Seder Zeraim · Massechet Sheviit · Perek Zayin · Mishná 1

"O primeiro grande princípio"

כְּלָל גָּדוֹל אָמְרוּ בַּשְּׁבִיעִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o Perek Zayin com o primeiro dos dois grandes princípios sobre a santidade de shevi'it: tudo o que é alimento de homem, de animal ou espécie de tintura, e não se conserva plantado na terra, tem santidade de shevi'it e dever de biur — tanto o próprio produto quanto seu dinheiro

Um grande princípio disseram (os sábios) a respeito da shevi'it: tudo o que é alimento de homem e alimento de animal, ou da espécie das tinturas, e não se conserva na terra (isto é, murcha e se estraga se deixado plantado, não podendo ser guardado no campo)tem ele shevi'it (a santidade dos frutos do ano sabático) e seu dinheiro tem shevi'it (se for vendido, o valor recebido herda a mesma santidade); tem ele o dever do biur (a remoção obrigatória de casa quando aquela espécie se esgota no campo) e seu dinheiro tem biur. E quais são estes? A folha do luf selvagem, e a folha da dandaná (a hortelã silvestre), as chicórias, os alhos-porros, a beldroega, e o nets hechalav (uma planta de flores brancas como leite)estes são exemplos de alimento de animal: os espinheiros e os cardos. E exemplos da espécie das tinturas: os brotos espontâneos do isatis (planta tintorial que produz um tom azulado) e a rubia (outra planta tintorial). Têm estas shevi'it e seu dinheiro tem shevi'it, têm biur e seu dinheiro tem biur.

כְּלָל גָּדוֹל אָמְרוּ בַּשְּׁבִיעִית, כָּל שֶׁהוּא מַאֲכַל אָדָם וּמַאֲכַל בְּהֵמָה, וּמִמִּין הַצּוֹבְעִים, וְאֵינוֹ מִתְקַיֵּם בָּאָרֶץ, יֶשׁ לוֹ שְׁבִיעִית וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית, יֶשׁ לוֹ בִּעוּר וּלְדָמָיו בִּעוּר. וְאֵיזֶה זֶה, עֲלֵה הַלּוּף הַשּׁוֹטֶה, וַעֲלֵה הַדַּנְדַּנָּה, הָעֻלְשִׁין, וְהַכְּרֵשִׁין, וְהָרְגִילָה, וְנֵץ הֶחָלָב. וּמַאֲכַל בְּהֵמָה, הַחוֹחִים וְהַדַּרְדָּרִים. וּמִמִּין הַצּוֹבְעִים, סְפִיחֵי אִסְטִיס, וְקוֹצָה. יֶשׁ לָהֶם שְׁבִיעִית וְלִדְמֵיהֶן שְׁבִיעִית, יֶשׁ לָהֶם בִּעוּר וְלִדְמֵיהֶן בִּעוּר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Com esta mishná abre-se o Perek Zayin, que passa a tratar da santidade de shevi'it (kedushat shevi'it) que reveste os frutos do ano sabático, e das leis de biur — a remoção obrigatória do produto de casa quando ele se esgota no campo.

Vayikrá (Levítico) 25:6-7
וְהָיְתָה שַׁבַּת הָאָרֶץ לָכֶם לְאָכְלָה, לְךָ וּלְעַבְדְּךָ וְלַאֲמָתֶךָ וְלִשְׂכִירְךָ וּלְתוֹשָׁבְךָ הַגָּרִים עִמָּךְ. וְלִבְהֶמְתְּךָ וְלַחַיָּה אֲשֶׁר בְּאַרְצֶךָ תִּהְיֶה כָל תְּבוּאָתָהּ לֶאֱכֹל.
"E o descanso da terra vos será para alimento, para ti, e para teu servo, e para tua serva, e para teu assalariado e para o estrangeiro que mora contigo. E para o teu animal, e para o animal selvagem que está em tua terra, será toda a sua produção para comer" (Vayikrá 25:6-7).

Da mesma frase da Torá — "para alimento" e "para o teu animal e para o animal selvagem... para comer" — os sábios derivam tanto a extensão da santidade de shevi'it a tudo o que é comestível, humano ou animal, quanto o dever do biur, ligado à disponibilidade do produto no campo para os animais. A Torá declara que os frutos de shevi'it pertencem igualmente ao dono, aos seus dependentes e aos animais — domésticos e selvagens — "para comer". Dessa igualdade os sábios extraem dois princípios centrais: primeiro, que a santidade de shevi'it não se restringe aos alimentos humanos strictu sensu, mas se estende a tudo que serve de alimento — seja a homens, seja a animais — e mesmo às plantas tintoriais, por analogia extensiva da tradição oral; segundo, que o dever de biur está atado à disponibilidade do produto "para o animal selvagem que está em tua terra" — enquanto o animal selvagem ainda encontra aquela espécie no campo, o dono pode mantê-la em casa, mas quando ela se esgota no campo, ele é obrigado a removê-la de casa, pois a igualdade de acesso exigida pela Torá deixou de existir. Esta mishná estabelece o primeiro dos dois "grandes princípios" (o segundo virá na mishná seguinte) que classificam as plantas de shevi'it quanto à aplicação da santidade e do biur.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá veYovel 7:13
כְּלָל גָּדוֹל אָמְרוּ בַּשְּׁבִיעִית כָּל שֶׁהוּא מַאֲכַל אָדָם אוֹ מַאֲכַל בְּהֵמָה אוֹ מִמִּין הַצּוֹבְעִין אִם אֵינוֹ מִתְקַיֵּם בָּאָרֶץ יֵשׁ לוֹ וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית וְחַיָּב בְּבִעוּר הוּא וְדָמָיו. כְּגוֹן עֲלֵי הַלּוּף הַשּׁוֹטֶה וַעֲלֵי הַדַּנְדַּנָּה וְהָעֵלְשִׁין מַאֲכַל אָדָם. וּכְגוֹן הַחוֹחִים וְהַדַּרְדָּרִין מַאֲכַל הַבְּהֵמָה. וּכְגוֹן אִסְטִס וְקוֹצָה מִמִּין הַצּוֹבְעִין.
Um grande princípio disseram a respeito da shevi'it: tudo o que é alimento de homem, ou alimento de animal, ou da espécie das tinturas — se não se conserva na terra — tem, ele e seu dinheiro, shevi'it, e é obrigado ao biur, ele e seu dinheiro. Como as folhas do luf selvagem, e a folha da dandaná, e as chicórias — alimento de homem. E como os espinheiros e os cardos — alimento de animal. E como o isatis e a rubia — da espécie das tinturas.

O Rambam transcreve quase literalmente a mishná, situando-a no capítulo dedicado às leis do biur (remoção). Ele explicita a lógica subjacente: apenas as plantas que não se conservam na terra — que murcham e se perdem se deixadas no campo — estão sujeitas ao biur, pois somente para elas faz sentido o critério de "enquanto o animal selvagem ainda as encontra no campo". As plantas que se conservam plantadas (tratadas na mishná seguinte) seguem uma regra distinta.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Sheviit 7:1
עִנְיַן שֶׁאָמַר כְּלָל גָּדוֹל כְּנֶגֶד הַכְּלָל הַנֶּאֱמָר בְּמַעַשְׂרוֹת שֶׁדִּין שָׁנָה שְׁבִיעִית חַיָּב לְמַאֲכַל אָדָם. וּפֵרוּשׁ מִמִּין הַצּוֹבְעִין, מִמִּינֵי הַצְּבָעִים. יֶשׁ לוֹ שְׁבִיעִית וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית. יִתְחַיֵּב בָּהֶן שְׁבִיעִית וְאִם נִמְכַּר יִתְחַיְּבוּ דָּמָיו בַּדִּינִים הָהֵם וְעוֹד יִתְבָּאֵר עִנְיַן הַבִּעוּר לְאַחַר זֶה, וּכְבָר פֵּרַשְׁנוּ שֶׁהַלּוּף מִין מֵהַבְּצָלִים. הַדַּנְדַּנָּה. נִקְרָא נַעֲנַע וּבָעָרוּךְ נִקְרָא מִינְטָ"א בְּלַעַ"ז.

O sentido de dizer "grande princípio" é em contraste com o princípio dito a respeito dos dízimos: que a lei do ano sabático se aplica ao alimento de homem. E "da espécie das tinturas" — das espécies de tintas.

"Tem shevi'it e seu dinheiro tem shevi'it": será obrigado nelas quanto à shevi'it, e se for vendida, seu dinheiro será obrigado nesses mesmos preceitos — e ainda se explicará o assunto do biur depois disto. E já explicamos que o luf é uma espécie de bulbo.

"A dandaná": chama-se hortelã, e no Aruch é chamada "menta" em língua estrangeira.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sheviit 7:1
כְּלָל גָּדוֹל. וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית. אִם מְכָרָן וְקִבֵּל הַדָּמִים שֶׁלָּהֶם, יֵשׁ בִּדְמֵיהֶן קְדֻשַּׁת שְׁבִיעִית. יֶשׁ לוֹ בִּעוּר. כְּשֶׁכָּלָה לַחַיָּה חַיָּב לְבַעֵר. עֲלֵה לוּף שׁוֹטֶה. אִצְטָרִיךְ לְמִתְנֵי לוּף שׁוֹטֶה, מִשּׁוּם דִּתְנַן בְּפֶרֶק בַּתְרָא דְּעֻקְּצִין עֲלֵה לוּף שׁוֹטֶה אֵין מִטַּמֵּא טֻמְאַת אֳכָלִים, סַלְקָא דַעְתָּךְ אֲמֵינָא הָכִי נַמִּי לֹא לֵחוֹל עֲלַיְהוּ קְדֻשַּׁת שְׁבִיעִית, קָא מַשְׁמַע לָן. וְנֵץ הֶחָלָב. פְּרָחִים לְבָנִים כְּחָלָב. פֵּרוּשׁ אַחֵר, עֵשֶׂב הוּא שֶׁכְּשֶׁנֶּחְתָּךְ יוֹצֵא מִמֶּנּוּ חָלָב.

"Grande princípio": "e seu dinheiro tem shevi'it" — se as vendeu e recebeu o dinheiro delas, o dinheiro carrega a santidade de shevi'it.

"Tem biur": quando a planta se esgota para o animal selvagem, o dono é obrigado a removê-la.

"A folha do luf selvagem": foi necessário ensinar especificamente "luf selvagem", porque ensinamos no último perek de Uktzin que a folha do luf selvagem não se contamina com a impureza de alimentos — poder-se-ia pensar que, do mesmo modo, a santidade de shevi'it não recairia sobre ela; por isso esta mishná nos ensina que recai.

"E nets hechalav": flores brancas como leite. Outra explicação: é uma erva que, quando cortada, sai dela um líquido como leite.

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o Perek Zayin de Massechet Sheviit.