Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ה׳ · Mishná 6 de 6

As duas câmaras: a dos discretos e a dos utensílios

שְׁתֵּי לְשָׁכוֹת הָיוּ בַּמִּקְדָּשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o Perek Hei descrevendo duas câmaras do Templo dedicadas à caridade discreta e ao recolhimento de utensílios doados — a câmara dos discretos, onde os temerosos do pecado davam e os pobres de boa família recebiam em segredo, e a câmara dos utensílios, cujo excedente vendido revertia para o reparo do Templo.

Duas câmaras havia no Templo: uma, a câmara dos discretos; e outra, a câmara dos utensílios.Além das câmaras já descritas nos capítulos anteriores, o Templo mantinha duas outras dedicadas a fins específicos: uma para doações anônimas de caridade, e outra para o recolhimento de objetos doados por particulares.

Na câmara dos discretos, os temerosos do pecado depositavam nela discretamente, e os pobres de boa família se sustentavam dela discretamente.Pessoas que temiam transgredir depositavam ali dinheiro em sigilo, sem que ninguém soubesse quanto doavam; e pessoas de família outrora abastada, agora empobrecidas e envergonhadas de pedir esmola publicamente, retiravam dali seu sustento também em sigilo, sem que ninguém soubesse quanto recebiam — preservando a dignidade de ambos os lados.

Na câmara dos utensílios, todo aquele que doava um utensílio, jogava-o nela.Quem quisesse doar algum objeto de valor ao Templo — sem necessariamente destiná-lo a um uso específico — simplesmente o depositava nessa câmara, sem burocracia adicional.

E a cada trinta dias os tesoureiros a abriam; e todo utensílio em que encontravam necessidade para o reparo do Templo, deixavam-no; e o restante era vendido, e seu valor caía para a câmara do reparo do Templo.Mensalmente, os tesoureiros inspecionavam o conteúdo acumulado: os objetos úteis para consertos ou manutenção da estrutura do Templo eram reservados para esse fim; todo o restante era vendido, e o dinheiro obtido se somava ao fundo geral destinado ao reparo do edifício.

שְׁתֵּי לְשָׁכוֹת הָיוּ בַּמִּקְדָּשׁ, אַחַת לִשְׁכַּת חֲשָׁאִים, וְאַחַת לִשְׁכַּת הַכֵּלִים, לִשְׁכַּת חֲשָׁאִים יִרְאֵי חֵטְא נוֹתְנִים לְתוֹכָהּ בַּחֲשַׁאי, וַעֲנִיִּים בְּנֵי טוֹבִים מִתְפַּרְנְסִים מִתוֹכָהּ בַּחֲשַׁאי. לִשְׁכַּת הַכֵּלִים, כָּל מִי שֶׁהוּא מִתְנַדֵּב כֶּלִי, זוֹרְקוֹ לְתוֹכָהּ. וְאַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם, גִּזְבָּרִין פּוֹתְחִין אוֹתָהּ. וְכָל כְּלִי שֶׁמּוֹצְאִין בּוֹ צֹרֶךְ לְבֶדֶק הַבַּיִת, מַנִּיחִין אוֹתוֹ. וְהַשְּׁאָר נִמְכָּרִין בִּדְמֵיהֶן וְנוֹפְלִין לְלִשְׁכַּת בֶּדֶק הַבַּיִת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Mishlei 21:14
מַתָּן בַּסֵּתֶר יִכְפֶּה־אָף וְשֹׁחַד בַּחֵק חֵמָה עַזָּה׃
O presente dado em segredo aplaca a ira, e o suborno oculto no seio, o furor veemente.

O princípio de que a doação dada "בַּסֵּתֶר" — em segredo — tem um valor moral próprio, distinto da caridade pública, é a raiz conceitual da câmara dos discretos: tanto quem dá quanto quem recebe permanecem no anonimato, preservando a dignidade dos pobres de boa família e a pureza de intenção dos doadores temerosos do pecado. É a mesma lógica, aplicada à estrutura física do Templo, que mais tarde se tornaria o modelo clássico da tzedaká anônima na tradição judaica. A câmara dos utensílios, por sua vez, remete ao conceito de "בֶּדֶק הַבַּיִת" — o reparo estrutural do Templo —, expressão que aparece já em Melachim Bet 12:6, ao descrever o financiamento contínuo da manutenção do primeiro Templo pelos próprios sacerdotes.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura · Shekalim 5:6
לִשְׁכַּת חֲשָׁאִים — עַל שֵׁם שֶׁהַנּוֹתְנִים בְּתוֹכָהּ מָעוֹת נוֹתְנִים בְּסֵתֶר, וְהַמִּתְפַּרְנְסִים מִמֶּנָּה נוֹטְלִים בְּסֵתֶר:

"Câmara dos discretos" — assim chamada porque os que depositam dinheiro nela o depositam em segredo, e os que dela se sustentam retiram em segredo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 5:6
שְׁתֵּי לְשָׁכוֹת הָיוּ כוּ': חֲשָׁאִי הוּא הַסּוֹד וְהַהֶסְתֵּר, וְכָל הָעִנְיָן מְבֹאָר, אֵינוֹ צָרִיךְ פֵּרוּשׁ אַחֵר:

"Duas câmaras havia etc.": "chashai" significa o segredo e a discrição, e todo o assunto está claro por si mesmo, não necessitando de outra explicação.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 5:6
לִשְׁכַּת חֲשָׁאִים. עַל שֵׁם שֶׁהַנּוֹתְנִים בְּתוֹכָהּ מָעוֹת נוֹתְנִים בְּסֵתֶר, וְהַמִּתְפַּרְנְסִים מִמֶּנָּה נוֹטְלִים בְּסֵתֶר: לְלִשְׁכַּת בֶּדֶק הַבַּיִת. לַלִּשְׁכָּה שֶׁנּוֹתְנִים בָּהּ כָּל קָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבָּיִת:

"Câmara dos discretos" — assim chamada porque os que depositam dinheiro nela o depositam em segredo, e os que dela se sustentam retiram em segredo.

"Para a câmara do reparo do Templo" — a câmara onde se depositava tudo o que era consagrado para o reparo estrutural do edifício.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.
סְלִיקָא לֵיהּ פֶּרֶק חֲמִישִׁי

Aqui termina o Perek Hei de Massechet Shekalim.