Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Dalet · Mishná 8 de 9

Os seis costumes dos homens de Jericó

שִׁשָּׁה דְבָרִים עָשׂוּ אַנְשֵׁי יְרִיחוֹ, עַל שְׁלֹשָׁה מִחוּ בְיָדָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Introduz o tema: os homens de Jericó tinham seis costumes próprios, e os Sábios se dividiram diante deles — três não mereceram protesto, três foram repudiados.

Seis coisas fizeram os homens de Jericó: por três não protestaram contra eles, e por três protestaram contra eles.Jericó, cidade célebre por suas tamareiras e por costumes próprios, mantinha seis práticas distintas do restante do povo. A mishná não as julga em bloco: ela reconhece que os Sábios da época avaliaram cada uma segundo seu próprio mérito, tolerando três delas — mesmo sem aprová-las abertamente — e se opondo firmemente às outras três.

שִׁשָּׁה דְבָרִים עָשׂוּ אַנְשֵׁי יְרִיחוֹ, עַל שְׁלֹשָׁה מִחוּ בְיָדָם, וְעַל שְׁלֹשָׁה לֹא מִחוּ בְיָדָם:
As três práticas toleradas: enxertar tamareiras o dia inteiro de catorze, recitar o Shemá sem pausas entre suas seções, e colher e empilhar grão novo antes da oferenda do Omer.

E estas são as que não protestaram contra eles: enxertam tamareiras o dia inteiro, e recitam o Shemá emendado, e colhem e empilham antes do Omer, e não protestaram contra eles.O enxerto de tamareiras em catorze de Nissan — trabalho agrícola comum — foi tolerado, pois se tratava de uma técnica especializada de horticultura, própria de Jericó. Recitar o Shemá "emendado", sem a pausa costumeira entre a aceitação do jugo celestial e o restante da leitura, também não foi condenado, por não constituir erro substancial. E colher e empilhar o grão novo antes da oferenda do Omer — desde que não se comesse dele — foi igualmente tolerado, pois o produto de Jericó, um vale profundo, não era de qualidade apta para a própria oferenda do Omer.

וְאֵלּוּ הֵן שֶׁלֹּא מִחוּ בְיָדָם, מַרְכִּיבִין דְּקָלִים כָּל הַיּוֹם, וְכוֹרְכִין אֶת שְׁמַע, וְקוֹצְרִין וְגוֹדְשִׁין לִפְנֵי הָעֹמֶר, וְלֹא מִחוּ בְיָדָם:
As três práticas repudiadas: liberar os brotos de árvores consagradas, comer sob as árvores no shabat frutos cuja procedência era duvidosa, e dar peá também à verdura.

E estas são as que protestaram contra eles: permitem os brotos de coisas consagradas, e comem sob as árvores no shabat, e dão peá à verdura — e os Sábios protestaram contra eles.Aqui, os Sábios não se calaram. Permitir o uso dos brotos que cresciam depois em árvores já consagradas ao Templo — sob o argumento de que só o fruto original, e não os novos brotos, estava proibido — foi rejeitado. Comer, no shabat, frutos encontrados caídos sob a árvore, sem saber se haviam caído antes ou depois da entrada do dia, também foi condenado, por envolver dúvida real de proibição. E dar peá — a porção reservada aos pobres na colheita — à verdura, um produto que não se guarda para durar, contrariava o princípio de que só se separa peá de algo destinado à conservação; além disso, isso confundia os pobres, que a comiam sem separar o dízimo devido, pensando tratar-se de peá legítima.

וְאֵלּוּ שֶׁמִּחוּ בְיָדָם, מַתִּירִין גִּמְזִיּוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ, וְאוֹכְלִין מִתַּחַת הַנְּשָׁרִים בְּשַׁבָּת, וְנוֹתְנִים פֵּאָה לַיָּרָק, וּמִחוּ בְיָדָם חֲכָמִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá 23:14
וְלֶחֶם וְקָלִי וְכַרְמֶל לֹא תֹאכְלוּ עַד עֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה, עַד הֲבִיאֲכֶם אֶת קָרְבַּן אֱלֹהֵיכֶם.
E pão, e grão tostado, e espiga fresca não comereis até este mesmo dia, até que tragais a oferenda de vosso Deus.

Este versículo proíbe consumir o novo grão da colheita antes da apresentação da oferenda do Omer — mas a proibição se refere ao consumo, não ao ato de colher e armazenar o grão. É exatamente nessa distinção que se apoia a tolerância da mishná para com os homens de Jericó: colher e empilhar o grão novo antes do Omer não infringe o versículo, desde que ninguém coma dele antes do momento devido — e como o produto de Jericó, por ser de vale, sequer era apto à própria oferenda do Omer, essa prática específica não gerava risco real de transgressão.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, detalha o fundamento de cada uma das seis práticas — tanto as toleradas quanto as repudiadas — explicando por que os Sábios daquela geração reagiram de modo distinto a cada uma.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 4:8
מַתִּירִין גִּמְזִיּוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ. הוּא שֶׁהֵם הָיוּ מַתִּירִין לֶאֱכֹל גִּדּוּלֵי הֶקְדֵּשׁ, וְאָמְרוּ כִּי לֹא נֶאֱסַר אֶלָּא הַפְּרִי שֶׁנִּתְקַדֵּשׁ בְּעַצְמוֹ, אֲבָל מַה שֶּׁצּוֹמֵחַ אַחַר כָּךְ בַּשָּׂדֶה הַקֹּדֶשׁ שֶׁהוּא מֻתָּר. וְאוֹכְלִין מִתַּחַת הַנְּשָׁרִים, שֶׁהָיוּ אוֹכְלִים מַה שֶּׁהָיָה נוֹפֵל מִן הַפֵּרוֹת תַּחַת הָאִילָן בְּשַׁבָּת וּבְיוֹם טוֹב, אַף עַל פִּי שֶׁהָיָה סָפֵק אֶצְלָם וְלֹא הָיוּ יוֹדְעִים אִם מֵעֶרֶב שַׁבָּת נָפְלוּ וְהֵן מֻתָּרִין, אוֹ נָפְלוּ בְּשַׁבָּת וְהֵן אֲסוּרִין:

"Permitem os brotos de coisas consagradas" — isto é, eles permitiam comer os brotos crescidos de árvores consagradas, e diziam que não se proibiu senão o fruto que foi consagrado em si mesmo, mas o que cresce depois no campo consagrado é permitido. "E comem sob as árvores" — pois comiam o que caía dos frutos sob a árvore no shabat e no dia de festa, ainda que fosse dúvida para eles, sem saber se haviam caído na véspera de shabat — e seriam permitidos — ou se haviam caído no próprio shabat — e seriam proibidos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam distingue as três primeiras práticas, mostrando que nenhuma envolvia transgressão real, da terceira leniência sobre a colheita antes do Omer; Bartenura explica cada uma das seis com maior brevidade; Rashi, na Guemará, detalha o motivo específico do protesto contra a peá da verdura.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Pessachim 4:8
שִׁשָּׁה דְבָרִים עָשׂוּ אַנְשֵׁי יְרִיחוֹ כוּ': אֵלּוּ הַשִּׁשָּׁה דְבָרִים לֹא שִׁבְּחוּ אוֹתָם הַחֲכָמִים אֶלָּא הַשְּׁלֹשָׁה מֵהֶם, וְהֵם הָרִאשׁוֹנוֹת, לֹא מִחוּ בְיָדָם. וְהַשְּׁלֹשָׁה הַנִּזְכָּרִים בָּאַחֲרוֹנָה מִחוּ בְיָדָם. הָרִאשׁוֹנוֹת הֵם שֶׁמַּרְכִּיבִין הָאִילָנוֹת יוֹם אַרְבָּעָה עָשָׂר... וְכוֹרְכִין אֶת שְׁמַע, הוּא שֶׁהֵם לֹא הָיוּ אוֹמְרִים בָּרוּךְ שֵׁם כְּבוֹד מַלְכוּתוֹ בִּשְׁעַת קְרִיאַת שְׁמַע, וְקוֹצְרִין וְגוֹדְשִׁין מִלִּפְנֵי הָעֹמֶר עִנְיָנוֹ שֶׁמֻּתָּר לִקְצֹר וְלִגְדֹּשׁ וְלֹא נָחוּשׁ דִּלְמָא אָתֵי לְמֵיכַל מִנֵּיהּ. וְנוֹתְנִין פֵּאָה לַיָּרָק, כְּבָר קָדַם לְךָ בְּמַסֶּכֶת פֵּאָה כִּי מִתְּנָאֵי הַדְּבָרִים שֶׁהֵם חַיָּבִין בְּפֵאָה שֶׁיִּהְיֶה מַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם, וְהַיְרָקוֹת אֵינָן כֵּן:

"Seis coisas fizeram os homens de Jericó, etc.": destas seis coisas, os Sábios não elogiaram senão as três primeiras — por elas não protestaram; e pelas três mencionadas por último protestaram.

As primeiras são: que enxertam as árvores no dia catorze... "E recitam o Shemá emendado" — isto é, eles não diziam "Baruch shem kevod malchuto" no momento da leitura do Shemá. "E colhem e empilham antes do Omer" — seu sentido é que é permitido colher e empilhar, e não se receia que se venha a comer dele.

"E dão peá à verdura" — já se explicou no tratado Peá que, entre as condições para a obrigação de peá, está que o produto seja destinado à conservação, e as verduras não o são.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 4:8
מַרְכִּיבִין דְּקָלִים. עָנָף רַךְ שֶׁל דֶּקֶל זָכָר מַרְכִּיבוֹ בְדֶקֶל נְקֵבָה, שֶׁהַזָּכָר עוֹשֶׂה פֵרוֹת וְהַנְּקֵבָה אֵינָהּ עוֹשָׂה פֵרוֹת: וְכוֹרְכִין אֶת שְׁמַע. שֶׁלֹּא הָיוּ אוֹמְרִים בָּרוּךְ שֵׁם כְּבוֹד מַלְכוּתוֹ לְעוֹלָם וָעֶד בִּקְרִיאַת שְׁמַע: וְקוֹצְרִין וְגוֹדְשִׁין. עוֹשִׂין גָּדִישׁ מִן הֶחָדָשׁ לִפְנֵי הָעֹמֶר, וְלֹא חָיְשִׁינַן דִּלְמָא אָתֵי לְמֵיכַל מִנֵּיהּ: מַתִּירִין לֶאֱכֹל גִּמְזִיּוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ. גִּדּוּלִים שֶׁגָּדְלוּ בְּאִילָן שֶׁל הֶקְדֵּשׁ, דְּקָסָבְרֵי אֵין אִסּוּר אֶלָּא הַפְּרִי עַצְמוֹ שֶׁהֻקְדַּשׁ: וְאוֹכְלִין. בְּשַׁבָּת וְיוֹם טוֹב פֵּרוֹת שֶׁנִּמְצְאוּ תַּחַת הָאִילָן, וְלֹא נוֹדַע אִם נָשְׁרוּ מֵאֶמֶשׁ וְהֵם מֻתָּרִים, אוֹ נָשְׁרוּ הַיּוֹם וַאֲסוּרִים: וְנוֹתְנִים פֵּאָה לַיָּרָק. וַאֲנַן קָיְמָא לָן דְּכָל דָּבָר שֶׁאֵין אָדָם מַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם אֵינוֹ חַיָּב בְּפֵאָה, וְיָרָק דָּבָר שֶׁאֵין מַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם הוּא: וּמִחוּ בְיָדָם חֲכָמִים. מִשּׁוּם דְּקָא מַפְקְעֵי לַהּ מִן הַמַּעֲשֵׂר, וְהָעֲנִיִּים אוֹכְלִים אוֹתָהּ בְּטִבְלָם, כִּסְבוּרִין שֶׁהוּא פֵאָה, וּפֵאָה פְטוּרָה מִן הַמַּעֲשֵׂר מִשּׁוּם דְּהֶפְקֵר הִיא:

"Enxertam tamareiras" — enxerta um ramo tenro de uma tamareira macho numa tamareira fêmea, pois o macho produz frutos e a fêmea não. "E recitam o Shemá emendado" — pois não diziam "Baruch shem kevod malchuto le'olam va'ed" na leitura do Shemá.

"E colhem e empilham" — fazem uma pilha do grão novo antes do Omer, e não temem que se venha a comer dele. "Permitem comer os brotos de coisas consagradas" — o crescido que cresceu numa árvore consagrada, pois entendiam que só se proíbe o fruto que foi consagrado em si.

"E comem" — no shabat e no dia de festa, frutos encontrados sob a árvore, sem saber se caíram na véspera — e seriam permitidos — ou caíram no próprio dia — e seriam proibidos. "E dão peá à verdura" — e nós entendemos que tudo que a pessoa não guarda para conservação não é obrigado em peá, e a verdura é algo que não se guarda para conservação.

"E os Sábios protestaram contra eles" — porque isso a isenta do dízimo, e os pobres a comem sem separar o dízimo, pensando que é peá legítima — e a peá é isenta de dízimo por ser considerada bem abandonado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 55b-56a
מַתְנִיתִין וְאוֹכְלִין מִתַּחַת הַנְּשָׁרִין — תַּחַת הַדֶּקֶל הַמַּשִּׁיר פֵּרוֹתָיו הָיוּ אוֹכְלִין מִן הַנּוֹשְׁרוֹת, וְטַעְמָא דְּכֻלְּהוּ מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: וְנוֹתְנִין פֵּאָה לַיָּרָק, וְהוּא פָּטוּר מִן הַפֵּאָה כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: וּמִחוּ בְיָדָן — מִשּׁוּם דְּקָא מַפְקְעֵי לֵיהּ מִמַּעֲשֵׂר, שֶׁהָיוּ עֲנִיִּים אוֹכְלִים פֵּאָה בְּטִבְלָהּ, דְּסָבְרִין שֶׁהִיא פֵּאָה גְּמוּרָה, וְלֶקֶט שִׁכְחָה וּפֵאָה פְּטוּרִין מִן הַמַּעֲשֵׂר מִשּׁוּם דְּהֶפְקֵר נִינְהוּ:

"A mishná: e comem sob as árvores" — sob a tamareira que solta seus frutos, comiam dos que caíam; e o motivo de todas se explica na Guemará. "E dão peá à verdura" — e ela é isenta de peá, como se explica na Guemará.

"E protestaram contra eles" — porque isso a isenta do dízimo, pois os pobres comiam a peá ainda não decimada, pensando que era peá completa; e espigas esquecidas, restos da colheita e peá são isentos do dízimo por serem considerados bem abandonado.