Quem tinha duas crianças, uma para circuncidar depois do Shabat e outra para circuncidar em Shabat — ou seja, uma criança cujo oitavo dia é apenas no domingo, e outra cujo oitavo dia é exatamente neste Shabat — e esqueceu e circuncidou a de depois do Shabat em Shabat — por engano, trocou as crianças e circuncidou primeiro a que ainda não havia chegado ao seu oitavo dia — é responsável — segundo todos os sábios, pois, embora tenha errado por causa de um preceito, não realizou preceito algum com esse ato: circuncidar antes do tempo devido não cumpre o mandamento, e causou um ferimento desnecessário — uma para circuncidar na véspera de Shabat e outra para circuncidar em Shabat — ou seja, uma criança cujo oitavo dia já passou, na sexta-feira, e outra cujo oitavo dia é este Shabat — e esqueceu e circuncidou a da véspera de Shabat em Shabat — por engano, circuncidou primeiro a criança cujo tempo devido já havia passado, deixando de circuncidar naquele momento a que realmente deveria ser circuncidada neste Shabat — Rabi Eliezer obriga oferenda pelo pecado — pois sustenta que, mesmo tendo errado por causa de um preceito, e mesmo tendo realizado um preceito ao circuncidar a segunda criança (que também precisava ser circuncidada, ainda que fora do tempo devido), como esse preceito não tem o poder de afastar o Shabat, o autor é responsável, já que efetivamente violou o Shabat sem necessidade — e Rabi Yehoshua isenta — pois sustenta que, tendo errado por causa de um preceito — pensando estar autorizado, pela permissão concedida à outra criança, a agir da mesma forma com esta — e tendo de fato realizado um preceito, ainda que ele não afaste o Shabat, o autor fica isento; e a halachá segue Rabi Yehoshua.
Esta mishná trata de um caso raro na Mishná: um debate explícito entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a responsabilidade de quem viola o Shabat por engano, tendo agido de boa-fé pensando estar cumprindo um preceito — o princípio conhecido nas fontes talmúdicas como "taah bidvar mitzvá" (errou por causa de um preceito).
A circuncisão fora de seu tempo não afasta o Shabat. O princípio central que esta mishná pressupõe — já formulado por Rabi Akiva na abertura do capítulo (mishná 1) — é que apenas a circuncisão realizada exatamente no oitavo dia, conforme fixado por Vayicrá 12:3, tem o poder de afastar o Shabat. Uma circuncisão realizada fora desse tempo, ainda que continue sendo um preceito em si (pois toda criança incircuncisa deve ser circuncidada assim que possível), já não tem essa prioridade sobre o Shabat, e por isso quem a realiza em Shabat por engano pode incorrer em responsabilidade — a diferença entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua está exatamente em até que ponto a boa intenção do erro atenua essa responsabilidade.
Como o Rambam fixa, em Hilchot Milá, o princípio de que a halachá segue Rabi Yehoshua — isentando quem, por erro de boa-fé, circuncidou fora do tempo devido em Shabat.
Os comentadores explicam a lógica de cada um dos dois casos da mishná, e por que a halachá acompanha Rabi Yehoshua na isenção de quem errou de boa-fé.
"Quem tinha duas crianças, uma para circuncidar depois do Shabat..." — o princípio conosco é que a circuncisão fora de seu tempo devido não afasta o Shabat, e por isso Rabi Eliezer o obriga, pois ele causa um ferimento e não é uma ação destrutiva que o isentaria; e assim dizem a respeito da circuncisão: é uma ação construtiva.
E o que Rabi Yehoshua o isenta é porque ele circuncida a criança que era obrigado a circuncidar em Shabat com autorização, e diz: já que o Shabat foi dado para ser afastado por esta pessoa, e ele tinha um dos filhos para circuncidar, não se torna responsável pelo outro... E a halachá segue Rabi Yehoshua.
"Quem tinha duas crianças etc." — os amoraítas discordam na Guemará sobre a versão desta mishná; a versão que meus mestres consideraram principal é a seguinte... E assim se explica: esqueceu e circuncidou a de depois do Shabat em Shabat — é responsável segundo todos, pois errou por causa de um preceito e não realizou preceito algum ao antecipar e circuncidar a de depois do Shabat em Shabat, e nisso até Rabi Yehoshua concorda.
"Uma para circuncidar em Shabat e outra na véspera de Shabat, e esqueceu e circuncidou a da véspera de Shabat em Shabat, Rabi Eliezer obriga oferenda pelo pecado" — pois a circuncisão fora de seu tempo devido não afasta o Shabat... Rabi Eliezer entende que quem errou por causa de um preceito, e realizou um preceito que não afasta o Shabat, é responsável.
"E Rabi Yehoshua isenta" — pois ele entende que quem errou por causa de um preceito, e realizou um preceito que não afasta o Shabat, fica isento, já que pensava estar agindo com a autorização do tribunal. E a halachá segue Rabi Yehoshua.
Na mishná: "E esqueceu e circuncidou a de depois do Shabat em Shabat — é responsável" — pois errou por causa de um preceito e não realizou preceito algum, e causou-lhe um ferimento desnecessário; e nisso até Rabi Yehoshua concorda.
"Uma para circuncidar em Shabat e outra na véspera de Shabat, e esqueceu e circuncidou a da véspera de Shabat em Shabat, Rabi Eliezer obriga oferenda pelo pecado" — pois a circuncisão fora de seu tempo devido não afasta o Shabat; e ainda que tenha errado por causa de um preceito, estando ocupado com a criança do Shabat e por isso errando nesta, e ainda que também aqui tenha realizado um preceito — pois é próprio circuncidá-la, apenas que isso não afasta o Shabat —, entende Rabi Eliezer que quem erra por causa de um preceito e realiza um preceito que traz obrigação de oferenda pelo pecado, é responsável. E Rabi Yehoshua isenta, pois entende que quem erra por causa de um preceito e realiza um preceito, fica isento.