Se um não-judeu vem apagar — o fogo da casa de um judeu, por iniciativa própria, no Shabat — não se lhe diz apague — pois seria dizer a um não-judeu para fazer, em nome do judeu, um trabalho proibido no Shabat, o que é vedado pelos sábios — nem não apague — pois isso também não é necessário, já que o não-judeu não está sob responsabilidade halachica de descanso — pois seu descanso — o repouso sabático do não-judeu — não é responsabilidade dele — do judeu, que não está obrigado a impedir um não-judeu de trabalhar no Shabat em benefício próprio, já que este não é seu servo nem seu dependente. Mas, se é uma criança que vem apagar — um menor judeu, ainda não obrigado às mitsvot, que por conta própria deseja apagar o fogo — não se permite a ela — deve-se impedi-la de apagar — pois seu descanso — o repouso sabático da criança — é responsabilidade dele — dos adultos ao seu redor, que têm o dever educacional de impedir que menores sob sua supervisão violem o Shabat, ainda que a criança em si não seja halachicamente responsável por seus atos.
Esta breve mishná contrasta duas figuras: o não-judeu, sobre quem o judeu não tem responsabilidade de fazer descansar, e a criança judia, cujo descanso sabático é responsabilidade educacional dos adultos ao seu redor — ainda que ela mesma não esteja obrigada em mitsvot.
"Nem teu filho... nem teu estrangeiro em tuas portas". O versículo estende a obrigação de fazer descansar no Shabat aos filhos e aos servos sob autoridade do lar judeu, mas não menciona o não-judeu independente que não é servo. Daí a Guemará (Shabat 121a) deriva que o não-judeu que age por sua própria vontade, sem ser instruído, não está sob a responsabilidade do judeu quanto ao seu descanso — mas pedir-lhe explicitamente que trabalhe em benefício do judeu (amirá le-shevut, "dizer a um não-judeu para fazer o que é proibido ao judeu por decreto rabínico") é, em si, proibido pelos sábios. Por isso a mishná fixa a fórmula precisa: não se diz nem "apague" nem "não apague" — um silêncio halachicamente calculado. Já a criança judia, mesmo isenta de punição por seus próprios atos, está sob a tutela dos adultos, que respondem por seu treinamento no cumprimento do Shabat.
Como o Rambam codifica a lei de amirá le-nochri (instrução a não-judeu) em Hilchot Shabat, capítulo seis.
Os comentadores explicam por que não se diz nada ao não-judeu, e por que a criança é tratada de modo distinto.
"Se um não-judeu vem apagar, não se lhe diz apague nem não apague etc." — isto é claro.
"Não se lhe diz apague" — pois dizer a um não-judeu para fazer é uma proibição rabínica (shevut).
"E não apague" — não é necessário impedi-lo com a mão; antes, deixa-o e ele apaga, pois o descanso do não-judeu não é responsabilidade deles — já que o judeu não é advertido quanto ao descanso do não-judeu quando este não é seu servo.
"Mishná: não se lhe diz apague" — os sábios decretaram sobre dizer a um não-judeu por causa de shevut (proibição rabínica derivada).
"E não apague" — não é necessário impedi-lo com a mão; antes, deixa-o e ele apaga.
"Pois seu descanso" — do não-judeu — "não é responsabilidade deles" — pois o judeu não é advertido quanto ao descanso do não-judeu que não é seu servo.