Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Dalet · Mishná 7 de 9

O segundo é quem toca

הָעוֹבֵר לִפְנֵי הַתֵּבָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Numa mishná breve, o texto define qual dos dois oficiantes da sinagoga — o que lidera a oração da manhã ou o que lidera a de Musaf — é responsável por tocar o shofar em Rosh Hashaná, e faz um paralelo com a leitura do Hallel em outros dias festivos.

Quem passa diante da arca no dia festivo de Rosh Hashaná — o segundo é quem toca.Entre os dois oficiantes que lideram as orações do dia — o primeiro, que conduz a Amidá da manhã, Shacharit, e o segundo, que conduz a Amidá adicional, Musaf — é o segundo, o oficiante de Musaf, quem tem a responsabilidade de tocar o shofar em nome da congregação.

E na hora do Hallel, o primeiro é quem o lê.Em contraste, nos demais dias festivos em que se recita o Hallel — o que não ocorre em Rosh Hashaná — é o primeiro oficiante, o da oração matinal, quem tem a responsabilidade de conduzir sua leitura para a congregação.

הָעוֹבֵר לִפְנֵי הַתֵּבָה בְּיוֹם טוֹב שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה, הַשֵּׁנִי מַתְקִיעַ. וּבִשְׁעַת הַהַלֵּל, רִאשׁוֹן מַקְרֵא אֶת הַהַלֵּל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Tehilim 2:11
עִבְדוּ אֶת ה' בְּיִרְאָה, וְגִילוּ בִּרְעָדָה.
Servi ao Eterno com temor, e alegrai-vos com tremor.

A ausência do Hallel em Rosh Hashaná, subentendida na segunda cláusula desta mishná, decorre precisamente do caráter singular do dia como início do período dos Dez Dias de Arrependimento — um tempo de temor e submissão diante do juízo divino, e não de celebração exuberante. A tradição associa essa ausência à leitura homilética deste verso de Tehilim, que combina "temor" com "alegria" e "tremor" — sugerindo que há dias em que servir a D'us exige mais tremor do que canto festivo. Rosh Hashaná e Yom Kipur, os dois únicos dias festivos sem Hallel no calendário judaico, compartilham esse caráter: são dias de oração, súplica e busca por perdão, incompatíveis com a exultação musical que caracteriza o Hallel recitado em Sucot, Pessach e Shavuot.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam e Bartenura explicam a origem histórica dessa divisão de funções entre os dois oficiantes, remontando a uma época de perseguição religiosa.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:7
לֹא הִתְקִינוּ זֶה אֶלָּא בְּעֵת צָרָה, לְפִי שֶׁהָיוּ שׁוֹמְרִין לְאוֹתוֹ שֶׁהָיָה מִתְפַּלֵּל שַׁחֲרִית שֶׁלֹּא יִתְקַע בַּשּׁוֹפָר, וּכְשֶׁהָיוּ מַשְׁלִימִין הַתְּפִלָּה הָיוּ הַשּׁוֹמְרִים הוֹלְכִים לְדַרְכָּם, וּלְפִיכָךְ אוֹתוֹ שֶׁהָיָה עוֹבֵר לִפְנֵי הַתֵּבָה לְהִתְפַּלֵּל תְּפִלַּת מוּסָף הָיָה תּוֹקֵעַ.

Esta instituição não foi feita senão em época de perseguição religiosa — pois havia vigias postados para impedir que quem liderasse a oração da manhã tocasse o shofar, e apenas quando a oração terminava é que esses vigias se retiravam. Por isso, ficou estabelecido que fosse o oficiante da oração de Musaf, celebrada depois, quem tocasse o shofar — uma medida de segurança que, mesmo depois de cessada a perseguição, permaneceu como a prática fixa.

Bartenura · Rosh Hashaná 4:7
וּבִשְׁעַת הַהַלֵּל. מִשּׁוּם דְּאֵין אוֹמְרִים הַלֵּל בְּרֹאשׁ הַשָּׁנָה וּבְיוֹם הַכִּפּוּרִים, קָתָנֵי "וּבִשְׁעַת הַהַלֵּל", כְּלוֹמַר בִּשְׁאָר יוֹם טוֹב שֶׁאוֹמְרִים הַלֵּל.

"E na hora do Hallel" — como não se recita o Hallel em Rosh Hashaná nem em Yom Kipur, a mishná ensina "e na hora do Hallel" referindo-se, na verdade, aos demais dias festivos, nos quais o Hallel é de fato recitado — um esclarecimento necessário, pois de outro modo se poderia supor equivocadamente que a mishná também tratava do próprio Rosh Hashaná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica o oficiante de Musaf como o responsável pela tocada, reforçando a mesma distinção histórica explicada por Rambam e Bartenura.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 32b
מַתְנִי׳ הָעוֹבֵר לִפְנֵי הַתֵּבָה כוּ׳ הַשֵּׁנִי מַתְקִיעַ — הַמִּתְפַּלֵּל תְּפִלַּת מוּסָפִין מַתְקִיעַ.

"Nossa mishná: quem passa diante da arca" etc., "o segundo é quem toca" — refere-se especificamente àquele que conduz a oração de Musaf, distinguindo-o claramente do oficiante da oração matinal, que não tem essa responsabilidade — uma divisão de funções cuja origem remonta, como explicam os demais comentaristas, à necessidade de proteger a mitzvá do shofar numa época em que sua prática era perseguida.