Julgamentos de impurezas e purezas — assim como os monetários — começam pelo maior; julgamentos capitais começam pelo lado, isto é, pelo menos graduado. Todos são aptos para julgar julgamentos monetários, mas nem todos são aptos para julgar julgamentos capitais, senão apenas cohanim, leviim e israelitas que possam casar suas filhas com a cohanut. — Nos julgamentos monetários e nas questões de pureza ritual, o costume é abrir a deliberação com a opinião do juiz mais sábio, presumindo-se que sua autoridade oriente corretamente os demais. Mas em julgamento capital essa mesma prática seria perigosa: se o juiz mais graduado falasse primeiro, os demais teriam relutância em discordar dele, e a defesa do acusado poderia ficar comprometida — por isso ali se começa pelos juízes de menor destaque, deixando os mais experientes para o fim, quando já ouviram todos os argumentos e podem influenciar menos o rumo geral da deliberação. E, quanto à composição do próprio tribunal capital, a mishná exige uma linhagem irrepreensível: apenas quem descende de família apta a se ligar por casamento à cohanut — sacerdotes, levitas e israelitas de linhagem idônea — pode integrar um tribunal que decide sobre vida e morte.
Rambam explica que a inversão da ordem de fala existe precisamente para proteger a independência de julgamento dos juízes menos graduados: se o mais sábio falasse primeiro, a autoridade de sua palavra tornaria quase impossível a qualquer outro discordar dele. Daí a leitura do versículo "לא תענה על ריב" como "não replicarás contra o rav" — não te oporás à palavra do grande sábio depois que ele já a tiver dito publicamente. Sobre quem é apto a julgar, Rambam confirma que mesmo um convertido cuja mãe seja de Israel, e até um mamzer, são aptos para julgar casos monetários — a exclusão de linhagem vale apenas para os julgamentos capitais.
Bartenura localiza fisicamente o "lado" mencionado na mishná: eram os juízes de menor sabedoria que se sentavam à margem do tribunal, e por isso falavam primeiro. Sobre a aptidão para julgar, ele especifica que até um convertido — desde que sua mãe seja judia — e um mamzer são plenamente aptos para julgamentos monetários; a exigência de linhagem irrepreensível aparece apenas quando a vida está em jogo. Para essa exigência, Bartenura traz a fonte de Moshé: assim como Moshé Rabênu tinha linhagem impecável, também os juízes que com ele repartiam a carga do povo — e, por extensão, todo tribunal capital — precisam ser "semelhantes" a ele nesse aspecto.
Rashi ilustra o primeiro caso com um exemplo concreto: quando alguém traz uma dúvida de pureza ritual perante o tribunal, pergunta-se primeiro a opinião do juiz mais graduado. No caso capital, confirma que a razão de se começar "do lado" — pelos juízes menos destacados — é o receio de que ninguém ouse discordar do juiz maior depois que ele já tiver falado, apoiando essa leitura na grafia de "רב" sem a letra yud, lida como "rav" em vez de "riv". E sobre a qualificação exigida para o tribunal capital, Rashi define com precisão "israelitas que casam com a cohanut": trata-se de famílias de linhagem tão idônea que os próprios sacerdotes aceitariam desposar suas filhas — o padrão mais alto de pureza genealógica disponível fora da própria cohanut.