Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Kaf-Dálet · Mishná 5 (última do tratado)

Anular votos e medir por mitzvá; siyum de Massechet Shabat

מְפִירִין נְדָרִים בְּשַׁבָּת, וְנִשְׁאָלִין לִדְבָרִים שֶׁהֵן לְצֹרֶךְ הַשַּׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do tratado: anular votos e consultar sábios sobre eles quando necessários ao Shabat; tapar a claraboia; medir o retalho e o mikvê; o episódio histórico que ilustra a regra, e a conclusão de que se pode tapar, medir e amarrar em Shabat

Anulam-se votos em Shabato marido pode anular o voto de sua esposa, e o pai o de sua filha, mesmo em Shabat, pois esta anulação só pode ser feita no dia em que se toma conhecimento do voto — e consultam-se sábios sobre assuntos necessários ao Shabatisto é, quando alguém fez um voto que impede algo necessário ao próprio dia — por exemplo, jurou não comer neste dia — pode consultar um sábio ainda em Shabat para que este dissolva o voto. Tapa-se a claraboia — a janela pela qual entra a luz, fechando-a com uma tábua ou objeto semelhante — e medem-se o retalhode tecido, para saber se tem o tamanho mínimo que o torna suscetível de receber impureza ritual — e o mikvêpara saber se contém a medida mínima de água exigida. E houve um caso nos dias do pai de Rabi Tzadok e nos dias de Abba Shaul ben Botnit, em que taparam a claraboia com um jarro — de barro — e amarraram o vaso de barro com um juncoflexível — para saber se havia na cuba uma abertura de um palmo ou nãomedindo se a fresta entre dois recintos, coberta por uma cuba, tinha a largura suficiente para transmitir impureza de um lado a outro. E de suas palavras aprendemos que se tapa, se mede e se amarra em Shabat — desde que estas ações sejam feitas para fins de mitzvá, como neste caso de determinar leis de pureza ritual.

מְפִירִין נְדָרִים בְּשַׁבָּת, וְנִשְׁאָלִין לִדְבָרִים שֶׁהֵן לְצֹרֶךְ הַשַּׁבָּת. פּוֹקְקִין אֶת הַמָּאוֹר, וּמוֹדְדִין אֶת הַמַּטְלִית וְאֶת הַמִּקְוֶה. וּמַעֲשֶׂה בִימֵי אָבִיו שֶׁל רַבִּי צָדוֹק וּבִימֵי אַבָּא שָׁאוּל בֶּן בָּטְנִית, שֶׁפָּקְקוּ אֶת הַמָּאוֹר בְּטָפִיחַ, וְקָשְׁרוּ אֶת הַמְּקֵדָה בְגֶמִי, לֵידַע אִם יֵשׁ בַּגִּיגִית פּוֹתֵחַ טֶפַח אִם לָאו. וּמִדִּבְרֵיהֶן לָמַדְנוּ, שֶׁפּוֹקְקִין וּמוֹדְדִין וְקוֹשְׁרִין בְּשַׁבָּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 20:8-11
זָכוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ׃ שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וּבְהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ׃ כִּי שֵׁשֶׁת יָמִים עָשָׂה ה׳ אֶת הַשָּׁמַיִם וְאֶת הָאָרֶץ אֶת הַיָּם וְאֶת כָּל אֲשֶׁר בָּם וַיָּנַח בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עַל כֵּן בֵּרַךְ ה׳ אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת וַיְקַדְּשֵׁהוּ׃
Lembra-te do dia de Shabat, para santificá-lo. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é Shabat para Hashem teu Elohim; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, teu servo, tua serva, e nem sequer teu animal, nem teu estrangeiro que está dentro de tuas portas. Pois em seis dias Hashem fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e descansou no sétimo dia; por isso Hashem abençoou o dia de Shabat e o santificou.

Amarrar e medir por mitzvá: uma exceção dentro dos limites do próprio Shabat. A proibição bíblica de "não farás nenhum trabalho" inclui, segundo a tradição oral, tanto o ato de amarrar um nó permanente (koshér) quanto o de medir com fins comerciais — ambos derivados das atividades do Mishkan. Esta mishná final ensina que tais proibições, sendo de origem rabínica quando aplicadas a nós temporários e medições sem fins de lucro, cedem diante da necessidade de cumprir uma mitzvá — como medir para determinar leis de pureza ritual, ou anular um voto que poderia, de outro modo, impedir o pleno gozo do próprio Shabat (Rambam, Hilchot Shabat 10:6).

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica o princípio central desta mishná — o nó não permanente por mitzvá — no capítulo dedicado às leis de amarrar e desamarrar em Shabat.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 10:6
מֻתָּר לִקְשֹׁר קֶשֶׁר שֶׁאֵינוֹ שֶׁל קַיָּמָא לִדְבַר מִצְוָה. כְּגוֹן שֶׁיִּקְשֹׁר לִמְדֹּד שִׁעוּר מִשִּׁעוּרֵי הַתּוֹרָה. נִימַת כִּנּוֹר שֶׁנִּפְסַק קוֹשְׁרִין אוֹתָהּ בַּמִּקְדָּשׁ אֲבָל לֹא בַּמְּדִינָה. וְלֹא יִקְשֹׁר נִימָא לְכַתְּחִלָּה אֲפִלּוּ בַּמִּקְדָּשׁ:
É permitido amarrar um nó que não é permanente para fins de mitzvá — como amarrar para medir uma das medidas da Torá. A corda de um instrumento musical que se rompeu, amarra-se no Templo, mas não fora dele; e não se deve amarrar uma corda originalmente com este propósito, mesmo no Templo.

O nó de mitzvá como categoria própria dentro das leles de kosher. O Rambam estabelece aqui o princípio geral que a mishná aplica ao caso concreto de medir o mikvê e o retalho: um nó feito sem intenção de permanência, e exclusivamente a serviço de uma mitzvá, escapa da proibição rabínica de amarrar em Shabat — ainda que a proibição bíblica original se refira apenas a nós permanentes e profissionais. A analogia com a corda do instrumento musical no Templo mostra que este princípio já era aplicado a outras áreas da vida religiosa, e a mishná o estende, no episódio de Abba Shaul ben Botnit, ao domínio da pureza ritual doméstica (Hilchot Shabat 10:6).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Encerramento de Massechet Shabat: os comentadores explicam o contexto histórico do episódio da claraboia e da cuba, e o princípio geral que a mishná final extrai dele.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 24:5 (última do tratado)
מפירין נדרים בשבת ונשאלין לנדרים כו': ההפרה שיפר הבעל או האב כאשר יתבאר במסכת נדרים ושאלה הוא שיתחרט וישאל לחכם ויתיר לו נדרו וההפרה מותרת בין לצורך שבת בין שלא לצורך שבת אבל שאלה אינה מותרת אלא לצורך שבת. ופוקקין את המאור הוא שיסתמו את החלון שממנו תכנס האורה בכלי מן הכלים אבל לסתמו בבגד תלוי כמו מסך כבר נתפרש דינו בפרק י"ז. ומטלית חתיכה של בגד מודדין אותה לידע אם יש בה שלש אצבעות על שלש אצבעות ואם יש בה יותר היא מקבלת טומאה כאשר יתבארו אלו העקרים במסכת כלים ואם היא פחותה מזה השיעור אינה מקבלת טומאה. וכמו כן ימדדו המקוה לידע אם יש שם שיעור מקוה והיא אמה על אמה ברום שלש אמות אם לא. וטפיח קיתון. מקידה לוח קטן. גמי גומא. גיגית קערה. ועלת זה המעשה כי כשיש מת בבית אחד ויש בין אותו בית ובית אחר חלון אם יש באותו חלון טפח על טפח או יותר נטמא הבית השני כי העיקר אצלנו טפח על טפח מביא את הטומאה כאשר נבאר במקומו במסכת אהלות ובאותו זמן היה בין שני בתים חלון ובאותו חלון קערה של זכוכית כמו שמשית ונשבר באותו השמשית שבר וקשרו לוח אחד בעץ וקשרו אותו הלוח בגמי להניח אותו הלוח על מקום השבר הפתוח בשמשית ואח"כ מדדו הלוח אם היה בו טפח על טפח יביא את הטומאה ואם הוא פחות אינו מטמא הבית האחר בטומאת האחד ומה שהתרנו מדידה בשבת בתנאי שתהיה מדידה של מצוה וכמו כן קשירה של מצוה ותנאי השני בקשירה שלא תהיה קשירה של קיימא אלא בגמי ודומה לו כאשר המשיל: סליק פירוש המשניות להרמב"ם ממסכת שבת

"Anulam-se votos em Shabat, e consultam-se sábios sobre votos etc." — a anulação que anula o marido ou o pai é como se explicará no tratado de Nedarim; e a consulta é quando a pessoa se arrepende e consulta um sábio, que dissolve seu voto. E a anulação é permitida tanto para necessidade de Shabat quanto sem necessidade de Shabat, mas a consulta só é permitida para necessidade de Shabat.

"E tapa-se a claraboia" — é que se vede a janela pela qual entra a luz com um utensílio dentre os utensílios; mas vedá-la com uma cortina pendurada, como uma divisória, já se explicou sua lei no capítulo dezessete. E "retalho" é um pedaço de tecido; medem-no para saber se tem três dedos por três dedos, pois se tiver mais, é suscetível de receber impureza, como se explicará esses princípios no tratado de Kelim, e se for menor que esta medida, não é suscetível de impureza. E do mesmo modo medem o mikvê para saber se há ali a medida de um mikvê, que é um cúbito por um cúbito, com altura de três cúbitos, ou não.

E "tafiach" é um jarro. "Mekedá" é uma tábua pequena. "Gemi" é junco. "Gigit" é uma cuba.

E a causa deste episódio é que, quando há um morto numa casa, e entre essa casa e outra há uma janela, se nessa janela há uma abertura de um palmo por um palmo ou mais, a segunda casa se torna impura, pois o princípio entre nós é que um palmo por um palmo transmite impureza, como explicaremos em seu lugar no tratado de Ohalot. E naquele tempo havia, entre duas casas, uma janela, e nessa janela uma cuba de vidro como uma vidraça, e naquela vidraça se abriu uma rachadura, e amarraram uma tábua com madeira, e amarraram essa tábua com junco, para colocar essa tábua sobre o lugar da rachadura aberta na vidraça; e depois mediram a tábua — se havia nela um palmo por um palmo, traria a impureza, e se fosse menos, não tornaria impura a outra casa pela impureza da primeira.

E o que permitimos de medir em Shabat é sob a condição de que a medição seja para fins de mitzvá, e do mesmo modo a amarração para fins de mitzvá; e a segunda condição, na amarração, é que não seja uma amarração permanente, mas apenas com junco, e semelhante ao que foi dado como exemplo.

Aqui se conclui o comentário do Rambam às mishnayot da Massechet Shabat.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 24:5 (última do tratado)
מְפִירִין. בַּעַל לְאִשְׁתּוֹ וְאָב לְבִתּוֹ: וְנִשְׁאָלִין. לֶחָכָם: שֶׁהֵן לְצֹרֶךְ הַשַּׁבָּת. כְּגוֹן שֶׁנָּדַר שֶׁלֹּא יֹאכַל הַיּוֹם. וּפוֹקְקִין אֶת הַמָּאוֹר. הַחַלּוֹן שֶׁמִּמֶּנּוּ הָאוֹרָה נִכְנֶסֶת, סוֹתְמִין אוֹתוֹ בְּלוּחַ אוֹ בִּשְׁאָר כָּל דָּבָר שֶׁרְגִילִים לִסְתֹּם בּוֹ: וּמוֹדְדִין אֶת הַמַּטְלִית. כְּגוֹן אִם הָיְתָה טְמֵאָה וְנָגְעָה בְּטָהֳרוֹת, מוֹדְדִין אוֹתָהּ אִם יֵשׁ בָּהּ שָׁלֹשׁ אֶצְבָּעוֹת עַל שָׁלֹשׁ אֶצְבָּעוֹת לֵידַע אִם נִטְמְאוּ הַטָּהֳרוֹת אִם לָאו: וְאֶת הַמִּקְוֶה. לֵידַע אִם יֵשׁ בָּהּ אַמָּה עַל אַמָּה בְּרוּם שָׁלֹשׁ אַמּוֹת. שֶׁאֵלּוּ מְדִידוֹת שֶׁל מִצְוָה הֵן, לְפִיכָךְ מֻתָּר לִמְדֹּד אוֹתָן בְּשַׁבָּת: לֵידַע אִם יֵשׁ בַּגִּיגִית פּוֹתֵחַ טֶפַח. כְּמִין שְׁבִיל קָטָן הָיָה בֵּין שְׁנֵי בָּתִּים, וְהָיוּ חַלּוֹנוֹת פְּתוּחוֹת מִן הַבָּתִּים אֶל הַשְּׁבִיל, וְהָיוּ חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא יָמוּת מֵת בְּבַיִת אֶחָד וּתְהֵא הַטֻּמְאָה בָּאָה מִן הַחַלּוֹן אֶל הַשְּׁבִיל וּמִן הַשְּׁבִיל אֶל הַבַּיִת הָאַחֵר: ומדבריהם למדנו שפוקקין וקושרין ומודדין בשבת. וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יְהֵא קֶשֶׁר שֶׁל קַיָּמָא, וְהַמְּדִידָה תִּהְיֶה שֶׁל מִצְוָה, אוֹ לְהִתְלַמֵּד עַל דְּבַר הוֹרָאָה:

"Anulam-se" — o marido para sua esposa, e o pai para sua filha.

"E consultam-se" — a um sábio.

"Que são necessários ao Shabat" — como quem jurou não comer neste dia.

"E tapa-se a claraboia" — a janela pela qual entra a luz, vedam-na com uma tábua ou qualquer outra coisa com a qual se costuma vedar.

"E medem-se o retalho" — como se estava impuro e tocou em objetos puros, medem-no para saber se tem três dedos por três dedos, para saber se os objetos puros se tornaram impuros ou não.

"E o mikvê" — para saber se há nele um cúbito por um cúbito, com altura de três cúbitos, pois estas são medições de mitzvá, e por isso é permitido medi-las em Shabat.

"Para saber se havia na cuba uma abertura de um palmo" — havia uma espécie de trilha pequena entre duas casas, com janelas abertas das casas para a trilha, e temiam que, morrendo alguém numa casa, a impureza passasse da janela para a trilha e da trilha para a outra casa.

"E de suas palavras aprendemos que se tapa, se amarra e se mede em Shabat" — contanto que não seja um nó permanente, e que a medição seja de mitzvá, ou para se instruir sobre uma questão de decisão halachica.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 157a (último daf do tratado)
מתני' מפירין - בעל לאשתו: ונשאלין - לחכם: שהן לצורך השבת - כגון שנדר שלא לאכול [היום]: ופוקקין את המאור - כרבנן דאמרי (לעיל שבת דף קכה:) פוקקין פקק החלון: ומודדין את המקוה - במדה שיהא שם עמוק שלש אמות מים ורוחב אמה על אמה: ואת המטלית - שתהא שלש על שלש אצבעות כגון אם היתה טמאה ונגעה בטהרות: בטפיח - פך של חרס וחבירו בפי"ז (דף קכה:) זמורה שהיא קשורה בטפיח ממלאין בה בשבת: מקידה - כלי חרס: לידע אם יש בגיגית פותח טפח - בגמרא מפרש לה: ומודדין - להתלמד על דבר הוראה: וקושרין - קשר שאינו של קיימא אפילו לכתחילה:

"Anulam-se" — o marido para sua esposa.

"E consultam-se" — a um sábio.

"Que são necessários ao Shabat" — como quem jurou não comer naquele dia.

"E tapa-se a claraboia" — segundo os Sábios, que dizem (acima, Shabat 125b) que se tapa o tampão da janela.

"E medem-se o mikvê" — na medida de que haja ali água com profundidade de três cúbitos e largura de um cúbito por um cúbito.

"E o retalho" — que tenha três dedos por três dedos, como quando estava impuro e tocou em objetos puros.

"No jarro" — um pote de barro, e seu equivalente no capítulo dezessete (125b): "um ramo amarrado a um jarro, enche-se com ele em Shabat".

"Vaso de barro" — utensílio de barro.

"Para saber se havia na cuba uma abertura de um palmo" — explica-se na Guemará.

"E medem-se" — para se instruir sobre uma questão de decisão halachica.

"E amarram-se" — um nó que não é permanente, mesmo de início.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּשַׁבָּת
Aqui se conclui Massechet Shabat — o primeiro tratado de Seder Moed, e um dos maiores de toda a Mishná. O Perek Kaf-Dálet, breve e final, com apenas cinco mishnayot, dedicou-se a um conjunto de leis práticas do cotidiano: o viajante surpreendido pelo anoitecer na estrada e o descarregamento cuidadoso de sua carga sobre o jumento (24:1); os limites entre desatar e picar a forragem do animal, distinguindo o que se assemelha a moer do que não se assemelha (24:2); os graus permitidos de auxílio na alimentação forçada de camelos, bezerros, galinhas e aves domésticas, e a diferença entre aves que dependem do dono e as que se sustentam sozinhas (24:3); o contraponto de cortar frutos e carne, permitido por não se assemelhar a moer, com a disputa de Rabi Yehudá sobre a carcaça surgida no próprio Shabat (24:4); e, por fim, a anulação de votos, a consulta a sábios, e o episódio histórico de Abba Shaul ben Botnit, que ensina o princípio de tapar, medir e amarrar por mitzvá — encerrando o tratado inteiro com a lição de que mesmo as proibições rabínicas cedem diante da necessidade genuína de cumprir um preceito (24:5).

Massechet Shabat percorreu, ao longo de seus vinte e quatro capítulos e cento e trinta e nove mishnayot, o espectro completo das leis do sétimo dia: a proibição central de transferir objetos entre domínios e os decretos preparatórios da véspera (Perek Alef-Bet); as leis de manter e reaquecer comida sem acender fogo (Perek Guimel-Dálet); os itens com que se pode sair vestido ou adornado (Perek Hei-Vav); a lista fundamental das trinta e nove categorias de trabalho proibido e suas medidas mínimas (Perek Zayin-Yud); as melachot de tecer, caçar, construir e lavrar (Perek Yud-Alef a Yud-Guimel); as leis de amarrar, salvar bens de um incêndio, e o vasto tema de muktzê — o que se pode e não se pode mover (Perek Yud-Dalet a Yud-Zayin); o parto de animais e mulheres, e o brit milá quando cai em Shabat, com sua Guemará completa e detalhada (Perek Yud-Chet a Yud-Tet); coar, separar e preparar alimentos, mover objetos muktzê indiretamente, e os limites da medicina em Shabat (Perek Kaf a Kaf-Bet); e, por fim, os preparativos finais antes do Shabat, o luto, e as leis práticas de viagem e alimentação de animais que encerram o tratado (Perek Kaf-Guimel a Kaf-Dálet). Diferentemente da maior parte de Seder Zeraim, Massechet Shabat possui uma Guemará completa e extensa no Talmud Bavli, o que permitiu que o perush de cada mishná incluísse, além do Rambam (Perush HaMishná e Mishné Torá) e do Bartenura, também Rashi, o comentador clássico da Guemará — enriquecendo cada página com três vozes complementares da tradição.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed, que continuam o tema dos tempos sagrados: Eruvin, sobre os limites de domínio em Shabat; Pessachim, sobre a Páscoa; e os demais tratados dedicados às festividades do calendário judaico.