Viram-no o tribunal e todo Israel, foram interrogadas as testemunhas, e não conseguiram dizer "santificado" até que escureceu — eis que este é intercalado. — Mesmo quando o tribunal inteiro e todo o povo viram a lua nova com os próprios olhos, isso não dispensa o procedimento formal de interrogatório de testemunhas e a proclamação verbal "santificado, santificado". Se a noite chegou antes que essa proclamação fosse feita, o mês anterior é declarado meubar — pleno, de trinta dias — e o novo mês só começa no dia seguinte, mesmo que a lua já tivesse aparecido na noite do trigésimo dia.
Viram-no o tribunal somente — levantem-se dois e testemunhem diante deles, e digam: santificado, santificado. — Quando apenas os membros do tribunal, e não o povo em geral, viram a lua nova, dois deles devem se levantar e testemunhar formalmente perante os demais, que então pronunciam a fórmula de santificação — pois a visão pessoal dos juízes, por si só, ainda que sejam eles os responsáveis pela proclamação, não substitui o ato formal de testemunho.
Viram-no três, e eles são tribunal — levantem-se os dois e sentem dentre seus colegas junto ao indivíduo, e testemunhem diante deles, e digam: santificado, santificado, pois o indivíduo não é confiável por si mesmo. — Se três homens qualificados para servir como juízes virem juntos a lua nova, dois deles se levantam, trazem dois outros colegas para sentar ao lado do terceiro — formando assim um novo tribunal de três — e testemunham perante esse tribunal recém-constituído, que então proclama a santificação. Isso é necessário porque, mesmo sendo apto a julgar, um único indivíduo não tem autoridade para santificar o mês sozinho; a santificação exige sempre um tribunal de ao menos três.
A exigência de um tribunal de três, e não de um único indivíduo, para a santificação do mês repousa sobre o princípio geral de que todo julgamento requer uma pluralidade de juízes. Assim como o exame de lesões cutâneas e toda contenda jurídica são confiados à palavra coletiva do tribunal, também a fixação do novo mês — que a Escritura trata como um ato de juízo, não de mera constatação astronômica — exige a deliberação e a proclamação formal de um colegiado. É por isso que a mishná insiste que, mesmo quando três pessoas comuns testemunham juntas a lua nova, elas não podem simplesmente declará-la santificada por sua própria autoridade: é preciso que se constituam, formalmente, em tribunal, trazendo outros dois membros para validar o testemunho de dois entre os três originais perante um colegiado devidamente formado.
Rambam e Bartenura explicam por que a santificação não pode ocorrer à noite mesmo quando a lua já foi vista, e o mecanismo pelo qual três pessoas comuns se transformam em tribunal.
"Viram-no o tribunal e todo Israel, foram interrogadas as testemunhas etc." — poderia vir à mente que, uma vez que o tribunal e todo o povo já viram a lua com os próprios olhos, não seria mais necessária a proclamação formal, já que o fato já é público e notório. Por isso a mishná nos informa que, de qualquer maneira, é preciso dizer "santificado, santificado", e só então aquele dia se torna Rosh Chodesh. E é igualmente por isso que a santificação do mês não pode acontecer à noite, ainda que as testemunhas tenham sido interrogadas de dia e sua declaração ficasse pendente apenas da proclamação final — pois a Escritura chama a fixação do mês de juízo, e todo juízo se faz de dia, não de noite.
"Levantem-se dois e sentem dentre seus colegas junto ao indivíduo" — a mishná trata aqui do caso em que o próprio tribunal viu a lua durante a noite do trigésimo dia, quando não é possível santificar o mês à noite. Por isso, no dia seguinte, dois deles se levantam e testemunham formalmente diante dos demais, pois sem esse testemunho formal não haveria base para a proclamação. Já quando três pessoas comuns e não membros do tribunal veem juntas a lua nova, elas mesmas precisam se constituir em tribunal antes de poder proclamar a santificação — pois a Torá exige, no mínimo, três juízes reunidos, e um indivíduo isolado, por mais especialista que seja, não tem autoridade sobre a santificação do mês.
Rashi remete o leitor à Guemará para o detalhe do procedimento de interrogatório das testemunhas nesse cenário.
"Viram-no o tribunal e todo Israel, e foram interrogadas as testemunhas" — a Guemará esclarece o sentido exato dessa cláusula, explicando ainda que a expressão pode ser entendida como referindo-se a um interrogatório distinto e adicional das testemunhas, mesmo depois que o próprio tribunal já as tivesse visto com os olhos.