: o testemunho de consequência mais grave exige menos prova formal do que o de consequência mais leve, contrariando a intuição jurídica comum — e é exatamente essa tensão que a mishná expõe e resolve com os dois versículos citados.
Bartenura reforça que, sem o decreto explícito do versículo, a lógica sozinha (o "kal vachomer sem base") exigiria que o testemunho da contaminação, por proibir a mulher para sempre, precisasse de pelo menos duas testemunhas — mais rigor, não menos. É exatamente essa expectativa que "e não houver testemunha nela" vem contrariar: o versículo é lido como se dissesse "há apenas um testemunho, e ainda assim ele já basta para dizer 'ela não foi capturada' e proibi-la" — prova textual de que um único depoente já tem força probatória plena neste caso específico, ainda que o raciocínio lógico natural apontasse na direção oposta.