Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Vav · Mishná 5 de 6

"Leve estou de minha cabeça" — o sofrimento da Presença Divina

אָמַר רַבִּי מֵאִיר, בְּשָׁעָה שֶׁאָדָם מִצְטַעֵר, שְׁכִינָה מַה הַלָּשׁוֹן אוֹמֶרֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Meir extrai da própria expressão bíblica "maldição de D-us é o pendurado" um ensinamento sobre o sofrimento da Presença Divina mesmo diante da morte do ímpio justamente punido — e, por inferência, tanto mais diante da morte do justo.

Disse Rabi Meir: no momento em que o homem sofre, o que diz a Presença Divina, por assim dizer? "Leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço." Se assim o Onipresente se aflige pelo sangue dos ímpios que é derramado, tanto mais pelo sangue dos justos.Rabi Meir lê a expressão bíblica "maldição de D-us" — dita a respeito do corpo pendurado — não como referindo-se a uma maldição contra o executado, mas como indicando que o próprio D-us, por assim dizer, sofre com essa cena. E ilustra esse sofrimento com uma expressão figurada de exaustão e dor física — "leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço" — como quem está fatigado além do suportável. Se esse sofrimento Divino acompanha até mesmo a morte justamente decretada de um ímpio culpado, argumenta Rabi Meir por inferência a fortiori, quanto mais intensa não seria essa aflição diante do derramamento do sangue de um justo.

אָמַר רַבִּי מֵאִיר, בְּשָׁעָה שֶׁאָדָם מִצְטַעֵר, שְׁכִינָה מַה הַלָּשׁוֹן אוֹמֶרֶת כִּבְיָכוֹל, קַלַּנִי מֵרֹאשִׁי, קַלַּנִי מִזְּרוֹעִי. אִם כֵּן הַמָּקוֹם מִצְטַעֵר עַל דָּמָם שֶׁל רְשָׁעִים שֶׁנִּשְׁפַּךְ, קַל וָחֹמֶר עַל דָּמָם שֶׁל צַדִּיקִים.
A partir daí, a mishná generaliza a lei da sepultura no mesmo dia para todo morto, não apenas para o executado, distinguindo o atraso proibido do atraso feito em honra ao próprio morto — e fecha o capítulo com a norma dos dois cemitérios distintos do tribunal.

E não somente isso, mas todo aquele que deixa seu morto pernoitar transgride um preceito negativo. Se o deixou pernoitar em sua honra, para trazer-lhe caixão e mortalhas, não transgride por isso. E não o enterravam nas sepulturas de seus pais; antes, dois cemitérios estavam preparados para o tribunal — um para os decapitados e os estrangulados, e outro para os apedrejados e os queimados.A mishná estende agora a proibição de deixar o corpo sem sepultura durante a noite — originalmente dita a respeito do executado pendurado — a qualquer falecido: todo aquele que atrasa deliberadamente o enterro de seu morto até o dia seguinte transgride um preceito negativo da Torá. Uma exceção explícita é feita, porém, quando o atraso se dá em honra ao próprio morto — por exemplo, para providenciar um caixão digno ou as mortalhas adequadas; nesse caso, não há transgressão, pois o propósito do atraso serve à própria dignidade que a lei busca proteger. Por fim, a mishná fecha o capítulo com uma norma distinta, específica dos executados pelo tribunal: eles não eram enterrados junto aos seus antepassados, mas em um de dois cemitérios reservados exclusivamente para essa finalidade — um para os que foram mortos por decapitação ou estrangulamento, e outro, separado, para os que foram apedrejados ou queimados.

וְלֹא זוֹ בִלְבַד, אֶלָּא כָּל הַמֵּלִין אֶת מֵתוֹ, עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה. הֱלִינוֹ לִכְבוֹדוֹ לְהָבִיא לוֹ אָרוֹן וְתַכְרִיכִים, אֵינוֹ עוֹבֵר עָלָיו. וְלֹא הָיוּ קוֹבְרִין אוֹתוֹ בְּקִבְרוֹת אֲבוֹתָיו, אֶלָּא שְׁתֵּי בָתֵּי קְבָרוֹת הָיוּ מְתֻקָּנִין לְבֵית דִּין, אַחַת לַנֶּהֱרָגִין וְלַנֶּחֱנָקִין וְאַחַת לַנִּסְקָלִין וְלַנִּשְׂרָפִין.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim (Deuteronômio) 21:23
כִּי קִלְלַת אֱלֹהִים תָּלוּי
"...pois maldição de D-us é o pendurado."
É sobre esta expressão que se apoia todo o ensinamento de Rabi Meir: em vez de lê-la apenas como um veredito sobre o executado, ele a lê como revelando algo sobre a própria Presença Divina, que se aflige diante do espetáculo de um corpo humano pendurado — mesmo quando a punição foi justa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 6:5
אָמַר רַבִּי מֵאִיר בְּשָׁעָה שֶׁאָדָם מִצְטַעֵר שְׁכִינָה מַה לָּשׁוֹן כו׳: "מַה הַלָּשׁוֹן אוֹמֶרֶת", כְּלוֹמַר אֵיזֶה דָּבָר הוּא מִנְהַג בְּנֵי אָדָם לוֹמַר כְּשֶׁהוּא רוֹצֶה לַעֲנוֹת מִי שֶׁמִּצְטַעֵר, בְּצַעֲרוֹ אֵין הֲנָאָה בָּזֶה הַמַּעֲשֶׂה וְלֹא בַהֲנָחָתוֹ. וְהַדְּבָרִים שֶׁהָיוּ אוֹמְרִים בִּימֵי רַבִּי מֵאִיר "קַלַּנִי מֵרֹאשִׁי קַלַּנִי מִזְּרוֹעִי", כָּךְ אָמַר הַכָּתוּב: שֶׁבְּמִיתַת זֶה הַחוֹטֵא יֵשׁ חֻרְבַּן הַמְּצִיאוּת, וּלְהַנִּיחַ אוֹתוֹ בַּחַיִּים אֵין טוֹב. וְאִם זֶה אָמוּר בְּמְחֻיָּב מִיתָה, כָּל שֶׁכֵּן מִי שֶׁנֶּהֱרָג נָקִי. וְאֵלֶּה הַשְּׁתֵּי קְבָרוֹת הֲלָכָה גְּמִירָא לַהּ, וְאֵין לָהּ רְאָיָה וְלֹא סֶמֶךְ בַּכָּתוּב אֶלָּא קַבָּלָה בִּלְבַד.

Rambam explica que "o que diz a Presença Divina" é uma expressão figurada, semelhante à forma como as pessoas falam quando querem consolar alguém que sofre, para dizer que não há prazer algum nesse sofrimento nem em provocá-lo. A frase corrente em dias de Rabi Meir — "leve estou de minha cabeça, leve estou de meu braço" — expressa, segundo Rambam, que a morte de todo transgressor representa uma espécie de destruição da própria criação, e que deixá-lo simplesmente viver também não seria bom; e se isso já se aplica a quem foi justamente condenado à morte, tanto mais se aplicaria à morte de um inocente. Quanto à norma dos dois cemitérios, Rambam observa que se trata de uma halachá recebida por tradição, sem apoio direto em nenhum versículo explícito.

Bartenura · Sanhedrin 6:5
קַלַּנִי מֵרֹאשִׁי. רֹאשִׁי כָבֵד עָלַי וּזְרוֹעִי כָבֵד עָלַי, כְּאָדָם שֶׁהוּא עָיֵף: וְלֹא זֶה בִלְבַד. עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה אִם הֱלִינוֹ: לֹא הָיוּ קוֹבְרִין אוֹתָן בְּקִבְרוֹת אֲבוֹתֵיהֶן. לְפִי שֶׁאֵין קוֹבְרִין רָשָׁע אֵצֶל צַדִּיק: שְׁנֵי קְבָרוֹת הָיוּ מְתֻקָּנִין לְבֵית דִּין. לְפִי שֶׁאֵין קוֹבְרִים מִי שֶׁנִּתְחַיֵּב מִיתָה חֲמוּרָה אֵצֶל מִי שֶׁנִּתְחַיֵּב מִיתָה קַלָּה. וְהִלְכָתָא גְּמִירָא לַהּ שְׁנַיִם וְלֹא אַרְבָּעָה.

Bartenura explica a expressão figurada de Rabi Meir como a fala de alguém exausto, para quem a própria cabeça e o próprio braço pesam como se estivesse fatigado. Confirma que o preceito negativo se transgride sempre que se deixa o morto pernoitar sem sepultura — não apenas o executado. E explica a razão dos cemitérios separados dos tribunais: não se enterra o ímpio junto ao justo, nem se enterra quem foi condenado a uma pena de morte mais severa junto a quem foi condenado a uma pena mais leve; e a tradição recebida fixa o número em exatamente dois cemitérios, não quatro — apesar de haver quatro formas distintas de pena capital.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 47a, s.v. נבזה בעיניו נמאס
נִבְזֶה בְּעֵינָיו נִמְאָס — בִּתְהִלִּים (כד) כְּתִיב "מִי יַעֲלֶה בְהַר ה' נָקִי כַפַּיִם וּבַר לֵבָב" וְגוֹ', וְקָחָשִׁיב נַמֵּי הָא.

No contexto da Guemará que discute a lei de honrar os mortos — tema diretamente ligado ao ensinamento de Rabi Meir e à regra de não deixar ninguém insepulto durante a noite —, Rashi remete ao Salmo 24, que descreve quem é digno de subir ao monte do Eterno: entre suas qualidades está a de ser "desprezível a seus próprios olhos" — alguém que não busca honra própria. Este é o pano de fundo do relato talmúdico, trazido nesta mesma passagem, sobre o rei Chizkiyahu, que dispensou deliberadamente sua própria honra em nome de um princípio maior — ilustrando, por analogia, o mesmo tipo de tensão entre honra e um bem superior que a mishná trata ao tratar do enterro digno.