Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Vav · Mishná 6 de 6 — encerrando o perek

O recolhimento dos ossos e a saudação de paz aos juízes

נִתְעַכֵּל הַבָּשָׂר, מְלַקְּטִין אֶת הָעֲצָמוֹת וְקוֹבְרִין אוֹתָן בִּמְקוֹמָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do perek fecha todo o procedimento com dois atos: o recolhimento definitivo dos ossos, quando a carne já se decompôs, para a sepultura em seu lugar próprio; e a visita dos parentes do executado aos juízes e testemunhas, reconhecendo publicamente a justiça do julgamento.

Quando a carne se decompôs, recolhem os ossos e os enterram em seu lugar. E os parentes vêm e perguntam pelo bem-estar dos juízes e pelo bem-estar das testemunhas, como que dizendo: "não guardamos nada contra vós em nosso coração, pois julgastes um julgamento verdadeiro."Depois de sepultado no cemitério reservado do tribunal, o corpo do executado permanecia ali até que a carne se decompusesse por completo. Somente então os ossos eram recolhidos e transferidos para seu lugar definitivo de sepultura — entendido, segundo os comentadores, como a sepultura ancestral da família, já que a restrição de não enterrá-lo junto a seus antepassados dizia respeito apenas ao corpo, não aos ossos já decompostos. Nesse momento, os parentes do falecido tomavam a iniciativa de procurar os próprios juízes que o haviam condenado e as testemunhas que haviam deposto contra ele, para lhes desejar paz — um gesto público e deliberado de reconciliação, que declarava não haver ressentimento algum contra eles, pois o julgamento que proferiram fora verdadeiro e justo.

נִתְעַכֵּל הַבָּשָׂר, מְלַקְּטִין אֶת הָעֲצָמוֹת וְקוֹבְרִין אוֹתָן בִּמְקוֹמָן. וְהַקְּרוֹבִים בָּאִים וְשׁוֹאֲלִין בִּשְׁלוֹם הַדַּיָּנִים וּבִשְׁלוֹם הָעֵדִים, כְּלוֹמַר שֶׁאֵין בְּלִבֵּנוּ עֲלֵיכֶם כְּלוּם, שֶׁדִּין אֱמֶת דַּנְתֶּם.
A mishná encerra o Perek Vav com uma distinção fina entre o luto formal — que os parentes do executado não observavam — e a aflição interior, que permanecia, pois esta última reside apenas no coração.

E não guardavam luto, mas se afligiam, pois a aflição está apenas no coração.Fecha-se o perek com uma distinção técnica entre dois estados emocionais reconhecidos pela halachá: o luto formal — com seus ritos externos e visíveis de pesar — não era observado pelos parentes do executado, de modo que sua desonra pública servisse, ela mesma, como parte da expiação de sua transgressão. Mas isso não significa ausência de sentimento: a aflição interior, o pesar contido apenas no coração, sem expressão ritual externa, continuava plenamente presente — pois, como a mishná mesma explica, esse tipo de aflição não depende de rito algum, residindo unicamente no íntimo de quem a sente.

וְלֹא הָיוּ מִתְאַבְּלִין, אֲבָל אוֹנְנִין, שֶׁאֵין אֲנִינוּת אֶלָּא בַלֵּב.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 6:6
נִתְעַכֵּל הַבָּשָׂר מְלַקְּטִין אֶת הָעֲצָמוֹת וְקוֹבְרִין כו׳: הַקְּרוֹבִים בָּאִים כְּשֶׁנִּגְמַר הַדִּין עָלָיו לֵיהָרֵג, וְאֵין רָאוּי לְהִתְאַבֵּל עַל הֲרוּגֵי בֵּית דִּין, לְפִי שֶׁאֵין עֲוֹנוֹתֵיהֶם מְכֻפָּרִים עַד שֶׁיִּתְעַכֵּל הַבָּשָׂר. וְהָאֲבֵלוּת אֵין חִיּוּבָהּ אֶלָּא כְּשֶׁסּוֹתְמִים הַקֶּבֶר, כְּמוֹ שֶׁאָמַרְנוּ, מִשֶּׁיִּסָּתֵם הַגּוֹלֵל, וּבְאוֹתָהּ שָׁעָה אֵינָן בְּנֵי אֲבֵלוּת, וְהוֹאִיל וְנִדְחוּ יִדָּחוּ.

Rambam esclarece que a visita dos parentes aos juízes e testemunhas ocorre logo após o próprio julgamento ser concluído com a sentença de morte, e explica por que os parentes de um executado pelo tribunal não observam o luto formal: os pecados do executado só se consideram plenamente expiados quando sua carne já se decompôs, e a obrigação de guardar luto, segundo a halachá, começa apenas no momento em que a sepultura é fechada — momento em que, no caso do executado, ele ainda não é considerado plenamente objeto de luto. E, uma vez que a obrigação de luto foi assim afastada naquele primeiro momento, ela permanece afastada — "uma vez que foi excluída, permanece excluída."

Bartenura · Sanhedrin 6:6
נִתְעַכֵּל הַבָּשָׂר. כְּבָר נִתְכַּפֵּר לוֹ בְמִיתָתוֹ וּבְבִזְיוֹנוֹ: מְלַקְּטִין אֶת הָעֲצָמוֹת. וְקוֹבְרִים אוֹתָן בְּקִבְרוֹת אֲבוֹתָן: וְלֹא הָיוּ מִתְאַבְּלִים. כְּדֵי שֶׁיְּהֵא בִזְיוֹנָן כַּפָּרָה לָהֶם. וְאִית דְּאָמְרֵי, לְפִי שֶׁהָאֲבֵלוּת חָלָה מִשֶּׁיִּסָּתֵם הַגּוֹלֵל, וּבְאוֹתָהּ שָׁעָה אֵין מִתְאַבְּלִים עֲלֵיהֶם, שֶׁלֹּא נִגְמְרָה כַפָּרָתָן עַד שֶׁיִּתְעַכֵּל הַבָּשָׂר, וְהוֹאִיל וְאִדְּחֵי הָאֲבֵלוּת אִדְּחֵי.

Bartenura confirma que, uma vez decomposta a carne, considera-se que o executado já obteve expiação plena por sua morte e pela desonra que sofreu — e que os ossos, nesse momento, são finalmente enterrados nas sepulturas ancestrais da família, já que a restrição de não sepultá-lo junto a seus antepassados vale apenas para o corpo, não para os ossos. Sobre a ausência de luto formal, traz duas explicações: a primeira, de que a própria desonra pública do executado já lhe serve de expiação, e por isso o luto — outra forma de honra — não se aplicaria a ele; a segunda, de que a obrigação de luto tecnicamente começa apenas quando a sepultura é fechada, e como naquele momento inicial a expiação do executado ainda não estava completa, a obrigação de luto foi excluída desde o início, e permanece excluída mesmo depois, quando os ossos são finalmente sepultados.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 46b, s.v. ולא היו מתאבלין
וְלֹא הָיוּ מִתְאַבְּלִין — עֲלֵיהֶן, כְּדֵי שֶׁתְּהֵא בִזְיוֹנָן כַּפָּרָה לָהֶן, אֶלָּא אוֹנְנִין בִּלְבַד, דְּאֵין זֶה כְּבוֹד לְהָרוּג, וְאֵין כַּפָּרָתוֹ נִמְנַעַת בְּכָךְ, שֶׁאֵין אֲנִינוּת אֶלָּא בַלֵּב בִּלְבַד.

Rashi confirma diretamente a explicação de que a ausência de luto formal serve para que a própria desonra do executado funcione como parte de sua expiação — pois observar luto pleno seria, paradoxalmente, uma forma de honra que não convém a quem foi morto pelo tribunal. E precisa que a aflição interior, a aninut, não depende de nenhum rito externo — não é impedida por essa ausência de luto formal, pois seu lugar é unicamente o coração de quem a sente.