Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Hei · Mishná 3 de 5

Um dia de diferença, dois de diferença — a margem de erro tolerada no testemunho

אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁנַיִם בַּחֹדֶשׁ וְאֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁלֹשָׁה בַחֹדֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica o critério da chakirá "em qual dia do mês" a casos concretos: quando um dia de diferença entre as testemunhas é um erro compreensível e quando já é contradição fatal.

Se um diz "no dia dois do mês" e outro diz "no dia três do mês", o testemunho deles permanece válido, pois este sabe do acréscimo do mês e aquele não sabe do acréscimo do mês. [Mas] se um diz "no dia três" e outro diz "no dia cinco", o testemunho deles é anulado.O calendário hebraico intercalava um dia extra a certos meses, tornando-os "cheios" de trinta dias em vez de "deficientes" de vinte e nove; uma testemunha que soubesse dessa intercalação contaria o primeiro dia do mês seguinte como "dois", enquanto outra, que ainda contasse pelo mês anterior, o chamaria de "três". Essa diferença de um único dia, portanto, não é uma contradição real, mas reflexo de dois modos legítimos de contar — e por isso o testemunho permanece de pé. Já uma diferença de dois dias — "três" contra "cinco" — não se explica por nenhuma incerteza sobre a intercalação, e por isso é tratada como contradição real, que anula o testemunho.

אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁנַיִם בַּחֹדֶשׁ וְאֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁלֹשָׁה בַחֹדֶשׁ, עֵדוּתָן קַיֶּמֶת, שֶׁזֶּה יוֹדֵעַ בְּעִבּוּרוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ וְזֶה אֵינוֹ יוֹדֵעַ בְּעִבּוּרוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ. אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁלֹשָׁה וְאֶחָד אוֹמֵר בַּחֲמִשָּׁה, עֵדוּתָן בְּטֵלָה.
O mesmo critério de margem tolerável de erro é aplicado agora à chakirá "em qual hora", com a divergência de Rabi Yehudá ampliando essa margem — mas nunca a ponto de contrariar o que é visível a olho nu, como a posição do sol no céu.

Se um diz "na segunda hora" e outro diz "na terceira hora", o testemunho deles permanece válido. [Mas] se um diz "na terceira" e outro diz "na quinta", o testemunho deles é anulado. Rabi Yehudá diz: permanece válido. [Porém] se um diz "na quinta" e outro diz "na sétima", o testemunho deles é anulado, pois na quinta o sol está no oriente e na sétima o sol está no ocidente.O mesmo raciocínio da mishná anterior se repete quanto à hora do dia: uma diferença de uma hora é erro humano tolerável, mas uma diferença de duas horas já é tratada, pelos Sábios, como contradição. Rabi Yehudá discorda nesse ponto específico, considerando que mesmo duas horas de diferença ainda cabem dentro da margem normal de erro na estimativa do tempo. Mas até Rabi Yehudá concorda que, quando a diferença chega a duas horas em torno do meio-dia — a quinta contra a sétima —, o testemunho cai, porque ali o erro deixa de ser plausível: a posição do sol no céu, visivelmente a leste antes do meio-dia e a oeste depois dele, é um dado que qualquer pessoa presente no local reconheceria de imediato, tornando inexplicável que duas testemunhas oculares divergissem sobre isso.

אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁתֵּי שָׁעוֹת וְאֶחָד אוֹמֵר בְּשָׁלֹשׁ שָׁעוֹת, עֵדוּתָן קַיֶּמֶת. אֶחָד אוֹמֵר בְּשָׁלֹשׁ וְאֶחָד אוֹמֵר בְּחָמֵשׁ, עֵדוּתָן בְּטֵלָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, קַיָּמֶת. אֶחָד אוֹמֵר בְּחָמֵשׁ וְאֶחָד אוֹמֵר בְּשֶׁבַע, עֵדוּתָן בְּטֵלָה, שֶׁבְּחָמֵשׁ חַמָּה בַמִּזְרָח וּבְשֶׁבַע חַמָּה בַמַּעֲרָב.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 5:3
אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁנַיִם בַּחֹדֶשׁ וְאֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁלֹשָׁה כוּ׳: זוֹ שֶׁאָמַרְנוּ שֶׁכְּשֶׁיִּהְיֶה מַחֲלֹקֶת בְּיוֹם אֶחָד עֵדוּתָן קַיֶּמֶת, אָמְנָם דִּין זֶה עַד חֲצִי הַחֹדֶשׁ בִּלְבַד, אֲבָל אִם אָמַר הָאֶחָד בְּשִׁשָּׁה עָשָׂר בַּחֹדֶשׁ וְהָאֶחָד בְּשִׁבְעָה עָשָׂר, עֵדוּתָן בְּטֵלָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁהִסְכִּימוּ עַל הַיּוֹם מִן הַשָּׁבוּעַ, לְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיַּעֲבֹר חֲצִי חֹדֶשׁ שֶׁלֹּא יֵדְעוּ כָל הָעוֹלָם אֵיזֶה יוֹם הָיָה רֹאשׁ חֹדֶשׁ. וּמִפְּאַת הַמִּזְרָח עַד אֶמְצַע הָרָקִיעַ נִקְרָא מִזְרָח, וּמֵאֶמְצַע הַשָּׁמַיִם עַד פְּאַת הַמַּעֲרָב נִקְרָא מַעֲרָב.

Rambam acrescenta um limite importante que a mishná não explicita: a tolerância de um dia de diferença só vale até a metade do mês. Depois disso, mesmo que as duas testemunhas concordem quanto ao dia da semana, uma diferença de um dia — "dezesseis" contra "dezessete" — já anula o testemunho, pois é impensável que meio mês se passe sem que toda a comunidade já saiba em que dia o tribunal santificou o novo mês; a essa altura, a incerteza sobre a intercalação já não é uma explicação plausível. E define os termos "oriente" e "ocidente": do nascer do sol até o meio do firmamento chama-se oriente, e do meio do firmamento até o poente chama-se ocidente.

Bartenura · Sanhedrin 5:3
שֶׁזֶּה יָדַע בְּעִבּוּרוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ. זֶה שֶׁאָמַר בִּשְׁנַיִם יָדַע שֶׁהַחֹדֶשׁ שֶׁעָבַר מָלֵא הָיָה, וְיוֹם רִאשׁוֹן שֶׁל חֹדֶשׁ שֶׁהוּא יוֹם שְׁלֹשִׁים, מֵחֹדֶשׁ שֶׁעָבַר הָיָה. וְדַוְקָא עַד חֲצִי הַחֹדֶשׁ, אֲבָל מֵחֲצִי הַחֹדֶשׁ וָאֵילָךְ עֵדוּתָן בְּטֵלָה, שֶׁחֲזָקָה אֵין עוֹבֵר חֲצִי הַחֹדֶשׁ עַד שֶׁכָּל הָעוֹלָם יוֹדְעִים מָתַי קִדְּשׁוּ בֵית דִּין הַחֹדֶשׁ: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר קַיֶּמֶת. דַּעֲבִיד אֱינָשׁ דְּטָעֵי כֻלֵּי הַאי: חַמָּה בַמִּזְרָח. מִמְּקוֹם זְרִיחַת הַחַמָּה עַד אֶמְצַע הָרָקִיעַ קָרוּי מִזְרָח, וּמֵאֶמְצַע הָרָקִיעַ עַד מְקוֹם הַשְּׁקִיעָה קָרוּי מַעֲרָב.

Bartenura explica o mecanismo do erro tolerável: quem diz "dia dois" sabe que o mês anterior foi "cheio" (trinta dias), de modo que o primeiro dia do novo mês, na contagem do mês anterior, seria o "trigésimo" — mas essa margem só se sustenta até a metade do mês corrente, porque depois disso já é presunção geral que todos saibam quando o tribunal santificou o novo mês. Sobre a divergência de Rabi Yehudá, Bartenura dá a razão em termos simples: uma pessoa pode, de fato, errar tanto quanto duas horas na estimativa do tempo. E confirma a definição de oriente e ocidente pela posição do sol em relação ao meio do firmamento.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 40a, 42a, s.v. שזה יודע בעיבורו של חודש; אחד אומר בשתי שעות כו׳; רבי יהודה אומר עדותן קיימת
שֶׁזֶּה יוֹדֵעַ בְּעִבּוּרוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ — זֶה שֶׁאָמַר בִּשְׁנַיִם יוֹדֵעַ שֶׁהַחֹדֶשׁ שֶׁעָבַר מָלֵא הָיָה, וְיוֹם רִאשׁוֹן שֶׁל חֹדֶשׁ שֶׁהוּא יוֹם שְׁלֹשִׁים מֵחֹדֶשׁ שֶׁעָבַר הָיָה: אֶחָד אוֹמֵר בִּשְׁתֵּי שָׁעוֹת כוּ׳ — דְּטָעֵי אֵינִישׁ בְּהָכִי: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר עֵדוּתָן קַיֶּמֶת — דְּכוּלֵּי הַאי טָעֵי אֵינִישׁ.

Rashi confirma que a tolerância de um dia se explica pela incerteza legítima sobre se o mês anterior foi "cheio" ou "deficiente" — uma questão de calendário, não de percepção do fato. E, sobre a divergência de Rabi Yehudá quanto às horas, resume a posição em poucas palavras: uma pessoa pode, sim, errar até duas horas na estimativa do tempo — mantendo a lógica de que toda margem de tolerância deve corresponder a um erro humanamente plausível, e nunca a algo tão evidente quanto a posição do sol no céu.