Detalha onde ocorriam as treze prostrações mencionadas na primeira mishná do perek, associando-as aos treze portões do Templo — quatro ao norte, quatro ao sul, três a leste e dois a oeste — e explica o significado dos nomes de cada portão, incluindo o Portão das Águas, ligado à libação de água em Sucot, e o Portão de Nicanor, com seus dois postigos.
E onde se prostravam? Quatro ao norte, e quatro ao sul, três a leste, e dois a oeste, correspondendo aos treze portões. — Cada uma das treze prostrações correspondia a um dos treze portões que davam acesso ao átrio do Templo, distribuídos pelos quatro lados.
Os portões do sul, junto ao oeste: o Portão Superior, o Portão do Fogo, o Portão dos Primogênitos, o Portão das Águas. — E por que se chama Portão das Águas? Porque por ali se trazia o jarro de água da libação na festa de Sucot. Rabi Eliezer ben Yaakov diz: por ele as águas manarão, e no futuro sairão de debaixo do umbral do santuário.
Correspondendo a eles, ao norte, junto ao oeste: o Portão de Yechonyá, o Portão da Oferenda, o Portão das Mulheres, o Portão do Canto. — E por que se chama Portão de Yechonyá? Porque por ele saiu o rei Yechonyá quando partiu para o exílio.
A leste, o Portão de Nicanor, que tinha dois postigos, um à direita e outro à esquerda. E dois a oeste, que não tinham nome próprio. — O portão oriental principal, chamado Portão de Nicanor, possuía duas portas menores embutidas em suas laterais; e os dois portões do lado ocidental não recebiam designação especial.
וְהֵיכָן הָיוּ מִשְׁתַּחֲוִים, אַרְבַּע בַּצָּפוֹן, וְאַרְבַּע בַּדָּרוֹם, שָׁלשׁ בַּמִּזְרָח, וּשְׁתַּיִם בַּמַּעֲרָב, כְּנֶגֶד שְׁלשָׁה עָשָׂר שְׁעָרִים. שְׁעָרִים דְּרוֹמִיִּים סְמוּכִין לַמַּעֲרָב, שַׁעַר הָעֶלְיוֹן, שַׁעַר הַדֶּלֶק, שַׁעַר הַבְּכוֹרוֹת, שַׁעַר הַמָּיִם. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ שַׁעַר הַמַּיִם, שֶׁבּוֹ מַכְנִיסִין צְלוֹחִית שֶׁל מַיִם שֶׁל נִסּוּךְ בֶּחָג. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר, בּוֹ הַמַּיִם מְפַכִּים וַעֲתִידִין לִהְיוֹת יוֹצְאִין מִתַּחַת מִפְתַּן הַבַּיִת. לְעֻמָּתָן בַּצָּפוֹן סְמוּכִין לַמַּעֲרָב, שַׁעַר יְכָנְיָה, שַׁעַר קָרְבָּן, שַׁעַר נָשִׁים, שַׁעַר הַשִּׁיר. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ שַׁעַר יְכָנְיָה, שֶׁבּוֹ יָצָא יְכָנְיָה בְּגָלוּתוֹ. בַּמִּזְרָח, שַׁעַר נִיקָנוֹר, וּשְׁנֵי פִשְׁפְּשִׁין הָיוּ לוֹ, אֶחָד בִּימִינוֹ וְאֶחָד בִּשְׂמֹאלוֹ. וּשְׁנַיִם בַּמַּעֲרָב שֶׁלֹּא הָיָה לָהֶם שֵׁם:
Yechezkel 47:1-2
וַיְשִׁבֵנִי אֶל־פֶּתַח הַבַּיִת וְהִנֵּה־מַיִם יֹצְאִים מִתַּחַת מִפְתַּן הַבַּיִת קָדִימָה... וַיּוֹצִיאֵנִי דֶּרֶךְ־שַׁעַר צָפוֹנָה וַיְסִבֵּנִי דֶּרֶךְ חוּץ אֶל־שַׁעַר הַחוּץ דֶּרֶךְ הַפּוֹנֶה קָדִים וְהִנֵּה־מַיִם מְפַכִּים מִן־הַכָּתֵף הַיְמָנִית׃
E fez-me voltar à entrada da casa; e eis que águas saíam de debaixo do umbral da casa, para o oriente... E levou-me para fora pelo caminho do portão do norte, e me fez rodear pelo caminho de fora, até o portão exterior, pelo caminho que olha para o oriente; e eis que águas manavam do lado direito.
O nome "Portão das Águas" e a opinião de Rabi Eliezer ben Yaakov de que dali "as águas manarão" remetem diretamente à visão profética de Yechezkel sobre o Templo futuro, na qual águas vivas brotam de debaixo do umbral do santuário e se transformam, ao longo de seu curso, num rio caudaloso que traz vida e cura a tudo o que toca. A associação entre esse portão específico e a profecia de Yechezkel não é meramente poética: a tradição rabínica entendia que a libação de água oferecida no altar durante a festa de Sucot — cuja água era trazida justamente por esse portão — prenunciava, em miniatura ritual, o rio das águas vivas destinado a fluir do Templo reconstruído nos dias vindouros. O termo "מְפַכִּים" (manando, gotejando) é citado literalmente da visão de Yechezkel para descrever esse fluxo escatológico.
Bartenura · Shekalim 6:3
שַׁעַר הָעֶלְיוֹן. הַר הַבַּיִת הָיָה מְשֻׁפָּע וְעוֹלֶה מִמִּזְרָח לְמַעֲרָב, וְהַשַּׁעַר הַסָּמוּךְ לְמַעֲרָב הוּא שַׁעַר הָעֶלְיוֹן. וְאַחֲרָיו שַׁעַר הַדֶּלֶק, הוּא שַׁעַר שֶׁל לִשְׁכַּת הָעֵץ שֶׁהָיְתָה בִּדְרוֹם הָעֲזָרָה, וְעַל שֵׁם שֶׁמַּכְנִיסִין דֶּרֶךְ שָׁם עֲצֵי הַמַּעֲרָכָה שֶׁדּוֹלְקִים עַל הַמִּזְבֵּחַ נִקְרָא שַׁעַר הַדֶּלֶק:
"Portão Superior" — o monte do Templo era inclinado, subindo de leste a oeste, e o portão mais próximo do oeste é o Portão Superior. E depois dele, o Portão do Fogo — o portão da câmara da lenha, situada ao sul do átrio, chamado assim porque por ali se trazia a lenha do altar que ardia ("doleq") sobre o altar.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 6:3
וְהֵיכָן הָיוּ מִשְׁתַּחֲוִים כוּ': פִּשְׁפָּשִׁין, דְּלָתוֹת קְטַנּוֹת שֶׁעוֹשִׂין בְּבָתִּים הַגְּדוֹלִים בְּעֶצֶם דַּלְתוֹת הַשְּׁעָרִים הַגְּדוֹלִים, כְּדֵי שֶׁיִּהְיוּ נוֹחִין לִפְתֹּחַ בְּכָל עֵת שֶׁיִּרְצוּ. וְזֶה הַתַּנָּא שֶׁאָמַר כִּי שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שְׁעָרִים הָיוּ בָּעֲזָרָה הוּא אַבָּא יוֹסֵי בֶּן יוֹחָנָן, כָּךְ נִתְבָּאֵר בַּיְרוּשַׁלְמִי; אֲבָל חֲכָמִים אוֹמְרִים שִׁבְעָה שְׁעָרִים הָיוּ בָּעֲזָרָה, כְּמוֹ שֶׁנִּזְכָּר בְּמִדּוֹת. וְאֵלּוּ הַשְּׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה הִשְׁתַּחֲוָיוֹת הָיוּ מִשְׁתַּחֲוִים אוֹתָן, אַלִּיבָּא דְּחַכְמֵי, כְּנֶגֶד שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה פְּרָצוֹת שֶׁפָּרְצוּם מַלְכֵי יָוָן בָּעֲזָרָה, וְחָזְרוּ בְּנֵי חַשְׁמוֹנַאי וּגְדָרוּם:
"E onde se prostravam etc.": "pishpeshin" são portas pequenas que se fazem nas casas grandes, dentro das próprias portas dos portões grandes, para que fosse fácil abri-las a qualquer momento desejado. E o tanna que disse que havia treze portões no átrio é Abba Yossi ben Yochanan, como se esclarece no Yerushalmi; mas os sábios dizem que havia sete portões no átrio, como se menciona em Middot. E essas treze prostrações, segundo os sábios, correspondiam às treze brechas que os reis gregos abriram no átrio, e que os filhos dos Chashmonaim voltaram a fechar.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 6:3
הַמַּיִם מְפַכִּים. כְּדִכְתִיב בִּיחֶזְקֵאל, וְהִנֵּה מַיִם מְפַכִּים מִן הַכָּתֵף הַיְּמָנִית, וְהַיְנוּ דָּרוֹם שֶׁקָּרוּי יָמִין. וְרָאָה יְחֶזְקֵאל בִּנְבוּאָה שֶׁהָיוּ יוֹצְאִים מִבֵּית קֹדֶשׁ הַקָּדָשִׁים דַּקִּים כְּקַרְנֵי חֲגָבִים, וּכְשֶׁמַּגִּיעִים לְשַׁעַר זֶה מִתְגַּבְּרִים וְנַעֲשִׂים כִּמְלֹא פִּי פַּךְ קָטָן: שַׁעַר נִיקָנוֹר. מְפֹרָשׁ בְּיוֹמָא:
"As águas manarão" — como está escrito em Yechezkel, "e eis águas manando do lado direito" — sendo esse o sul, chamado de "direita". E Yechezkel viu em profecia que as águas saíam do Santo dos Santos finas como chifres de gafanhoto, e ao chegarem a esse portão se intensificavam até se tornarem como a boca de um jarro pequeno.
"Portão de Nicanor" — explicado em Massechet Yomá, associado ao milagre das portas de bronze trazidas do Egito por Nicanor, que resistiram ao mar e brilharam como ouro.
Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.