Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Guimel · Mishná 7 de 8

A diferença entre o sacerdote e a filha de sacerdote

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן, מִנְחָתָהּ נִשְׂרֶפֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A partir da exceção das casadas com sacerdotes na mishná anterior, esta mishná esclarece que o que determina a queima é o marido, não a linhagem da própria mulher — e aproveita para abrir uma digressão comparativa entre o estatuto do sacerdote e o da filha de sacerdote em quatro áreas distintas da lei.

A filha de Israel que se casou com um sacerdote, sua oferenda é queimada. E a sacerdotisa que se casou com um israelita, sua oferenda é comida. Que diferença há entre o sacerdote e a sacerdotisa? A oferenda da sacerdotisa é comida, a oferenda do sacerdote não é comida. A sacerdotisa pode ser desqualificada, e o sacerdote não é desqualificado. A sacerdotisa se contamina por mortos, e o sacerdote não se contamina por mortos. O sacerdote come das santidades supremas, e a sacerdotisa não come das santidades supremas.A mishná esclarece, primeiro, que o que determina a queima total da oferenda de farinha é a condição de sacerdote do marido, não a origem da esposa: uma filha comum de Israel casada com um sacerdote tem sua oferenda queimada, seguindo o estatuto dele; mas uma filha de sacerdote casada com um israelita comum tem sua oferenda comida normalmente, seguindo agora o estatuto leigo do marido dela. A partir dessa constatação, a mishná levanta uma questão mais ampla: por que a lei trata de forma tão diferente o sacerdote homem e a filha de sacerdote, já que ambos nascem da mesma linhagem sacerdotal? A resposta vem em quatro comparações concretas. Primeiro, quanto à própria oferenda: a de uma filha de sacerdote é comida por outros sacerdotes, mas a de um sacerdote homem nunca é comida, sendo sempre totalmente queimada — conforme já estabelecido. Segundo, quanto à condição pessoal: a filha de sacerdote pode perder seu estatuto sacerdotal permanentemente — tornando-se "desqualificada" — caso se relacione com alguém proibido a ela, ao passo que o sacerdote homem nunca perde definitivamente sua condição, mesmo que se case indevidamente; no máximo fica temporariamente impedido de servir enquanto mantiver essa união. Terceiro, quanto à impureza: a filha de sacerdote pode se contaminar tocando ou se aproximando de um morto, como qualquer pessoa comum, mas o sacerdote homem está proibido de fazê-lo, exceto para seus parentes mais próximos. Quarto, quanto ao consumo de oferendas: o sacerdote homem pode comer das oferendas de santidade suprema — como a oferenda pelo pecado e a oferenda de culpa — mas a filha de sacerdote está excluída dessas categorias mais sagradas, mesmo sendo da mesma linhagem.

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן, מִנְחָתָהּ נִשְׂרֶפֶת. וְכֹהֶנֶת שֶׁנִּשֵּׂאת לְיִשְׂרָאֵל, מִנְחָתָהּ נֶאֱכֶלֶת. מַה בֵּין כֹּהֵן לְכֹהֶנֶת, מִנְחַת כֹּהֶנֶת נֶאֱכֶלֶת, מִנְחַת כֹּהֵן אֵינָהּ נֶאֱכֶלֶת. כֹּהֶנֶת מִתְחַלֶּלֶת, וְכֹהֵן אֵין מִתְחַלֵּל. כֹּהֶנֶת מִטַּמְּאָה לְמֵתִים, וְאֵין כֹּהֵן מִטַּמֵּא לְמֵתִים. כֹּהֵן אוֹכֵל בְּקָדְשֵׁי קָדָשִׁים, וְאֵין כֹּהֶנֶת אוֹכֶלֶת בְּקָדְשֵׁי קָדָשִׁים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A distinção entre o sacerdote homem, que nunca perde definitivamente seu estatuto, e a filha de sacerdote, que pode ser permanentemente desqualificada, está em Vayikrá 21.

Vayikrá (Levítico) 21:15
וְלֹֽא־יְחַלֵּ֥ל זַרְע֖וֹ בְּעַמָּ֑יו כִּ֛י אֲנִ֥י יְהֹוָ֖ה מְקַדְּשֽׁוֹ׃
E não profanará sua descendência entre seu povo, pois Eu sou o Senhor que o santifico.

Rambam observa que a exegese tradicional lê este versículo como referindo-se apenas à descendência do sacerdote — "sua descendência se profana, mas ele mesmo não se profana" — o que explica por que um sacerdote que se casa indevidamente com uma mulher proibida a ele permanece apenas temporariamente impedido de servir, voltando à sua aptidão plena assim que se separa dela, enquanto a filha nascida dessa união (ou a própria filha de sacerdote que se relaciona indevidamente) carrega uma desqualificação permanente. Esse mesmo versículo é a base de todas as quatro diferenças listadas na mishná: cada uma delas reflete, de um ângulo distinto, o princípio de que o estatuto sacerdotal do homem é intrínseco e irrevogável, enquanto o da mulher, embora real, permanece condicionado à sua conduta e a seu vínculo matrimonial.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, desenvolve com detalhe a leitura do versículo de Vayikrá 21 sobre a diferença entre a profanação da descendência e a do próprio sacerdote; Bartenura acrescenta a base textual de cada uma das quatro diferenças.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 3:7
נֶאֱמַר בַּתּוֹרָה וְכָל מִנְחַת כֹּהֵן כָּלִיל תִּהְיֶה לֹא תֵאָכֵל, וּבָא בַּקַּבָּלָה כֹּהֵן וְלֹא כֹהֶנֶת, וְנֶאֱמַר וְלֹא יְחַלֵּל זַרְעוֹ בְּעַמָּיו, זַרְעוֹ מִתְחַלֵּל וְהוּא אֵינוֹ מִתְחַלֵּל

Rambam explica que a linguagem "e toda oferenda de sacerdote" é lida pela tradição oral como referindo-se especificamente a um sacerdote homem, e não a uma sacerdotisa — o que já basta para explicar por que a oferenda dela pode ser comida enquanto a dele nunca pode. Quanto à segunda diferença, Rambam esclarece o sentido exato de "não profanará sua descendência": é a descendência dele que se torna profana quando ele se casa indevidamente, mas ele mesmo permanece, tecnicamente, dentro de seu estatuto sacerdotal — apenas impedido temporariamente de exercer suas funções enquanto mantiver a união proibida.

Bartenura · Sotá 3:7
כֹּהֶנֶת מִטַּמְּאָה לְמֵתִים. דִּכְתִיב בְּנֵי אַהֲרֹן, וְלֹא בְנוֹת אַהֲרֹן: וְאֵין כֹּהֶנֶת אוֹכֶלֶת בְּקָדְשֵׁי קָדָשִׁים. דְּחַטָּאת וְאָשָׁם וּמִנְחָה בְּכוּלְהוּ כְּתִיב כָּל זָכָר בִּבְנֵי אַהֲרֹן יֹאכְלֶנּוּ

Bartenura fornece a base textual precisa das duas últimas diferenças: a proibição de contaminar-se por um morto é dirigida explicitamente aos "filhos de Aharon", excluindo por leitura literal as "filhas de Aharon" — daí a filha de sacerdote poder se aproximar de um falecido normalmente. E quanto às santidades supremas, a Torá repete em cada uma das leis de oferenda de pecado, culpa e farinha a expressão "todo macho entre os filhos de Aharon a comerá", restringindo explicitamente esse privilégio aos homens da linhagem sacerdotal, e excluindo por definição textual as mulheres.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 23a-23b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 23a-23b, sobre a mishná
כהנת מתחללת - מן התרומה ומן הכהונה אם נבעלה לפסול: וכהן אין מתחלל - אם נשא גרושה זונה וחללה, וטעם דכולה מתני' מפרש בגמ': לא יחלל זרעו - בכהן הנושא פסולה לכהונה כתיב, ודרשינן בקידושין (דף עז.) לא יחלל, שני חילולין, אחד לה ואחד לזרעו, שהכהן מחלל את שתיהן, אבל הוא אין מתחלל

Rashi explica que a "desqualificação" da filha de sacerdote significa perder seu direito de comer terumá e sua condição sacerdotal, caso se relacione com alguém proibido a ela — uma perda permanente. Já o sacerdote homem, mesmo se casar indevidamente com uma divorciada, uma mulher promíscua ou uma desqualificada, "não se profana" a si mesmo. Rashi cita a leitura da Guemará em Kidushin sobre o versículo "não profanará sua descendência": há dois tipos de profanação implícitos no texto — a da própria mulher com quem se casa indevidamente, e a da descendência gerada dessa união — e é o sacerdote quem causa ambas as profanações através de seu ato, mas ele mesmo permanece fora delas.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 3:7
נֶאֱמַר בַּתּוֹרָה וְכָל מִנְחַת כֹּהֵן כָּלִיל תִּהְיֶה לֹא תֵאָכֵל... וְעִנְיַן אֵינוֹ מִתְחַלֵּל, שֶׁאֵינוֹ נַעֲשֶׂה חָלָל לְעוֹלָם, אֲבָל הוּא פָּסוּל כָּל זְמַן שֶׁהוּא עוֹמֵד עִם זֹאת הָאִשָּׁה שֶׁעֲשָׂאָהּ חֲלָלָה

Rambam distingue com precisão entre "tornar-se um chalal" (חלל) — um estatuto degradado permanente — e a "desqualificação" temporária para o serviço: o sacerdote que se casa com uma mulher proibida jamais se torna, ele mesmo, um chalal; ele apenas fica impedido de servir no Templo enquanto viver com ela, recuperando sua plena aptidão assim que a relação termina. A mulher que ele torna "profanada" através dessa união, porém, carrega esse estatuto rebaixado permanentemente, para sempre — e essa é precisamente a assimetria que a mishná explora em suas quatro comparações.

Bartenura · רע״ב
Sotá 3:7
כֹּהֶנֶת מִתְחַלֶּלֶת. מִן הַתְּרוּמָה וּמִן הַכְּהֻנָּה, אִם נִבְעֲלָה לַפְּסוּלִים, שׁוּב אֵינָהּ חוֹזֶרֶת לְכַשְׁרוּתָהּ לְעוֹלָם: כֹּהֵן אֵינוֹ מִתְחַלֵּל. אִם נָשָׂא גְּרוּשָׁה חֲלָלָה אוֹ זוֹנָה, אֶלָּא כָּל זְמַן שֶׁהוּא עִמָּהּ הוּא פָּסוּל לָעֲבוֹדָה, מִשֶּׁגֵּרְשָׁהּ חוֹזֵר לְהֶכְשֵׁרוֹ

Bartenura enfatiza o caráter irreversível da desqualificação feminina em contraste com a reversibilidade da masculina: uma vez que a filha de sacerdote se relaciona com alguém que a torna proibida à sacerdócio — como um chalal ou outro homem desqualificado —, ela perde para sempre seu direito de comer terumá e sua condição sacerdotal, sem qualquer possibilidade de retorno. O sacerdote homem, em contrapartida, mesmo tendo se casado indevidamente, recupera automaticamente sua plena aptidão para o serviço no momento em que se divorcia da mulher proibida — sua desqualificação dura exatamente enquanto durar a união, e não além disso.