Aquele que vai degolar seu Pessach, e circuncidar seu filho, e comer a refeição de noivado na casa de seu sogro, e se lembra que tem chametz dentro de sua casa: se pode voltar e remover e retomar sua mitsvá, que volte e remova. — A mishná trata de alguém que, na manhã do catorze de Nisan, já está a caminho de cumprir uma entre três obrigações importantes — degolar o cordeiro pascal, circuncidar seu filho, ou comer a refeição que segue o noivado na casa do sogro — quando de repente se lembra que deixou chametz em sua própria casa, ainda não removido. A primeira regra é simples: se o tempo disponível permitir que ele volte, remova o chametz, e ainda chegue a tempo de cumprir sua mitsvá original, ele deve fazer exatamente isso — voltar, remover, e só então prosseguir.
E se não, anule-o em seu coração. — Caso o tempo disponível não seja suficiente para uma viagem de ida e volta até em casa sem perder a oportunidade de cumprir a mitsvá original, a mishná oferece uma alternativa mais simples: basta que a pessoa declare mentalmente que renuncia à propriedade sobre esse chametz, considerando-o como pó sem valor algum. Essa anulação verbal e mental — sem qualquer ação física — já é suficiente, do ponto de vista bíblico, para satisfazer a obrigação de não possuir chametz, permitindo que ele prossiga sem interrupção rumo à sua mitsvá.
Para salvar de gentios, e do rio, e de assaltantes, e de incêndio, e de desmoronamento, anule em seu coração. E para descansar um descanso facultativo, volte imediatamente. — A mishná acrescenta dois casos-limite adicionais para esclarecer o princípio. Quando a pessoa está a caminho para salvar vidas ou bens de um perigo real e iminente — invasores, afogamento, bandidos, fogo ou desabamento —, ela deve apenas anular o chametz mentalmente e continuar seu caminho sem demora, mesmo que tecnicamente houvesse tempo de voltar, pois a urgência do resgate tem prioridade. Já no extremo oposto, se a pessoa está apenas caminhando para estabelecer um limite de "shevitá" facultativo — sem qualquer caráter de mitsvá ou urgência —, ela deve voltar imediatamente para remover o chametz, pois nesse caso não há nenhuma justificativa que permita a mera anulação mental em vez da remoção física.
A Guemará ensina que a obrigação bíblica de eliminar o chametz se cumpre plenamente com a "bitul" — a anulação mental de propriedade sobre ele — sem exigir necessariamente sua destruição física; a remoção física é, em sua essência, um reforço rabínico sobre a obrigação bíblica de anulação. É justamente essa base bíblica que sustenta toda a estrutura da mishná: como a bitul por si só já satisfaz a exigência da Torá, ela pode substituir a remoção física sempre que as circunstâncias — falta de tempo, urgência de resgate — tornarem essa remoção impraticável, sem que isso constitua transgressão da proibição de "não se verá contigo".
O Rambam codifica a mishná quase literalmente, confirmando que a anulação mental do chametz basta sempre que a remoção física interromperia o cumprimento de uma mitsvá ou de um resgate urgente.
Se estava indo degolar seu Pessach, ou circuncidar seu filho, ou comer a refeição de noivado na casa de seu sogro, e se lembrou de que tem chametz dentro de sua casa: se pode voltar e remover e retomar sua mitsvá dentro do dia, volte e remova. E se não, anula-o em seu coração e segue para sua mitsvá.
Rambam confirma que o caso se refere ao catorze de Nisan; Bartenura explica o caso do "shevitat reshut" e sua diferença em relação a uma shevitá de mitsvá; Rashi, na Guemará, esclarece os termos técnicos "yavtel belibo" e a base do princípio.
"Aquele que vai degolar seu Pessach, e circuncidar seu filho, etc.": tudo isso está explicado com toda a clareza.
"Aquele que vai" — refere-se ao catorze. "Se pode" — se há tempo disponível no dia.
"Anule em seu coração" — e não volte, mesmo que haja tempo, pois pela Torá basta a mera anulação. "E para descansar um descanso facultativo" — aquele que ia esperar o anoitecer no limite do território, para adquirir ali o direito de caminhar dali em diante dois mil côvados por questão facultativa, volte imediatamente. Mas para adquirir uma shevitá de mitsvá, é como aquele que vai degolar seu Pessach.
"Mishná: aquele que vai" — no catorze. "Se pode" — se há tempo disponível no dia. "Para salvar de gentios" — os israelitas perseguidos.
"Anule em seu coração" — e não volte, mesmo que haja tempo, pois pela Torá basta-lhe a mera anulação. Rashi enfatiza aqui o princípio central que sustenta toda a mishná: mesmo quando há tempo material para voltar, nos casos de resgate urgente a halachá dispensa a volta física, porque a anulação mental já é, por si só, suficiente segundo a lei da Torá — a remoção física sendo apenas um reforço rabínico posterior.