Disse Rabi Meir: no momento em que o homem sofre, o que diz a Presença Divina, por assim dizer? "Leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço." Se assim o Onipresente se aflige pelo sangue dos ímpios que é derramado, tanto mais pelo sangue dos justos. — Rabi Meir lê a expressão bíblica "maldição de D-us" — dita a respeito do corpo pendurado — não como referindo-se a uma maldição contra o executado, mas como indicando que o próprio D-us, por assim dizer, sofre com essa cena. E ilustra esse sofrimento com uma expressão figurada de exaustão e dor física — "leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço" — como quem está fatigado além do suportável. Se esse sofrimento Divino acompanha até mesmo a morte justamente decretada de um ímpio culpado, argumenta Rabi Meir por inferência a fortiori, quanto mais intensa não seria essa aflição diante do derramamento do sangue de um justo.
E não somente isso, mas todo aquele que deixa seu morto pernoitar transgride um preceito negativo. Se o deixou pernoitar em sua honra, para trazer-lhe caixão e mortalhas, não transgride por isso. E não o enterravam nas sepulturas de seus pais; antes, dois cemitérios estavam preparados para o tribunal — um para os decapitados e os estrangulados, e outro para os apedrejados e os queimados. — A mishná estende agora a proibição de deixar o corpo sem sepultura durante a noite — originalmente dita a respeito do executado pendurado — a qualquer falecido: todo aquele que atrasa deliberadamente o enterro de seu morto até o dia seguinte transgride um preceito negativo da Torá. Uma exceção explícita é feita, porém, quando o atraso se dá em honra ao próprio morto — por exemplo, para providenciar um caixão digno ou as mortalhas adequadas; nesse caso, não há transgressão, pois o propósito do atraso serve à própria dignidade que a lei busca proteger. Por fim, a mishná fecha o capítulo com uma norma distinta, específica dos executados pelo tribunal: eles não eram enterrados junto aos seus antepassados, mas em um de dois cemitérios reservados exclusivamente para essa finalidade — um para os que foram mortos por decapitação ou estrangulamento, e outro, separado, para os que foram apedrejados ou queimados.
Rambam explica que "o que diz a Presença Divina" é uma expressão figurada, semelhante à forma como as pessoas falam quando querem consolar alguém que sofre, para dizer que não há prazer algum nesse sofrimento nem em provocá-lo. A frase corrente em dias de Rabi Meir — "leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço" — expressa, segundo Rambam, que a morte de todo transgressor representa uma espécie de destruição da própria criação, e que deixá-lo simplesmente viver também não seria bom; e se isso já se aplica a quem foi justamente condenado à morte, tanto mais se aplicaria à morte de um inocente. Quanto à norma dos dois cemitérios, Rambam observa que se trata de uma halachá recebida por tradição, sem apoio direto em nenhum versículo explícito.
Bartenura explica a expressão figurada de Rabi Meir como a fala de alguém exausto, para quem a própria cabeça e o próprio braço pesam como se estivesse fatigado. Confirma que o preceito negativo se transgride sempre que se deixa o morto pernoitar sem sepultura — não apenas o executado. E explica a razão dos cemitérios separados dos tribunais: não se enterra o ímpio junto ao justo, nem se enterra quem foi condenado a uma pena de morte mais severa junto a quem foi condenado a uma pena mais leve; e a tradição recebida fixa o número em exatamente dois cemitérios, não quatro — apesar de haver quatro formas distintas de pena capital.
No contexto da Guemará que discute a lei de honrar os mortos — tema diretamente ligado ao ensinamento de Rabi Meir e à regra de não deixar ninguém insepulto durante a noite —, Rashi remete ao Salmo 24, que descreve quem é digno de subir ao monte do Eterno: entre suas qualidades está a de ser "desprezível a seus próprios olhos" — alguém que não busca honra própria. Este é o pano de fundo do relato talmúdico, trazido nesta mesma passagem, sobre o rei Chizkiyahu, que dispensou deliberadamente sua própria honra em nome de um princípio maior — ilustrando, por analogia, o mesmo tipo de tensão entre honra e um bem superior que a mishná trata ao tratar do enterro digno.