O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos. O pigul e o notar contaminam as mãos. — Assim como toda carne sacrificial que se torna “notar” — sobra proibida, por não ter sido comida dentro do prazo — ou “pigul” — invalidada por uma intenção incorreta no momento do sacrifício — contamina ritualmente as mãos de quem a toca, por decreto rabínico destinado a desencorajar a demora em consumi-la, o mesmo se aplica ao korban Pessach depois da meia-noite: como seu prazo bíblico de consumo termina à meia-noite, a carne que resta depois desse horário é tratada, para este efeito, como se já fosse notar.
Quem abençoou a bênção do Pessach isentou a do sacrifício; quem abençoou a do sacrifício não isentou a do Pessach — palavras de Rabi Yishmael. Rabi Akiva diz: nem esta isenta aquela, nem aquela isenta esta. — Quando, na mesma refeição, come-se tanto a carne do korban Pessach quanto a da chagigá — o sacrifício voluntário trazido junto com ele —, cada uma tem sua própria bênção específica de “comer o Pessach” e “comer o sacrifício”. Rabi Yishmael entende que existe uma relação assimétrica entre as duas: a bênção do Pessach, por sua maior importância e abrangência, isenta automaticamente a necessidade de recitar também a bênção sobre o sacrifício comum; mas o contrário não é verdadeiro — abençoar primeiro sobre o sacrifício comum não dispensa a bênção específica do Pessach. Rabi Akiva discorda dessa relação assimétrica: para ele, cada bênção é inteiramente independente da outra, e nenhuma delas jamais isenta a necessidade da outra, exigindo-se sempre as duas bênçãos separadamente.
É por meio da comparação entre as duas ocorrências da expressão “naquela noite” — uma referente à comida do Pessach, outra referente à passagem que feriu os primogênitos — que se deriva o horário limite de meia-noite para o consumo do korban Pessach. Como a tradição situa a própria praga dos primogênitos exatamente à meia-noite, essa mesma limitação temporal se aplica, por analogia textual, ao prazo de comer a carne do Pessach: o que resta depois desse horário passa à categoria de notar, e é sobre essa mesma base que a mishná — a última do tratado inteiro — estende a impureza ritual das mãos, decretada pelos sábios para toda carne sacrificial que se torna notar ou pigul, também à carne do Pessach que sobra além da meia-noite.
O Rambam, no Perush HaMishná, identifica o texto exato das duas bênçãos em disputa e confirma que a halachá segue Rabi Akiva — encerrando ali mesmo, nas suas próprias palavras, o comentário a todo o tratado Pessachim.
O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos etc.; quem abençoou a bênção do Pessach isentou a do sacrifício etc. E o “sacrifício” aqui mencionado é a chagigá do dia catorze, cuja menção já precedeu no sexto capítulo. E a expressão da Tosefta: qual é a bênção do Pessach? “Bendito És Tu, que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o Pessach.” E sobre o sacrifício: “Bendito És Tu, que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o sacrifício.” E a halachá é como Rabi Akiva. Aqui se conclui o Perush HaMishnayot do Rambam sobre o tratado Pessachim.
Bartenura deriva a fonte bíblica exata do horário de meia-noite e identifica o texto das duas bênçãos; Rashi, na Guemará, confirma o mesmo conteúdo da bênção do Pessach na última página do tratado.
“O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos” — pois já é notar a partir de meia-noite em diante, e os sábios decretaram sobre o notar que contamina as mãos, para que não se tornem negligentes quanto a comê-lo. E de onde sabemos que o Pessach depois de meia-noite é notar? Pois está escrito quanto ao Pessach “e comerão a carne naquela noite”, e está escrito ali “e passarei pela terra do Egito naquela noite” — assim como ali é até meia-noite, também aqui é até meia-noite.
“Bênção do Pessach” — “que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o Pessach”. “Bênção do sacrifício” — “que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o sacrifício”. E o “sacrifício” aqui mencionado é a chagigá do dia catorze. E a halachá é como Rabi Akiva.
“Mishná: bênção do Pessach” — sobre o comer do Pessach; “a do sacrifício” — a chagigá do dia catorze, e abençoa-se “sobre o comer do sacrifício pacífico”.