Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Bet · Mishná 9 de 9 (última do perek)

Vem em paz, meu mestre e meu discípulo

שָׁלַח לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fechando o Perek Bet, a mishná narra o desfecho da disputa iniciada na mishná anterior: o decreto de Rabán Gamliel contra Rabi Yehoshua, a intervenção consoladora de Rabi Akiva, o argumento decisivo de Rabi Dosa ben Harkinas sobre a autoridade de todo tribunal, e a reconciliação final entre o Nasi e seu discípulo mais notável.

Rabán Gamliel enviou-lhe: Decreto sobre ti que venhas a mim com teu bastão e teu dinheiro no dia que, segundo teu cálculo, é Iom Kipur.Ao saber que Rabi Yehoshua contestava sua decisão sobre o calendário, Rabán Gamliel, como chefe do tribunal, ordenou-lhe que comparecesse diante dele portando bastão e dinheiro — objetos cujo uso é proibido em Iom Kipur — precisamente no dia que, segundo o próprio cálculo de Rabi Yehoshua, seria Iom Kipur, forçando-o a violar publicamente aquilo que considerava o dia sagrado.

Foi Rabi Akiva e o encontrou angustiado; disse-lhe: Tenho o que aprender, que tudo o que fez Rabán Gamliel é válido, pois está dito: Estas são as festas do Eterno, convocações sagradas, que convocareis — seja em seu tempo, seja fora de seu tempo, não tenho festas senão estas.Rabi Akiva encontra Rabi Yehoshua profundamente angustiado com a ordem, e busca consolá-lo apresentando um fundamento bíblico sólido: o próprio verso que estabelece as festas as define pela proclamação do tribunal, "que convocareis", de modo que, certa ou errada a proclamação, ela se torna a data válida — não existe outra festa senão a que o tribunal proclamou.

Foi ele a Rabi Dosa ben Harkinas; disse-lhe: Se viermos a julgar após o tribunal de Rabán Gamliel, teremos de julgar após todo tribunal que existiu desde os dias de Moshé até agora, pois está dito: E subiu Moshé, e Aharón, Nadav e Avihú, e setenta dos anciãos de Israel.Rabi Yehoshua busca então Rabi Dosa ben Harkinas, que reforça o argumento com outro fundamento: questionar a autoridade do tribunal de Rabán Gamliel abriria caminho para questionar a autoridade de qualquer tribunal da história de Israel, incluindo o do próprio Moshé, mencionado junto aos setenta anciãos naquele verso do Sinai.

E por que não foram especificados os nomes dos anciãos? Senão para ensinar que todo grupo de três que se estabelece como tribunal sobre Israel é como o tribunal de Moshé.O fato de a Torá não nomear individualmente aqueles setenta anciãos ensina que a autoridade do tribunal não depende da grandeza pessoal de seus membros, mas da própria função — de modo que qualquer tribunal legitimamente constituído, mesmo de apenas três juízes, possui a mesma autoridade formal que o tribunal presidido pelo próprio Moshé.

Tomou seu bastão e seu dinheiro em sua mão, e foi a Iavne, a Rabán Gamliel, no dia que, segundo seu cálculo, era Iom Kipur.Convencido pelos argumentos de Rabi Akiva e Rabi Dosa, Rabi Yehoshua se submete à decisão do tribunal e comparece diante de Rabán Gamliel exatamente como fora ordenado.

Levantou-se Rabán Gamliel e beijou-o na cabeça; disse-lhe: Vem em paz, meu mestre e meu discípulo — meu mestre em sabedoria, e meu discípulo porque aceitaste minhas palavras.Longe de humilhar Rabi Yehoshua, Rabán Gamliel o recebe com o máximo de honra e ternura, reconhecendo publicamente sua superioridade intelectual ao mesmo tempo em que celebra sua submissão à autoridade institucional do tribunal — encerrando o episódio não em vitória de um sobre o outro, mas em reconciliação mútua.

שָׁלַח לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל, גּוֹזְרַנִי עָלֶיךָ שֶׁתָּבֹא אֶצְלִי בְּמַקֶּלְךָ וּבִמְעוֹתֶיךָ בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּחֶשְׁבּוֹנְךָ. הָלַךְ וּמְצָאוֹ רַבִּי עֲקִיבָא מֵצֵר, אָמַר לוֹ, יֶשׁ לִי לִלְמוֹד שֶׁכָּל מַה שֶּׁעָשָׂה רַבָּן גַּמְלִיאֵל עָשׂוּי, שֶׁנֶּאֱמַר, אֵלֶּה מוֹעֲדֵי יְיָ מִקְרָאֵי קֹדֶשׁ, אֲשֶׁר תִּקְרְאוּ אֹתָם, בֵּין בִּזְמַנָּן בֵּין שֶׁלֹּא בִזְמַנָּן, אֵין לִי מוֹעֲדוֹת אֶלָּא אֵלּוּ. בָּא לוֹ אֵצֶל רַבִּי דוֹסָא בֶּן הַרְכִּינָס, אָמַר לוֹ, אִם בָּאִין אָנוּ לָדוּן אַחַר בֵּית דִּינוֹ שֶׁל רַבָּן גַּמְלִיאֵל, צְרִיכִין אָנוּ לָדוּן אַחַר כָּל בֵּית דִּין וּבֵית דִּין שֶׁעָמַד מִימוֹת משֶׁה וְעַד עַכְשָׁיו, שֶׁנֶּאֱמַר, וַיַּעַל משֶׁה וְאַהֲרֹן נָדָב וַאֲבִיהוּא וְשִׁבְעִים מִזִּקְנֵי יִשְׂרָאֵל. וְלָמָּה לֹא נִתְפָּרְשׁוּ שְׁמוֹתָן שֶׁל זְקֵנִים, אֶלָּא לְלַמֵּד, שֶׁכָּל שְׁלשָׁה וּשְׁלשָׁה שֶׁעָמְדוּ בֵית דִּין עַל יִשְׂרָאֵל, הֲרֵי הוּא כְבֵית דִּינוֹ שֶׁל משֶׁה. נָטַל מַקְלוֹ וּמְעוֹתָיו בְּיָדוֹ, וְהָלַךְ לְיַבְנֶה אֵצֶל רַבָּן גַּמְלִיאֵל בְּיוֹם שֶׁחָל יוֹם הַכִּפּוּרִים לִהְיוֹת בְּחֶשְׁבּוֹנוֹ. עָמַד רַבָּן גַּמְלִיאֵל וּנְשָׁקוֹ עַל רֹאשׁוֹ, אָמַר לוֹ, בֹּא בְשָׁלוֹם, רַבִּי וְתַלְמִידִי, רַבִּי בְחָכְמָה, וְתַלְמִידִי שֶׁקִּבַּלְתָּ דְּבָרָי:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 23:4
אֵלֶּה מוֹעֲדֵי ה', מִקְרָאֵי קֹדֶשׁ, אֲשֶׁר תִּקְרְאוּ אֹתָם בְּמוֹעֲדָם.
Estas são as festas do Eterno, convocações sagradas, que convocareis em seu tempo determinado.

É o mesmo verso que fecha o Perek Alef, citado agora por Rabi Akiva como o fundamento decisivo de toda a disputa entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua. A leitura tradicional destaca a palavra "אתם" embutida em "אשר תקראו אתם" — "que convocareis vós" — como transferindo para as mãos do tribunal humano, e não do céu, a autoridade final sobre a data das festas. É essa mesma leitura que Rabi Akiva evoca aqui: o poder de proclamar "seja em seu tempo, seja fora de seu tempo" não é uma licença para o erro, mas o reconhecimento de que a Torá deliberadamente colocou a fixação do calendário sagrado nas mãos humanas — com toda a falibilidade que isso implica — e não em um cálculo celestial infalível. A disputa entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua não é, portanto, sobre quem calculou corretamente a lua, mas sobre se a autoridade institucional do tribunal, uma vez exercida, deve prevalecer mesmo sobre o cálculo pessoal mais correto de um sábio individual — e o verso, na leitura de Rabi Akiva, responde que sim.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica o raciocínio de Rabi Dosa sobre a comparação com o tribunal de Moshé, e a razão de os nomes dos setenta anciãos não terem sido especificados na Torá.

Bartenura · Rosh Hashaná 2:9
לָמָּה לֹא נִתְפָּרְשׁוּ שְׁמוֹתָן וְכוּ'. שֶׁאִם יָבֹא אָדָם לָדוּן אַחַר בֵּית דִּין שֶׁבְּיָמָיו, לוֹמַר וְכִי בֵּית דִּין זֶה כְּמֹשֶׁה וְאַהֲרֹן אוֹ כְּאֶלְדָּד וּמֵידָד, אוֹמְרִים לוֹ שֶׁמָּא חָשׁוּב הוּא כְּאוֹתָן שֶׁנִּשְׁאֲרוּ שֶׁלֹּא נִתְפָּרְשׁוּ שְׁמוֹתָן.

"E por que não foram especificados os nomes etc." — para que, se alguém viesse a questionar o tribunal de seus próprios dias, dizendo "acaso este tribunal se compara a Moshé e Aharón, ou a Eldad e Meidad", responder-lhe-iam: talvez ele seja tão importante quanto aqueles anciãos cujos nomes não foram especificados — pois se a própria Torá não considerou necessário nomeá-los individualmente, isso ensina que sua autoridade não dependia de grandeza pessoal reconhecida, mas da própria função de julgar sobre Israel.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 2:9
שָׁלַח לוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל גּוֹזְרַנִי עָלֶיךָ שֶׁתָּבֹא כוּ': זֶה מְבֹאָר וֶאֱמֶת.

"Rabán Gamliel enviou-lhe: decreto sobre ti que venhas etc." — isto é claro e verdadeiro, pois estabelece definitivamente que a autoridade do tribunal em fixar o calendário prevalece mesmo diante do cálculo individual mais preciso de um sábio, princípio que se tornaria fundamental para toda a estabilidade do calendário judaico ao longo das gerações.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o estado de angústia de Rabi Yehoshua e a leitura homilética de "atem" no verso citado por Rabi Akiva.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 25a
הָלַךְ וּמְצָאוֹ — הָלַךְ וּמְצָאוֹ רַבִּי עֲקִיבָא לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מֵצֵר עַל שֶׁהַנָּשִׂיא גָּזַר עָלָיו לְחַלֵּל אֶת יוֹם הַכִּפּוּרִים: אֲשֶׁר תִּקְרְאוּ — בִּקְרִיאַת בֵּית דִּין תְּלָאוֹ הַכָּתוּב: בָּא לוֹ — רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אֵצֶל רַבִּי דוֹסָא.

"Foi e o encontrou" — foi Rabi Akiva e encontrou Rabi Yehoshua angustiado, porque o Nasi decretara sobre ele que profanasse o Yom Kipur, segundo seu próprio cálculo do dia sagrado. "Que convocareis" — a Escritura vinculou a validade das festas à proclamação do tribunal, e não a um cálculo astronômico abstrato independente dessa proclamação. "Foi ele" — Rabi Yehoshua, à casa de Rabi Dosa, em busca de mais uma opinião antes de decidir se se submeteria ao decreto do Nasi.

Aqui se completa o Perek Bet — nove mishnayot dedicadas ao exame das testemunhas pelo tribunal: a exigência de reconhecimento pessoal e a instituição contra os minim (2:1), o sistema de fachos e sua substituição por mensageiros após a sabotagem dos cutim, com sua técnica e rota detalhadas (2:2-2:4), o pátio de Beit Yaazek e a instituição do techum de dois mil côvados por Rabán Gamliel o Velho (2:5), o protocolo minucioso de interrogatório das testemunhas sobre a posição da lua (2:6), a fórmula pública de santificação do mês e a opinião discordante de Rabi Elazar bar Rabi Tzadok (2:7), e o par de episódios que culminam no confronto e na reconciliação entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua sobre os limites da autoridade do tribunal (2:8-2:9). O tratado prossegue no Perek Guimel, sobre o shofar e sua tocada.