Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Alef · Mishná 6 de 6 — encerrando o perek

O Sinédrio Grande e o Sinédrio pequeno — a origem dos números

סַנְהֶדְרִי גְדוֹלָה הָיְתָה שֶׁל שִׁבְעִים וְאֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sexta e última mishná do Perek Alef fecha o perek retornando à origem dos dois números centrais que estruturaram toda a discussão anterior — setenta e um para o Sinédrio Grande, vinte e três para o pequeno — e deduz cada um deles, passo a passo, a partir de versículos da Torá, com a divergência de Rabi Yehudá sobre o Sinédrio Grande. A mishná encerra com o requisito populacional mínimo de uma cidade para merecer um sinédrio local, e a posição alternativa de Rabi Nechemia.

O Sinédrio Grande era de setenta e um, e o pequeno de vinte e três.A mishná define, de saída, o tamanho exato dos dois tribunais mencionados ao longo de todo o perek: o Sinédrio Grande, sediado na Câmara de Pedras Lavradas do Templo, era composto de setenta e um juízes; e o Sinédrio pequeno, presente em cada cidade, de vinte e três.

E de onde [se aprende] que o Grande é de setenta e um? Pois está dito: "Reúne para mim setenta homens dos anciãos de Israel" — e Moshé sobre eles, eis setenta e um. Rabi Yehudá diz: setenta.A dedução parte do episódio em Bamidbar 11, quando D'us ordena a Moshé reunir setenta anciãos para compartilhar o fardo da liderança: somando o próprio Moshé aos setenta, chega-se a setenta e um. Rabi Yehudá discorda dessa soma, e conta apenas os setenta anciãos, sem incluir Moshé no número.

E de onde [se aprende] que o pequeno é de vinte e três? Pois está dito: "e a assembleia julgará... e a assembleia salvará" — uma assembleia que julga e uma assembleia que salva, eis aqui vinte.A dedução do número vinte e três é construída em camadas a partir de Bamidbar 35, sobre o tribunal que julga o homicida: o versículo menciona "assembleia" (edá) duas vezes — uma que condena e outra que absolve —, e como cada "edá" bíblica equivale a dez pessoas (ver adiante), duas assembleias somam vinte.

E de onde [se aprende] que a assembleia é de dez? Pois está dito: "até quando [suportarei] esta assembleia má" — saíram Yehoshua e Calev.O tamanho de uma "edá" é aprendido do episódio dos doze exploradores em Bamidbar 14: D'us se refere aos dez que trouxeram o relatório caluniador como "esta assembleia má" — excluindo Yehoshua e Calev, que discordaram —, estabelecendo que dez pessoas constituem uma "edá".

E de onde [se aprende] trazer mais três? Do sentido do que está dito: "não seguirás a maioria para o mal" — poderia eu entender que estarei com eles para o bem [também]? Se assim, por que está dito "inclina-te após a maioria"? Não como tua inclinação para o bem é tua inclinação para o mal: tua inclinação para o bem é por um, tua inclinação para o mal é por dois — e como não há tribunal par, acrescenta-se a eles mais um, eis aqui vinte e três.A mishná soma mais três aos vinte já estabelecidos, através de uma leitura cuidadosa de Shemot 23: para condenar (inclinar para o mal), é preciso uma maioria de pelo menos dois votos sobre a minoria — não bastando um único voto de diferença como bastaria para absolver —, o que exige acrescentar mais dois às vinte pessoas; e como um tribunal nunca pode ter número par de juízes (para evitar empates), soma-se ainda mais um, totalizando vinte e três.

E quantos deve haver numa cidade para que seja apta ao Sinédrio? Cento e vinte. Rabi Nechemia diz: duzentos e trinta, correspondendo aos chefes de dez.A mishná fecha o perek com o requisito populacional mínimo para que uma cidade tenha direito a instalar seu próprio Sinédrio pequeno local: cento e vinte homens adultos. Rabi Nechemia discorda e exige duzentos e trinta — número que corresponde, segundo ele, aos vinte e três juízes do próprio sinédrio, cada um concebido simbolicamente como "chefe de dez" pessoas.

סַנְהֶדְרִי גְדוֹלָה הָיְתָה שֶׁל שִׁבְעִים וְאֶחָד, וּקְטַנָּה שֶׁל עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה. וּמִנַּיִן לַגְּדוֹלָה שֶׁהִיא שֶׁל שִׁבְעִים וְאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר יא) אֶסְפָה לִּי שִׁבְעִים אִישׁ מִזִּקְנֵי יִשְׂרָאֵל, וּמֹשֶׁה עַל גַּבֵּיהֶן, הֲרֵי שִׁבְעִים וְאֶחָד. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, שִׁבְעִים. וּמִנַּיִן לַקְּטַנָּה שֶׁהִיא שֶׁל עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה, שֶׁנֶּאֱמַר (שם לה) וְשָׁפְטוּ הָעֵדָה וְגוֹ' וְהִצִּילוּ הָעֵדָה, עֵדָה שׁוֹפֶטֶת וְעֵדָה מַצֶּלֶת, הֲרֵי כָאן עֶשְׂרִים. וּמִנַּיִן לָעֵדָה שֶׁהִיא עֲשָׂרָה, שֶׁנֶּאֱמַר (שם יד) עַד מָתַי לָעֵדָה הָרָעָה הַזֹּאת, יָצְאוּ יְהוֹשֻׁעַ וְכָלֵב. וּמִנַּיִן לְהָבִיא עוֹד שְׁלֹשָׁה, מִמַּשְׁמַע שֶׁנֶּאֱמַר (שמות כג) לֹא תִהְיֶה אַחֲרֵי רַבִּים לְרָעֹת, שׁוֹמֵעַ אֲנִי שֶׁאֶהְיֶה עִמָּהֶם לְטוֹבָה, אִם כֵּן לָמָּה נֶאֱמַר (שם) אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטֹּת, לֹא כְהַטָּיָתְךָ לְטוֹבָה הַטָּיָתְךָ לְרָעָה. הַטָּיָתְךָ לְטוֹבָה עַל פִּי אֶחָד, הַטָּיָתְךָ לְרָעָה עַל פִּי שְׁנַיִם, וְאֵין בֵּית דִּין שָׁקוּל, מוֹסִיפִין עֲלֵיהֶם עוֹד אֶחָד, הֲרֵי כָאן עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה. וְכַמָּה יְהֵא בְעִיר וּתְהֵא רְאוּיָה לְסַנְהֶדְרִין, מֵאָה וְעֶשְׂרִים. רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר, מָאתַיִם וּשְׁלשִׁים, כְּנֶגֶד שָׂרֵי עֲשָׂרוֹת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A mishná constrói toda a sua dedução numérica encadeando quatro versículos distintos — a nomeação dos setenta anciãos, a "assembleia" do tribunal do homicida, a "assembleia má" dos exploradores, e o princípio de seguir a maioria.

Bamidbar 11:16
וַיֹּאמֶר יְהֹוָה אֶל מֹשֶׁה, אֶסְפָה לִּי שִׁבְעִים אִישׁ מִזִּקְנֵי יִשְׂרָאֵל אֲשֶׁר יָדַעְתָּ כִּי הֵם זִקְנֵי הָעָם וְשֹׁטְרָיו, וְלָקַחְתָּ אֹתָם אֶל אֹהֶל מוֹעֵד וְהִתְיַצְּבוּ שָׁם עִמָּךְ.
"E disse o Eterno a Moshé: reúne para mim setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes que são os anciãos do povo e seus oficiais, e os levarás até a Tenda do Encontro, e ali ficarão contigo."
Bamidbar 35:24-25
וְשָׁפְטוּ הָעֵדָה בֵּין הַמַּכֶּה וּבֵין גֹּאֵל הַדָּם עַל הַמִּשְׁפָּטִים הָאֵלֶּה. וְהִצִּילוּ הָעֵדָה אֶת הָרֹצֵחַ מִיַּד גֹּאֵל הַדָּם, וְהֵשִׁיבוּ אֹתוֹ הָעֵדָה אֶל עִיר מִקְלָטוֹ אֲשֶׁר נָס שָׁמָּה.
"E a assembleia julgará entre o agressor e o vingador do sangue, segundo estas leis. E a assembleia salvará o homicida da mão do vingador do sangue, e a assembleia o fará voltar à sua cidade de refúgio, para onde havia fugido."
Bamidbar 14:27
עַד מָתַי לָעֵדָה הָרָעָה הַזֹּאת אֲשֶׁר הֵמָּה מַלִּינִים עָלָי.
"Até quando [suportarei] esta assembleia má, que se queixa contra mim?"
Shemot 23:2
לֹא תִהְיֶה אַחֲרֵי רַבִּים לְרָעֹת, וְלֹא תַעֲנֶה עַל רִב לִנְטֹת אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטֹּת.
"Não seguirás a maioria para o mal, e não responderás em juízo inclinando-te após a maioria para perverter [a justiça]."
A Guemará (Sanhedrin 2a) monta a dedução em cadeia: de Bamidbar 35, a "assembleia" aparece duas vezes — a que condena e a que absolve —, e cada "edá" equivale, por Bamidbar 14, a dez pessoas (os dez exploradores caluniadores, excluídos Yehoshua e Calev, que também faziam parte do grupo de doze). Duas assembleias de dez somam vinte; e de Shemot 23:2 deriva-se que a maioria condenatória precisa exceder a absolutória por pelo menos dois votos — nunca por apenas um —, o que exige mais dois juízes, chegando a vinte e dois; e como nenhum tribunal pode ter número par, acrescenta-se um último, fechando em vinte e três.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a divergência entre Rabi Yehudá e os Sábios sobre incluir Moshé no número de setenta e um, e detalha os cento e vinte cargos que compõem a cidade apta a um Sinédrio, segundo a opinião dos Sábios.

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 1:6
רַבִּי יְהוּדָה לֹא הָיָה מוֹנֶה מֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם מִכְּלַל הַסַּנְהֶדְרִין, לְפִי שֶׁסָּבַר שֶׁמַּה שֶּׁנֶּאֱמַר וְנָשְׂאוּ אִתְּךָ בְּמַשָּׂא הָעָם, אֵין רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁיָּדוּנוּ עִמְּךָ אֶלָּא רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁיָּדוּנוּ בִּמְקוֹמְךָ, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים שֶׁעִנְיָנוֹ יָדוּנוּ עִמְּךָ, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים... וְזֶה מִנְיָנָם: סַנְהֶדְרֵי קְטַנָּה כ"ג, וּשְׁלֹשָׁה שׁוּרוֹת שֶׁל עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה, וַעֲשָׂרָה בַּטְלָנִין שֶׁל בֵּית הַכְּנֶסֶת... וּשְׁנֵי סוֹפְרִים וּשְׁנֵי חַזָּנִים וּשְׁנֵי בַּעֲלֵי דִינִים וּשְׁנֵי עֵדִים וּשְׁנֵי זוֹמְמִין וּשְׁנֵי זוֹמְמֵי זוֹמְמִין וּשְׁנֵי גַּבָּאֵי צְדָקָה וּשְׁלִישִׁי לְחַלֵּק צְדָקָה וְרוֹפֵא אֻמָּן וְלַבְלָר וּמְלַמֵּד תִּינוֹקוֹת, הֲרֵי מֵאָה וְעֶשְׂרִים.

Rambam explica a raiz da divergência entre Rabi Yehudá e os Sábios: o versículo diz que os setenta anciãos "levarão contigo o fardo do povo" — Rabi Yehudá entende essa expressão como "julgarão em teu lugar", isto é, como substitutos de Moshé, e por isso não conta Moshé como membro adicional do tribunal; os Sábios entendem "julgarão contigo", isto é, junto com Moshé, que participa como o septuagésimo primeiro membro — e a halachá segue os Sábios. Sobre os cento e vinte homens necessários para instalar um sinédrio, Rambam detalha, seguindo o Talmud, exatamente quais cargos e ofícios precisam existir numa cidade: o próprio sinédrio de vinte e três, três fileiras de vinte e três estudantes assistindo ao tribunal, dez homens "ociosos" dedicados ao estudo e à sinagoga, dois escrivães, dois cantores, duas partes litigantes, duas testemunhas, duas testemunhas conspiradoras (e mais duas para desmascará-las), dois tesoureiros de caridade mais um terceiro para distribuí-la, um médico habilidoso, um escriba e um professor de crianças — somando ao todo cento e vinte.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Sanhedrin 2a-2b), fechando o mesmo encadeamento de versículos citado nas Fontes bíblicas, e explicando o número duzentos e trinta de Rabi Nechemia.

Rashi · רש״י
Sanhedrin 2a-2b, s.v. עדה שופטת; לעדה הרעה; לרעות; ואין בית דין שקול; מאתים ושלשים
עֵדָה שׁוֹפֶטֶת — עֲשָׂרָה מְחַיְּבִין. וְעֵדָה מַצֶּלֶת — עֲשָׂרָה מְזַכִּין, אַשְׁמְעִינַן קְרָא דְּצָרִיךְ עֶשְׂרִים, שֶׁאִם יֵחָלְקוּ יִהְיוּ עֲשָׂרָה מְחַיְּבִין וַעֲשָׂרָה מְזַכִּין... וְאֵין בֵּית דִּין שָׁקוּל — אֵין עוֹשִׂין בֵּית דִּין זוּגוֹת, שֶׁאִם יֵחָלְקוּ לַחֲצָאִין הֲוֵי לְהוּ פַּלְגָּא וּפַלְגָּא, וְלֹא מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ הַטָּיָתְךָ לְטוֹבָה עַל פִּי אֶחָד... מָאתַיִם וּשְׁלֹשִׁים — דְּהַיְנוּ כ"ג עֲשִׂירִיּוֹת, שֶׁיְּהֵא כָּל אֶחָד מִבֵּית דִּין שַׂר עַל עֲשָׂרָה, דְּבָצִיר מֵעֲשָׂרָה לָא אַשְׁכְּחָן שְׂרָרָה.

Rashi confirma passo a passo a mesma dedução: "assembleia que julga" refere-se a dez juízes votando pela condenação, e "assembleia que salva" a dez votando pela absolvição — ensinando que já são necessários vinte juízes para que, mesmo em caso de empate exato, haja dez de cada lado. E explica o princípio de nunca formar um tribunal com número par: se fosse par, um empate exato tornaria impossível garantir que a inclinação para a absolvição — que basta por um único voto de maioria — pudesse ocorrer de forma clara. Sobre a opinião de Rabi Nechemia, Rashi explica a conta: duzentos e trinta equivale a vinte e três "dezenas", pois cada um dos vinte e três juízes do sinédrio é concebido como "chefe" simbólico de dez pessoas — e a menor unidade de liderança reconhecida na tradição é justamente o comando sobre um grupo de dez.