Cortam-se as abóboras — já colhidas, ainda que originalmente destinadas ao consumo humano e não animal — diante do animal — partindo-as em pedaços para facilitar que o animal as coma — e a carcaça — de um animal que morreu sem abate ritual — diante dos cães — cortando-a em pedaços, pois, ao contrário de picar finamente o feno e a alfarroba na mishná anterior, cortar frutos e carne em pedaços maiores não se assemelha ao trabalho proibido de moer, já que este só se aplica a grãos e materiais secos, não a frutos e carnes. Rabi Yehudá diz: se a carcaça não estava pronta desde a véspera de Shabat — isto é, se o animal ainda estava vivo ao entardecer da sexta-feira e só morreu durante o próprio Shabat — é proibida — cortá-la para os cães — por não estar entre o que foi preparado — já que, no momento em que o Shabat começou, esta carcaça ainda não existia como tal e portanto não podia ter sido mentalmente destinada ao consumo dos cães antes do início do dia.
Muktzê e a exigência de preparo prévio. A disputa de Rabi Yehudá nesta mishná se apoia no princípio de hachaná (preparo) — a ideia de que só se pode usar em Shabat aquilo que já estava mentalmente destinado a um uso lícito desde antes do início do dia. Como a carcaça de um animal só se torna disponível para consumo dos cães no momento exato de sua morte, se essa morte ocorreu já dentro do próprio Shabat, ela nunca foi "preparada" para esse uso durante a semana, e por isso Rabi Yehudá a considera muktzê — ainda que os Sábios, cuja opinião prevalece, não exijam este grau de preparo específico para alimentos de animais (Rambam, Hilchot Shabat 21:18).
O Rambam trata esta mishná no mesmo parágrafo da mishná anterior, como o contraste que define os limites exatos da categoria de tochen (moer).
Frutos e carnes não se "moem": o critério físico da categoria. O Rambam explica o fundamento técnico da distinção: a proibição de tochen pressupõe reduzir uma substância seca e granulada — como grãos, feno ou especiarias — a partículas finas e uniformes. Frutos como a abóbora, por sua consistência úmida e fibrosa, e a carne, por sua textura muscular, não se prestam a esse processo mesmo quando cortados; o resultado é sempre uma peça, ainda que pequena, e não um pó ou farinha. Por isso o corte de ambos permanece fora da categoria de moer, independentemente do tamanho dos pedaços — o Rambam nota apenas que o costume não é cortá-los em pedaços excessivamente pequenos, o que constituiria esforço desnecessário (Hilchot Shabat 21:18).
O Bartenura e Rashi detalham o argumento de Rabi Yehudá sobre a carcaça que surgiu apenas no Shabat, e por que a halachá não segue sua opinião.
"Cortam-se as abóboras diante do animal etc." — e a halachá não segue Rabi Yehudá.
"Cortam-se as abóboras" — já colhidas, diante do animal, ainda que originalmente elas não se destinem ao alimento do animal, mas ao do homem.
"E a carcaça" — que se tornou carcaça neste mesmo dia, ainda que ao crepúsculo de sexta-feira ela estivesse destinada ao consumo humano, e não ao do animal por ainda estar viva.
"Rabi Yehudá diz: se a carcaça não estava pronta desde a véspera de Shabat, é proibida" — pois tudo que é próprio para o homem, ele não o destina mentalmente ao animal enquanto ainda está vivo; e mesmo se o animal estava doente desde a véspera de Shabat, o dono ainda supõe que se curará. E a halachá não segue Rabi Yehudá.
"As abóboras" — já colhidas, ainda que originalmente elas não se destinem ao alimento do animal, mas ao do homem.
"E a carcaça" — que se tornou carcaça neste mesmo dia, e ao crepúsculo de sexta-feira ela ainda estava destinada ao homem por estar viva; e mesmo assim, cortam-se seus pedaços para os cães, segundo os Sábios.
Por que a halachá segue os Sábios, e não Rabi Yehudá. A disputa entre Rabi Yehudá e os Sábios sobre a carcaça surgida no próprio Shabat ilustra um debate mais amplo sobre até que ponto a exigência de hachaná (preparo mental prévio) se aplica a situações que mudam de status durante o próprio dia sagrado. Os Sábios, cuja opinião a halachá segue, entendem que a permissão de alimentar os cães não depende de uma designação específica e consciente antes do Shabat — bastando que a carcaça, uma vez surgida, seja um alimento objetivamente próprio para eles, sem que o dono precisasse tê-la previsto. Este mesmo raciocínio flexível sobre muktzê prepara o terreno para a última mishná do capítulo, que tratará de medições e ações permitidas por constituírem mitsvá, ainda quando não planejadas de antemão.