Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Alef · Mishná 6 de 7

A transgressão deliberada e o bode enviado a Azazel

וְעַל זְדוֹן טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Tendo esgotado as quatro configurações de transgressão inadvertida da impureza do Templo, a mishná volta-se agora para a transgressão cometida deliberadamente, e para o bode enviado que expia todas as demais transgressões da Torá.

E sobre a transgressão deliberada da impureza do Templo e das coisas sagradas, o bode que é feito por dentro e o Dia do Perdão expiam. E sobre as demais transgressões que há na Torá — as leves e as graves, as deliberadas e as inadvertidas, as que se tornaram conhecidas e as que não se tornaram conhecidas, os mandamentos positivos e os negativos, as [transgressões passíveis] de extirpação e as de morte pelo tribunal — o bode enviado expia.Depois de mapear cuidadosamente as quatro combinações possíveis de consciência inadvertida quanto à impureza do Templo, a mishná introduz agora um quinto caso, categoricamente distinto: a transgressão cometida com plena consciência e deliberação — alguém que sabia, o tempo todo, estar impuro, e ainda assim escolheu entrar no Templo ou consumir alimentos sagrados. Surpreendentemente, a mishná ensina que o mesmo par expiatório da Mishná 1:2 — o bode interno de Yom Kipur e o próprio caráter do dia — também cobre esta transgressão deliberada, ainda que ela seja, em princípio, punível com karet (extirpação espiritual), a pena mais severa do sistema penal bíblico que não envolve execução por tribunal humano. A segunda metade da mishná amplia radicalmente o escopo, saindo do domínio específico da impureza do Templo para abranger toda e qualquer transgressão da Torá, seja ela qual for: leve ou grave, cometida com pleno conhecimento ou por engano, cuja dúvida tenha sido esclarecida ou permanecido sem solução, seja mandamento positivo ("faze") ou negativo ("não faças"), e mesmo as transgressões mais severas, puníveis com extirpação divina ou com execução pelo tribunal terreno. Todas essas — numa lista deliberadamente abrangente que parece não deixar nada de fora — são expiadas pelo terceiro e mais dramático dos bodes de Yom Kipur: o bode enviado ao deserto, carregando sobre si, por meio da confissão do Sumo Sacerdote, os pecados de todo o povo de Israel (Vayikrá 16).

וְעַל זְדוֹן טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו, שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים וְיוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפְּרִין. וְעַל שְׁאָר עֲבֵרוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, הַקַּלּוֹת וְהַחֲמוּרוֹת, הַזְּדוֹנוֹת וְהַשְּׁגָגוֹת, הוֹדַע וְלֹא הוֹדַע, עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה, כְּרֵתוֹת וּמִיתוֹת בֵּית דִּין, שָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ מְכַפֵּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 1:6
וְעַל זְדוֹן טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו כוּ׳: אָמְרָה רַחֲמָנָא: עַל שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים, וְכִפֶּר עַל הַקֹּדֶשׁ מִטֻּמְאוֹת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְגוֹ׳. וְקַלּוֹת נִקְרָא מִצְוַת עֲשֵׂה וּמִצְוַת לֹא תַעֲשֶׂה זוּלָתִי לֹא תִשָּׂא בִּלְבַד. וַחֲמוּרוֹת הֵם כְּרֵתוֹת וּמִיתוֹת בֵּית דִּין וְלֹא תִשָּׂא, לְפִי שֶׁהוּא מִן הַחֲמוּרוֹת אַף עַל פִּי שֶׁהוּא לֹא תַעֲשֶׂה בִּלְבַד.

Rambam identifica a base bíblica desta expiação no versículo que descreve o bode interno como purificando o Templo "das impurezas dos filhos de Israel", incluindo explicitamente as transgressões deliberadas. Ele esclarece a classificação de "leves" e "graves": as leves correspondem, em geral, aos mandamentos positivos e negativos comuns, com uma única exceção notável — o juramento vão ("não tomarás [o nome de D'us] em vão"), que, apesar de ser tecnicamente um mandamento negativo simples, é classificado entre as transgressões graves por sua gravidade intrínseca, equiparando-se às extirpações e às penas capitais de tribunal.

Bartenura · Shevuot 1:6
שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים וְיוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר. דִּכְתִיב וּמִפִּשְׁעֵיהֶם לְכָל חַטֹּאתָם, וּפְשָׁעִים אֵלּוּ מְרָדִים. הַחֲמוּרוֹת וְהַקַּלּוֹת וְכוּ׳. כֻּלַּהּ מַתְנִיתִין מְפָרְשָׁא בַגְּמָרָא הָכִי: בֵּין קַלּוֹת בֵּין חֲמוּרוֹת, בֵּין שֶׁעֲשָׂאָן בְּמֵזִיד בֵּין שֶׁעֲשָׂאָן בְּשׁוֹגֵג. וְאֵלּוּ הֵן קַלּוֹת: עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה. וְאֵלּוּ הֵן חֲמוּרוֹת: כְּרֵתוֹת וּמִיתוֹת בֵּית דִּין.

Bartenura ancora a inclusão da transgressão deliberada no próprio termo bíblico "transgressões" (peshaim), que a tradição rabínica entende especificamente como referindo-se a atos de rebelião consciente, e não a erros inadvertidos. Ele resume, de forma clara e sistemática, a estrutura da longa lista final da mishná: ela se organiza em pares complementares — leve/grave, deliberado/inadvertido, esclarecido/não esclarecido — que, juntos, esgotam toda a gama possível de transgressões da Torá, identificando explicitamente as "leves" como os mandamentos positivos e negativos comuns, e as "graves" como as puníveis por extirpação ou pena capital judicial.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 2b, s.v. ועל זדון טומאת מקדש; הודע ולא הודע
וְעַל זְדוֹן טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו — סְתָמָא הִיא. הוֹדַע וְלֹא הוֹדַע — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לַהּ.

Rashi observa, com sua concisão característica, que esta cláusula sobre a transgressão deliberada é formulada de modo anônimo (stama), sem atribuição a um Sábio específico — sinal, segundo a metodologia talmúdica, de que representa a posição consensual e não disputada da lei. Quanto à expressão enigmática "que se tornou conhecida e que não se tornou conhecida", Rashi remete sua explicação detalhada à discussão da Guemará, que a desenvolve extensamente a partir daqui — um caso, relativamente raro em seu comentário sobre esta abertura do tratado, em que ele prefere não antecipar a análise e deixá-la inteiramente para o corpo principal da sugya.