O Sinédrio Grande era de setenta e um, e o pequeno de vinte e três. — A mishná define, de saída, o tamanho exato dos dois tribunais mencionados ao longo de todo o perek: o Sinédrio Grande, sediado na Câmara de Pedras Lavradas do Templo, era composto de setenta e um juízes; e o Sinédrio pequeno, presente em cada cidade, de vinte e três.
E de onde [se aprende] que o Grande é de setenta e um? Pois está dito: "Reúne para mim setenta homens dos anciãos de Israel" — e Moshé sobre eles, eis setenta e um. Rabi Yehudá diz: setenta. — A dedução parte do episódio em Bamidbar 11, quando D'us ordena a Moshé reunir setenta anciãos para compartilhar o fardo da liderança: somando o próprio Moshé aos setenta, chega-se a setenta e um. Rabi Yehudá discorda dessa soma, e conta apenas os setenta anciãos, sem incluir Moshé no número.
E de onde [se aprende] que o pequeno é de vinte e três? Pois está dito: "e a assembleia julgará... e a assembleia salvará" — uma assembleia que julga e uma assembleia que salva, eis aqui vinte. — A dedução do número vinte e três é construída em camadas a partir de Bamidbar 35, sobre o tribunal que julga o homicida: o versículo menciona "assembleia" (edá) duas vezes — uma que condena e outra que absolve —, e como cada "edá" bíblica equivale a dez pessoas (ver adiante), duas assembleias somam vinte.
E de onde [se aprende] que a assembleia é de dez? Pois está dito: "até quando [suportarei] esta assembleia má" — saíram Yehoshua e Calev. — O tamanho de uma "edá" é aprendido do episódio dos doze exploradores em Bamidbar 14: D'us se refere aos dez que trouxeram o relatório caluniador como "esta assembleia má" — excluindo Yehoshua e Calev, que discordaram —, estabelecendo que dez pessoas constituem uma "edá".
E de onde [se aprende] trazer mais três? Do sentido do que está dito: "não seguirás a maioria para o mal" — poderia eu entender que estarei com eles para o bem [também]? Se assim, por que está dito "inclina-te após a maioria"? Não como tua inclinação para o bem é tua inclinação para o mal: tua inclinação para o bem é por um, tua inclinação para o mal é por dois — e como não há tribunal par, acrescenta-se a eles mais um, eis aqui vinte e três. — A mishná soma mais três aos vinte já estabelecidos, através de uma leitura cuidadosa de Shemot 23: para condenar (inclinar para o mal), é preciso uma maioria de pelo menos dois votos sobre a minoria — não bastando um único voto de diferença como bastaria para absolver —, o que exige acrescentar mais dois às vinte pessoas; e como um tribunal nunca pode ter número par de juízes (para evitar empates), soma-se ainda mais um, totalizando vinte e três.
E quantos deve haver numa cidade para que seja apta ao Sinédrio? Cento e vinte. Rabi Nechemia diz: duzentos e trinta, correspondendo aos chefes de dez. — A mishná fecha o perek com o requisito populacional mínimo para que uma cidade tenha direito a instalar seu próprio Sinédrio pequeno local: cento e vinte homens adultos. Rabi Nechemia discorda e exige duzentos e trinta — número que corresponde, segundo ele, aos vinte e três juízes do próprio sinédrio, cada um concebido simbolicamente como "chefe de dez" pessoas.
A mishná constrói toda a sua dedução numérica encadeando quatro versículos distintos — a nomeação dos setenta anciãos, a "assembleia" do tribunal do homicida, a "assembleia má" dos exploradores, e o princípio de seguir a maioria.
Rambam explica a divergência entre Rabi Yehudá e os Sábios sobre incluir Moshé no número de setenta e um, e detalha os cento e vinte cargos que compõem a cidade apta a um Sinédrio, segundo a opinião dos Sábios.
Rambam explica a raiz da divergência entre Rabi Yehudá e os Sábios: o versículo diz que os setenta anciãos "levarão contigo o fardo do povo" — Rabi Yehudá entende essa expressão como "julgarão em teu lugar", isto é, como substitutos de Moshé, e por isso não conta Moshé como membro adicional do tribunal; os Sábios entendem "julgarão contigo", isto é, junto com Moshé, que participa como o septuagésimo primeiro membro — e a halachá segue os Sábios. Sobre os cento e vinte homens necessários para instalar um sinédrio, Rambam detalha, seguindo o Talmud, exatamente quais cargos e ofícios precisam existir numa cidade: o próprio sinédrio de vinte e três, três fileiras de vinte e três estudantes assistindo ao tribunal, dez homens "ociosos" dedicados ao estudo e à sinagoga, dois escrivães, dois cantores, duas partes litigantes, duas testemunhas, duas testemunhas conspiradoras (e mais duas para desmascará-las), dois tesoureiros de caridade mais um terceiro para distribuí-la, um médico habilidoso, um escriba e um professor de crianças — somando ao todo cento e vinte.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Sanhedrin 2a-2b), fechando o mesmo encadeamento de versículos citado nas Fontes bíblicas, e explicando o número duzentos e trinta de Rabi Nechemia.
Rashi confirma passo a passo a mesma dedução: "assembleia que julga" refere-se a dez juízes votando pela condenação, e "assembleia que salva" a dez votando pela absolvição — ensinando que já são necessários vinte juízes para que, mesmo em caso de empate exato, haja dez de cada lado. E explica o princípio de nunca formar um tribunal com número par: se fosse par, um empate exato tornaria impossível garantir que a inclinação para a absolvição — que basta por um único voto de maioria — pudesse ocorrer de forma clara. Sobre a opinião de Rabi Nechemia, Rashi explica a conta: duzentos e trinta equivale a vinte e três "dezenas", pois cada um dos vinte e três juízes do sinédrio é concebido como "chefe" simbólico de dez pessoas — e a menor unidade de liderança reconhecida na tradição é justamente o comando sobre um grupo de dez.