Seis coisas fizeram os homens de Jericó: por três não protestaram contra eles, e por três protestaram contra eles. — Jericó, cidade célebre por suas tamareiras e por costumes próprios, mantinha seis práticas distintas do restante do povo. A mishná não as julga em bloco: ela reconhece que os Sábios da época avaliaram cada uma segundo seu próprio mérito, tolerando três delas — mesmo sem aprová-las abertamente — e se opondo firmemente às outras três.
E estas são as que não protestaram contra eles: enxertam tamareiras o dia inteiro, e recitam o Shemá emendado, e colhem e empilham antes do Omer, e não protestaram contra eles. — O enxerto de tamareiras em catorze de Nissan — trabalho agrícola comum — foi tolerado, pois se tratava de uma técnica especializada de horticultura, própria de Jericó. Recitar o Shemá "emendado", sem a pausa costumeira entre a aceitação do jugo celestial e o restante da leitura, também não foi condenado, por não constituir erro substancial. E colher e empilhar o grão novo antes da oferenda do Omer — desde que não se comesse dele — foi igualmente tolerado, pois o produto de Jericó, um vale profundo, não era de qualidade apta para a própria oferenda do Omer.
E estas são as que protestaram contra eles: permitem os brotos de coisas consagradas, e comem sob as árvores no shabat, e dão peá à verdura — e os Sábios protestaram contra eles. — Aqui, os Sábios não se calaram. Permitir o uso dos brotos que cresciam depois em árvores já consagradas ao Templo — sob o argumento de que só o fruto original, e não os novos brotos, estava proibido — foi rejeitado. Comer, no shabat, frutos encontrados caídos sob a árvore, sem saber se haviam caído antes ou depois da entrada do dia, também foi condenado, por envolver dúvida real de proibição. E dar peá — a porção reservada aos pobres na colheita — à verdura, um produto que não se guarda para durar, contrariava o princípio de que só se separa peá de algo destinado à conservação; além disso, isso confundia os pobres, que a comiam sem separar o dízimo devido, pensando tratar-se de peá legítima.
Este versículo proíbe consumir o novo grão da colheita antes da apresentação da oferenda do Omer — mas a proibição se refere ao consumo, não ao ato de colher e armazenar o grão. É exatamente nessa distinção que se apoia a tolerância da mishná para com os homens de Jericó: colher e empilhar o grão novo antes do Omer não infringe o versículo, desde que ninguém coma dele antes do momento devido — e como o produto de Jericó, por ser de vale, sequer era apto à própria oferenda do Omer, essa prática específica não gerava risco real de transgressão.
O Rambam, no Perush HaMishná, detalha o fundamento de cada uma das seis práticas — tanto as toleradas quanto as repudiadas — explicando por que os Sábios daquela geração reagiram de modo distinto a cada uma.
"Permitem os brotos de coisas consagradas" — isto é, eles permitiam comer os brotos crescidos de árvores consagradas, e diziam que não se proibiu senão o fruto que foi consagrado em si mesmo, mas o que cresce depois no campo consagrado é permitido. "E comem sob as árvores" — pois comiam o que caía dos frutos sob a árvore no shabat e no dia de festa, ainda que fosse dúvida para eles, sem saber se haviam caído na véspera de shabat — e seriam permitidos — ou se haviam caído no próprio shabat — e seriam proibidos.
Rambam distingue as três primeiras práticas, mostrando que nenhuma envolvia transgressão real, da terceira leniência sobre a colheita antes do Omer; Bartenura explica cada uma das seis com maior brevidade; Rashi, na Guemará, detalha o motivo específico do protesto contra a peá da verdura.
"Seis coisas fizeram os homens de Jericó, etc.": destas seis coisas, os Sábios não elogiaram senão as três primeiras — por elas não protestaram; e pelas três mencionadas por último protestaram.
As primeiras são: que enxertam as árvores no dia catorze... "E recitam o Shemá emendado" — isto é, eles não diziam "Baruch shem kevod malchuto" no momento da leitura do Shemá. "E colhem e empilham antes do Omer" — seu sentido é que é permitido colher e empilhar, e não se receia que se venha a comer dele.
"E dão peá à verdura" — já se explicou no tratado Peá que, entre as condições para a obrigação de peá, está que o produto seja destinado à conservação, e as verduras não o são.
"Enxertam tamareiras" — enxerta um ramo tenro de uma tamareira macho numa tamareira fêmea, pois o macho produz frutos e a fêmea não. "E recitam o Shemá emendado" — pois não diziam "Baruch shem kevod malchuto le'olam va'ed" na leitura do Shemá.
"E colhem e empilham" — fazem uma pilha do grão novo antes do Omer, e não temem que se venha a comer dele. "Permitem comer os brotos de coisas consagradas" — o crescido que cresceu numa árvore consagrada, pois entendiam que só se proíbe o fruto que foi consagrado em si.
"E comem" — no shabat e no dia de festa, frutos encontrados sob a árvore, sem saber se caíram na véspera — e seriam permitidos — ou caíram no próprio dia — e seriam proibidos. "E dão peá à verdura" — e nós entendemos que tudo que a pessoa não guarda para conservação não é obrigado em peá, e a verdura é algo que não se guarda para conservação.
"E os Sábios protestaram contra eles" — porque isso a isenta do dízimo, e os pobres a comem sem separar o dízimo, pensando que é peá legítima — e a peá é isenta de dízimo por ser considerada bem abandonado.
"A mishná: e comem sob as árvores" — sob a tamareira que solta seus frutos, comiam dos que caíam; e o motivo de todas se explica na Guemará. "E dão peá à verdura" — e ela é isenta de peá, como se explica na Guemará.
"E protestaram contra eles" — porque isso a isenta do dízimo, pois os pobres comiam a peá ainda não decimada, pensando que era peá completa; e espigas esquecidas, restos da colheita e peá são isentos do dízimo por serem considerados bem abandonado.