Rabán Gamliel enviou-lhe: Decreto sobre ti que venhas a mim com teu bastão e teu dinheiro no dia que, segundo teu cálculo, é Iom Kipur. — Ao saber que Rabi Yehoshua contestava sua decisão sobre o calendário, Rabán Gamliel, como chefe do tribunal, ordenou-lhe que comparecesse diante dele portando bastão e dinheiro — objetos cujo uso é proibido em Iom Kipur — precisamente no dia que, segundo o próprio cálculo de Rabi Yehoshua, seria Iom Kipur, forçando-o a violar publicamente aquilo que considerava o dia sagrado.
Foi Rabi Akiva e o encontrou angustiado; disse-lhe: Tenho o que aprender, que tudo o que fez Rabán Gamliel é válido, pois está dito: Estas são as festas do Eterno, convocações sagradas, que convocareis — seja em seu tempo, seja fora de seu tempo, não tenho festas senão estas. — Rabi Akiva encontra Rabi Yehoshua profundamente angustiado com a ordem, e busca consolá-lo apresentando um fundamento bíblico sólido: o próprio verso que estabelece as festas as define pela proclamação do tribunal, "que convocareis", de modo que, certa ou errada a proclamação, ela se torna a data válida — não existe outra festa senão a que o tribunal proclamou.
Foi ele a Rabi Dosa ben Harkinas; disse-lhe: Se viermos a julgar após o tribunal de Rabán Gamliel, teremos de julgar após todo tribunal que existiu desde os dias de Moshé até agora, pois está dito: E subiu Moshé, e Aharón, Nadav e Avihú, e setenta dos anciãos de Israel. — Rabi Yehoshua busca então Rabi Dosa ben Harkinas, que reforça o argumento com outro fundamento: questionar a autoridade do tribunal de Rabán Gamliel abriria caminho para questionar a autoridade de qualquer tribunal da história de Israel, incluindo o do próprio Moshé, mencionado junto aos setenta anciãos naquele verso do Sinai.
E por que não foram especificados os nomes dos anciãos? Senão para ensinar que todo grupo de três que se estabelece como tribunal sobre Israel é como o tribunal de Moshé. — O fato de a Torá não nomear individualmente aqueles setenta anciãos ensina que a autoridade do tribunal não depende da grandeza pessoal de seus membros, mas da própria função — de modo que qualquer tribunal legitimamente constituído, mesmo de apenas três juízes, possui a mesma autoridade formal que o tribunal presidido pelo próprio Moshé.
Tomou seu bastão e seu dinheiro em sua mão, e foi a Iavne, a Rabán Gamliel, no dia que, segundo seu cálculo, era Iom Kipur. — Convencido pelos argumentos de Rabi Akiva e Rabi Dosa, Rabi Yehoshua se submete à decisão do tribunal e comparece diante de Rabán Gamliel exatamente como fora ordenado.
Levantou-se Rabán Gamliel e beijou-o na cabeça; disse-lhe: Vem em paz, meu mestre e meu discípulo — meu mestre em sabedoria, e meu discípulo porque aceitaste minhas palavras. — Longe de humilhar Rabi Yehoshua, Rabán Gamliel o recebe com o máximo de honra e ternura, reconhecendo publicamente sua superioridade intelectual ao mesmo tempo em que celebra sua submissão à autoridade institucional do tribunal — encerrando o episódio não em vitória de um sobre o outro, mas em reconciliação mútua.
É o mesmo verso que fecha o Perek Alef, citado agora por Rabi Akiva como o fundamento decisivo de toda a disputa entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua. A leitura tradicional destaca a palavra "אתם" embutida em "אשר תקראו אתם" — "que convocareis vós" — como transferindo para as mãos do tribunal humano, e não do céu, a autoridade final sobre a data das festas. É essa mesma leitura que Rabi Akiva evoca aqui: o poder de proclamar "seja em seu tempo, seja fora de seu tempo" não é uma licença para o erro, mas o reconhecimento de que a Torá deliberadamente colocou a fixação do calendário sagrado nas mãos humanas — com toda a falibilidade que isso implica — e não em um cálculo celestial infalível. A disputa entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua não é, portanto, sobre quem calculou corretamente a lua, mas sobre se a autoridade institucional do tribunal, uma vez exercida, deve prevalecer mesmo sobre o cálculo pessoal mais correto de um sábio individual — e o verso, na leitura de Rabi Akiva, responde que sim.
Bartenura explica o raciocínio de Rabi Dosa sobre a comparação com o tribunal de Moshé, e a razão de os nomes dos setenta anciãos não terem sido especificados na Torá.
"E por que não foram especificados os nomes etc." — para que, se alguém viesse a questionar o tribunal de seus próprios dias, dizendo "acaso este tribunal se compara a Moshé e Aharón, ou a Eldad e Meidad", responder-lhe-iam: talvez ele seja tão importante quanto aqueles anciãos cujos nomes não foram especificados — pois se a própria Torá não considerou necessário nomeá-los individualmente, isso ensina que sua autoridade não dependia de grandeza pessoal reconhecida, mas da própria função de julgar sobre Israel.
"Rabán Gamliel enviou-lhe: decreto sobre ti que venhas etc." — isto é claro e verdadeiro, pois estabelece definitivamente que a autoridade do tribunal em fixar o calendário prevalece mesmo diante do cálculo individual mais preciso de um sábio, princípio que se tornaria fundamental para toda a estabilidade do calendário judaico ao longo das gerações.
Rashi explica o estado de angústia de Rabi Yehoshua e a leitura homilética de "atem" no verso citado por Rabi Akiva.
"Foi e o encontrou" — foi Rabi Akiva e encontrou Rabi Yehoshua angustiado, porque o Nasi decretara sobre ele que profanasse o Yom Kipur, segundo seu próprio cálculo do dia sagrado. "Que convocareis" — a Escritura vinculou a validade das festas à proclamação do tribunal, e não a um cálculo astronômico abstrato independente dessa proclamação. "Foi ele" — Rabi Yehoshua, à casa de Rabi Dosa, em busca de mais uma opinião antes de decidir se se submeteria ao decreto do Nasi.
Aqui se completa o Perek Bet — nove mishnayot dedicadas ao exame das testemunhas pelo tribunal: a exigência de reconhecimento pessoal e a instituição contra os minim (2:1), o sistema de fachos e sua substituição por mensageiros após a sabotagem dos cutim, com sua técnica e rota detalhadas (2:2-2:4), o pátio de Beit Yaazek e a instituição do techum de dois mil côvados por Rabán Gamliel o Velho (2:5), o protocolo minucioso de interrogatório das testemunhas sobre a posição da lua (2:6), a fórmula pública de santificação do mês e a opinião discordante de Rabi Elazar bar Rabi Tzadok (2:7), e o par de episódios que culminam no confronto e na reconciliação entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua sobre os limites da autoridade do tribunal (2:8-2:9). O tratado prossegue no Perek Guimel, sobre o shofar e sua tocada.