O shofar de Rosh Hashaná era de cabra montês, reto, e sua boca era revestida de ouro, e havia duas trombetas dos lados. — No Templo, o shofar usado em Rosh Hashaná era feito do chifre reto de uma cabra montês, com a extremidade pela qual se sopra revestida de ouro; ao lado do tocador do shofar, uma de cada lado, posicionavam-se duas trombetas.
O shofar prolonga, e as trombetas encurtam, pois a mitzvá do dia está no shofar. — Quando os dois instrumentos soavam juntos, o toque do shofar se estendia além do das trombetas, de modo que seu som permanecesse audível mesmo depois que as trombetas silenciassem — refletindo o fato de que a obrigação central do dia recai sobre o shofar, e as trombetas cumprem apenas um papel acessório e cerimonial.
Segundo Rambam, este verso é a fonte de todo o cerimonial combinado de shofar e trombetas no Templo, exclusivo do serviço sagrado. Fora do Templo, o shofar é tocado sozinho em Rosh Hashaná, sem o acompanhamento de trombetas — pois a leitura tradicional do verso lê "perante o Rei, o Eterno" como uma qualificação: apenas no ambiente que está literalmente "perante o Rei" — o Templo, sede da presença divina revelada — se combinam os dois instrumentos; em qualquer outro lugar, não. A distinção entre os shofarot de Rosh Hashaná, retos e revestidos de ouro, e os das taanyot públicas, curvos e revestidos de prata, expressa ainda um segundo princípio: no dia do juízo, o coração humano deve se manter reto e ereto diante de D'us, enquanto nos dias de jejum e súplica ele deve se curvar em humildade.
Rambam explica que este cerimonial pertence exclusivamente ao Templo, e Bartenura detalha a lógica do formato reto e do prolongamento do toque do shofar.
Esta ordem combinada de shofar e trombetas só existia no Templo, conforme diz o versículo "com trombetas e som de shofar, aclamai perante o Rei, o Eterno" — a expressão "perante o Rei, o Eterno" designando especificamente o Templo. Fora do Templo, porém, não se toca em Rosh Hashaná senão o shofar sozinho, sem o acompanhamento das trombetas.
"De cabra montês, reto" — porque, para a oração, requeremos instrumentos retos, não curvos. "E sua boca revestida de ouro" — a mishná fala especificamente do shofar usado no Templo, onde tal ornamento era possível; fora dele, o shofar comum não é assim revestido. "O shofar prolonga" — depois que as trombetas encerram sua tocada, ainda se ouve o som do shofar continuando a soar, garantindo que o som distintivo da mitzvá do dia predomine sobre o das trombetas.
Rashi identifica a cabra montês, explica a analogia entre esta mishná e a de Rosh Hashaná com o Iovel, tratada em conjunto na mesma passagem da Guemará.
"Nossa mishná: o shofar de Rosh Hashaná de cabra montês, reto" — a Guemará explica a razão: tudo o que se relaciona à oração requer retidão de forma. "Iável" — a cabra montês, identificada na glosa em língua vernácula como o animal conhecido por "steinbock". "E sua boca revestida de ouro" — refere-se especificamente ao shofar usado no Templo. "O shofar prolonga" — depois que as trombetas cessam sua tocada, ainda se escuta o som do shofar prosseguindo.