Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Hei · Mishná 2 de 5

Os caules dos figos — o exame minucioso de Ben Zakai e a diferença entre inquirições e exames

כָּל הַמַּרְבֶּה בִבְדִיקוֹת, הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Além das sete chakirot obrigatórias, o tribunal era livre — e louvado — por acrescentar perguntas adicionais (bedikot) sobre os detalhes do caso. A mishná ilustra com um episódio famoso, o exame minucioso de Ben Zakai.

Todo aquele que multiplica os exames é louvável. Houve um caso em que Ben Zakai examinou pelos caules dos figos. — Depois das sete chakirot fixas da mishná anterior, o tribunal podia — e devia — ir além, multiplicando perguntas sobre os pormenores do evento testemunhado, na esperança de expor alguma contradição entre as testemunhas. A mishná ilustra esse princípio com um caso concreto: as testemunhas afirmavam que o réu havia cometido o crime debaixo de uma figueira, e Ben Zakai — identificado pelos comentadores como um sábio que ainda estudava diante de seu mestre, e não Rabán Yochanan ben Zakai, que viveria depois da destruição do Templo — interrogou-as sobre a espessura dos caules dos figos daquela árvore específica, um detalhe tão minucioso que dificilmente duas testemunhas que não tivessem realmente presenciado o fato juntas concordariam nele.

כָּל הַמַּרְבֶּה בִבְדִיקוֹת, הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח. מַעֲשֶׂה וּבָדַק בֶּן זַכַּאי בְּעֻקְצֵי תְאֵנִים.
A mishná define com precisão técnica a diferença entre chakirot (as sete inquirições fixas) e bedikot (os exames adicionais e opcionais): o efeito diferente que um simples "não sei" tem sobre a validade do testemunho em cada categoria.

E que diferença há entre inquirições e exames? Nas inquirições, se um diz "não sei", o testemunho deles é anulado. Nos exames, se um diz "não sei" — e mesmo se dois dizem "não sabemos" — o testemunho deles permanece válido. Tanto nas inquirições quanto nos exames: quando se contradizem um ao outro, o testemunho deles é anulado. — Aqui está a razão técnica de toda a distinção: a hazamá — o mecanismo pelo qual outra dupla de testemunhas refuta a primeira, provando que ela não poderia ter estado no local no momento afirmado — só é possível quando o tempo e o lugar do evento estão fixados com precisão absoluta, o que é exatamente a função das sete chakirot. Se uma testemunha responde "não sei" a qualquer uma delas, esse tempo ou lugar nunca fica estabelecido, e a hazamá se torna impossível para toda a dupla — por isso todo o testemunho cai. Já as bedikot, por mais numerosas que sejam, não têm essa função: seu único papel é revelar contradição entre as testemunhas, de modo que um "não sei" nelas apenas encerra aquela pergunta específica, sem comprometer o restante. Mas se, em qualquer uma das duas categorias, as testemunhas efetivamente se contradizem — uma afirmando o oposto da outra —, todo o testemunho cai, pois a contradição por si só já revela que ao menos uma delas não está dizendo a verdade.

וּמַה בֵּין חֲקִירוֹת לִבְדִיקוֹת. חֲקִירוֹת, אֶחָד אוֹמֵר אֵינִי יוֹדֵעַ, עֵדוּתָן בְּטֵלָה. בְּדִיקוֹת, אֶחָד אוֹמֵר אֵינִי יוֹדֵעַ, וַאֲפִלּוּ שְׁנַיִם אוֹמְרִים אֵין אָנוּ יוֹדְעִין, עֵדוּתָן קַיָּמֶת. אֶחָד חֲקִירוֹת וְאֶחָד בְּדִיקוֹת, בִּזְמַן שֶׁמַּכְחִישִׁין זֶה אֶת זֶה, עֵדוּתָן בְּטֵלָה.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 5:2
כָּל הַמַּרְבֶּה בִבְדִיקוֹת הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח, מַעֲשֶׂה כוּ׳: בֶּן זַכַּאי הוּא רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, וְלֹא הָיָה אוֹתוֹ שֶׁבָּדַק, אֲבָל זֶה הַמַּעֲשֶׂה הָיָה לִפְנֵי רַבּוֹ הִלֵּל הַזָּקֵן, וְהוּא הָיָה תַלְמִיד לְפָנָיו. וְאָמַר הִלֵּל לָעֵדִים בְּאֵיזֶה מָקוֹם, אָמְרוּ לוֹ בְּמָקוֹם פְּלוֹנִי תַּחַת אִילַן תְּאֵנָה, וְאָמַר רִבִּ״ז יֵשׁ לִשְׁאוֹל תֹּאַר הַתְּאֵנִים הֵיאַךְ הָיוּ עֻקְצֵיהֶן, אִם עֻקְצֵיהֶם אֲרֻכִּים אוֹ קְצָרִים, וְאִם הֵם עָבוֹת אוֹ דַקּוֹת, וְכָל זֶה כְּדֵי לְהַאֲרִיךְ עַל הָעֵדִים. וְאָמְרוּ וַאֲפִלּוּ שְׁנַיִם אוֹמְרִים, רוֹצֶה לוֹמַר אֲפִלּוּ בַּחֲקִירוֹת שֶׁהֵם הָעִקָּר, כְּשֶׁשְּׁנַיִם אוֹמְרִים אָנוּ יוֹדְעִים וְאֶחָד אוֹמֵר אֵינִי יוֹדֵעַ, עֵדוּתָן קַיֶּמֶת. וְהַטַּעַם אֲשֶׁר בִּגְלָלוֹ אִם אָמַר אֶחָד מִן הָעֵדִים בַּחֲקִירוֹת אֵינִי יוֹדֵעַ עֵדוּתָן בְּטֵלָה, וְאִם אָמְרוּ כֻלָּם בַּבְּדִיקוֹת אֵין אָנוּ יוֹדְעִים עֵדוּתָן קַיֶּמֶת: כִּי מֵעִקָּרֵנוּ כָּל עֵדוּת שֶׁאֵין אַתָּה יָכוֹל לַהֲזִימָהּ אֵינָהּ עֵדוּת, וְהַזָּמָה אִי אֶפְשָׁר אֶלָּא כְּשֶׁסִּיֵּם הַזְּמַן וְהַמָּקוֹם שֶׁבָּהֶן הָיָה הַמַּעֲשֶׂה, וְשֶׁבַע חֲקִירוֹת הֵם לְסַיֵּם הַזְּמַן וְהַמָּקוֹם.

Rambam traz um dado histórico notável, colhido da própria Guemará: o Ben Zakai desta mishná não é Rabán Yochanan ben Zakai — que ainda era um jovem estudante diante de seu mestre Hilel, o Ancião, quando o episódio ocorreu — mas o próprio Hilel quem conduziu o exame; foi Ben Zakai quem sugeriu, como estudante, que se perguntasse sobre a forma dos caules dos figos: se eram longos ou curtos, grossos ou finos — tudo com o propósito de prolongar o interrogatório das testemunhas. Sobre a diferença técnica, Rambam explica o princípio fundamental que rege toda hazamá: nenhum testemunho é válido se não puder, em princípio, ser refutado por outra dupla, e essa refutação exige que o tempo e o lugar do evento estejam plenamente estabelecidos — exatamente o papel das sete chakirot. Por isso um "não sei" nelas anula tudo, enquanto nas bedikot, que nada têm a ver com a fixação de tempo e lugar, o mesmo "não sei" é inofensivo.

Bartenura · Sanhedrin 5:2
בֶּן זַכַּאי. רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי. וְתַלְמִיד דָּן לִפְנֵי רַבּוֹ הָיָה בְּאוֹתָהּ שָׁעָה, לְכָךְ קוֹרְאוֹ בֶּן זַכַּאי: בְּעֻקְצֵי תְאֵנִים. שֶׁהָיוּ מְעִידִים עָלָיו שֶׁהֲרָגוֹ תַחַת הַתְּאֵנָה, וּבָדַק בֶּן זַכַּאי תְּאֵנָה זוֹ עֻקְצֶיהָ דַקִּים אוֹ גַסִּים. עֹקֶץ, זְנַב הַפְּרִי מְקוֹם חִבּוּרוֹ לָאִילָן: אָמַר אֶחָד אֵינִי יוֹדֵעַ עֵדוּתָן בְּטֵלָה. דְּשׁוּב אִי אַתָּה יָכוֹל לַהֲזִימָן בְּאוֹתָהּ חֲקִירָה, וְכָל זְמַן שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְקַיֵּם תּוֹרַת הֲזָמָה בְאֶחָד מִן הָעֵדִים, כָּל הָעֵדוּת בְּטֵלָה, וַאֲפִלּוּ הֵן מֵאָה, דְּאֵין הָעֵדִים נַעֲשִׂים זוֹמְמִים עַד שֶׁיִּזּוֹמוּ כֻלָּן: בְּדִיקוֹת. אֲפִלּוּ אָמְרוּ כֻלָּן אֵין אָנוּ יוֹדְעִים, מִצְוַת הֲזָמָה רְאוּיָה לְהִתְקַיֵּם, דְּאֵין הֲזָמָה תְלוּיָה אֶלָּא בַחֲקִירָה.

Bartenura confirma que Ben Zakai era, na época do episódio, um discípulo que ainda julgava diante de seu mestre — daí o apelativo diminutivo "Ben Zakai" em vez de seu título completo. Explica o termo "עוקץ" — o caule pelo qual o fruto se prende à árvore. E esclarece a razão técnica da diferença central: um "não sei" em qualquer chakirá impede definitivamente a hazamá naquele ponto específico, e como a Torá exige que todos os elementos do testemunho sejam passíveis de refutação, um único elo quebrado invalida a cadeia inteira — mesmo que sejam cem testemunhas, pois testemunhas só se tornam "conspiradoras" (zomemin) quando todas, sem exceção, são refutadas juntas. Já nas bedikot, que nada têm a ver com o mecanismo da hazamá, o mesmo "não sei" não compromete nada.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 40a–41a, s.v. בעוקצי תאנים; חקירות אמר אחד איני יודע עדותן בטלה; בדיקות
בְּעֻקְצֵי תְאֵנִים — שֶׁהָיוּ מְעִידִים עָלָיו שֶׁהֲרָגוֹ תַּחַת תְּאֵנָה, וּבָדַק בֶּן זַכַּאי תְּאֵנָה זוֹ עֻקְצֶיהָ גַּסִּין אוֹ דַקִּין. עֹקֶץ, זְנַב הַפְּרִי מְקוֹם חִבּוּרוֹ לָאִילָן: חֲקִירוֹת אָמַר אֶחָד אֵינִי יוֹדֵעַ עֵדוּתָן בְּטֵלָה — דְּשֶׁבַע חֲקִירוֹת מִקְּרָאֵי נָפְקִי לָן, וּבָעֵינָן בְּכֻלְּהוּ שֶׁתְּהֵא יָכוֹל לַהֲזִימָן, דְּהַזָּמָה כְּתִיבָא בְהוּ. וְכֵיוָן דְּאָמַר אֵינִי יוֹדֵעַ, אִי אַתָּה יָכוֹל לַהֲזִימוֹ בְּאוֹתָהּ חֲקִירָה, וְכֵיוָן דְּאִי אֶפְשָׁר לְקַיֵּם בָּהּ מִצְוַת הֲזָמָה בְּאוֹתוֹ הָעֵד, בְּטֵלָה כָּל הָעֵדוּת, וַאֲפִלּוּ הֵן מֵאָה, דְּאֵין עֵדִים נַעֲשִׂין זוֹמְמִין עַד שֶׁיִּזּוֹמוּ כֻּלָּן: בְּדִיקוֹת — אֲפִלּוּ אָמְרוּ כֻלָּם אֵין אָנוּ יוֹדְעִין, מִצְוַת הֲזָמָה רְאוּיָה לְהִתְקַיֵּם בָּהֶן, דְּאֵין הֲזָמָה תְלוּיָה אֶלָּא בַּחֲקִירוֹת.

Rashi confirma o pano de fundo do episódio: as testemunhas afirmavam ter visto o homicídio debaixo de uma figueira, e Ben Zakai perguntou se os caules dessa figueira eram grossos ou finos. Sobre a razão da diferença entre chakirot e bedikot, Rashi é preciso: as sete inquirições derivam diretamente dos versículos bíblicos, e é exatamente sobre elas que a Torá escreve o mecanismo da hazamá — de modo que, se falta a resposta em qualquer uma delas, essa hazamá se torna impossível, e cai o testemunho inteiro, mesmo que sejam cem testemunhas, pois testemunhas só se tornam conspiradoras quando todas, sem exceção, são refutadas em conjunto. Já as bedikot, que não têm ligação alguma com o mecanismo da hazamá, permanecem válidas ainda que todas as testemunhas respondam "não sabemos".