Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Yud (último) · Mishná 9 de 9 (última do tratado)

O Pessach depois da meia-noite; siyum de Massechet Pessachim

הַפֶּסַח אַחַר חֲצוֹת מְטַמֵּא אֶת הַיָּדָיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado inteiro fecha o Seder — e todo o tratado Pessachim — com duas leis técnicas finais sobre o korban Pessach: a impureza rabínica que recai sobre suas mãos depois de meia-noite, comparável à do pigul e do notar, e a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre se a bênção recitada sobre um sacrifício pode isentar a bênção devida sobre outro.

O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos. O pigul e o notar contaminam as mãos.Assim como toda carne sacrificial que se torna “notar” — sobra proibida, por não ter sido comida dentro do prazo — ou “pigul” — invalidada por uma intenção incorreta no momento do sacrifício — contamina ritualmente as mãos de quem a toca, por decreto rabínico destinado a desencorajar a demora em consumi-la, o mesmo se aplica ao korban Pessach depois da meia-noite: como seu prazo bíblico de consumo termina à meia-noite, a carne que resta depois desse horário é tratada, para este efeito, como se já fosse notar.

Quem abençoou a bênção do Pessach isentou a do sacrifício; quem abençoou a do sacrifício não isentou a do Pessach — palavras de Rabi Yishmael. Rabi Akiva diz: nem esta isenta aquela, nem aquela isenta esta.Quando, na mesma refeição, come-se tanto a carne do korban Pessach quanto a da chagigá — o sacrifício voluntário trazido junto com ele —, cada uma tem sua própria bênção específica de “comer o Pessach” e “comer o sacrifício”. Rabi Yishmael entende que existe uma relação assimétrica entre as duas: a bênção do Pessach, por sua maior importância e abrangência, isenta automaticamente a necessidade de recitar também a bênção sobre o sacrifício comum; mas o contrário não é verdadeiro — abençoar primeiro sobre o sacrifício comum não dispensa a bênção específica do Pessach. Rabi Akiva discorda dessa relação assimétrica: para ele, cada bênção é inteiramente independente da outra, e nenhuma delas jamais isenta a necessidade da outra, exigindo-se sempre as duas bênçãos separadamente.

הַפֶּסַח אַחַר חֲצוֹת, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדָיִם. הַפִּגּוּל וְהַנּוֹתָר, מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדָיִם. בֵּרַךְ בִּרְכַּת הַפֶּסַח פָּטַר אֶת שֶׁל זֶבַח. בֵּרַךְ אֶת שֶׁל זֶבַח, לֹא פָטַר אֶת שֶׁל פֶּסַח, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, לֹא זוֹ פוֹטֶרֶת זוֹ, וְלֹא זוֹ פוֹטֶרֶת זוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 12:8,12
וְאָכְלוּ אֶת הַבָּשָׂר בַּלַּיְלָה הַזֶּה, צְלִי אֵשׁ וּמַצּוֹת עַל מְרֹרִים יֹאכְלֻהוּ. ... וְעָבַרְתִּי בְאֶרֶץ מִצְרַיִם בַּלַּיְלָה הַזֶּה, וְהִכֵּיתִי כָל בְּכוֹר בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם.
E comerão a carne naquela noite, assada ao fogo; com matzot e ervas amargas a comerão. ... E passarei pela terra do Egito naquela noite, e ferirei todo primogênito na terra do Egito.

É por meio da comparação entre as duas ocorrências da expressão “naquela noite” — uma referente à comida do Pessach, outra referente à passagem que feriu os primogênitos — que se deriva o horário limite de meia-noite para o consumo do korban Pessach. Como a tradição situa a própria praga dos primogênitos exatamente à meia-noite, essa mesma limitação temporal se aplica, por analogia textual, ao prazo de comer a carne do Pessach: o que resta depois desse horário passa à categoria de notar, e é sobre essa mesma base que a mishná — a última do tratado inteiro — estende a impureza ritual das mãos, decretada pelos sábios para toda carne sacrificial que se torna notar ou pigul, também à carne do Pessach que sobra além da meia-noite.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, identifica o texto exato das duas bênçãos em disputa e confirma que a halachá segue Rabi Akiva — encerrando ali mesmo, nas suas próprias palavras, o comentário a todo o tratado Pessachim.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 10:9
הַפֶּסַח אַחַר חֲצוֹת מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם כוּ׳ בֵּרַךְ בִּרְכַּת הַפֶּסַח פָּטַר אֶת שֶׁל זֶבַח כוּ׳. וְהַזֶּבַח הַנִּזְכָּר בְּכָאן הוּא חֲגִיגַת יוֹם אַרְבָּעָה עָשָׂר, שֶׁקָּדַם זִכְרוֹ בַּפֶּרֶק הַשִּׁשִּׁי. וּלְשׁוֹן הַתּוֹסֶפְתָּא: אֵיזוֹ הִיא בִּרְכַּת הַפֶּסַח? בָּרוּךְ אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לֶאֱכֹל הַפֶּסַח. וְעַל הַזֶּבַח: בָּרוּךְ אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לֶאֱכֹל הַזֶּבַח. וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא. סְלִיק פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָיוֹת לְהָרַמְבַּ״ם מִמַּסֶּכֶת פְּסָחִים.

O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos etc.; quem abençoou a bênção do Pessach isentou a do sacrifício etc. E o “sacrifício” aqui mencionado é a chagigá do dia catorze, cuja menção já precedeu no sexto capítulo. E a expressão da Tosefta: qual é a bênção do Pessach? “Bendito És Tu, que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o Pessach.” E sobre o sacrifício: “Bendito És Tu, que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o sacrifício.” E a halachá é como Rabi Akiva. Aqui se conclui o Perush HaMishnayot do Rambam sobre o tratado Pessachim.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura deriva a fonte bíblica exata do horário de meia-noite e identifica o texto das duas bênçãos; Rashi, na Guemará, confirma o mesmo conteúdo da bênção do Pessach na última página do tratado.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 10:9
הַפֶּסַח אַחַר חֲצוֹת מְטַמֵּא אֶת הַיָּדָיִם. דְּהָא נוֹתָר הוּא מֵחֲצוֹת וָאֵילָךְ, וְרַבָּנָן גָּזְרוּ עַל הַנּוֹתָר שֶׁיְּטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְעַצְּלוּ בַּאֲכִילָתוֹ. וּמְנָלָן דְּפֶסַח לְאַחַר חֲצוֹת הָוֵי נוֹתָר? דִּכְתִיב בַּפֶּסַח וְאָכְלוּ אֶת הַבָּשָׂר בַּלַּיְלָה הַזֶּה, וּכְתִיב הָתָם וְעָבַרְתִּי בְאֶרֶץ מִצְרַיִם בַּלַּיְלָה הַזֶּה, מַה לְּהַלָּן עַד חֲצוֹת, אַף כָּאן עַד חֲצוֹת: בִּרְכַּת הַפֶּסַח. אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְּמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לֶאֱכֹל הַפֶּסַח. בִּרְכַּת הַזֶּבַח, אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְּמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ לֶאֱכֹל הַזֶּבַח. וְזֶבַח הָאָמוּר כָּאן הוּא חֲגִיגַת יוֹם אַרְבָּעָה עָשָׂר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

“O Pessach depois de meia-noite contamina as mãos” — pois já é notar a partir de meia-noite em diante, e os sábios decretaram sobre o notar que contamina as mãos, para que não se tornem negligentes quanto a comê-lo. E de onde sabemos que o Pessach depois de meia-noite é notar? Pois está escrito quanto ao Pessach “e comerão a carne naquela noite”, e está escrito ali “e passarei pela terra do Egito naquela noite” — assim como ali é até meia-noite, também aqui é até meia-noite.

“Bênção do Pessach” — “que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o Pessach”. “Bênção do sacrifício” — “que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou comer o sacrifício”. E o “sacrifício” aqui mencionado é a chagigá do dia catorze. E a halachá é como Rabi Akiva.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 121a
מַתְנִי' בִּרְכַּת הַפֶּסַח — עַל אֲכִילַת פְּסָחִים; עַל שֶׁל זֶבַח — חֲגִיגַת אַרְבָּעָה עָשָׂר, וּמְבָרְכִין עַל אֲכִילַת שְׁלָמִים.

“Mishná: bênção do Pessach” — sobre o comer do Pessach; “a do sacrifício” — a chagigá do dia catorze, e abençoa-se “sobre o comer do sacrifício pacífico”.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דִּפְסָחִים
Aqui se conclui Massechet Pessachim — o terceiro tratado de Seder Moed, dedicado às leis da festa de Pessach: a busca e queima do chametz, o korban Pessach e a noite do Seder. O Perek Yud, último do tratado, com nove mishnayot, percorreu a ordem completa do Seder: os preparativos na véspera, com a proibição de comer perto do horário de minchá e a garantia dos quatro copos mesmo ao mais pobre (10:1); a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre a ordem das bênçãos no primeiro copo (10:2); o primeiro molho de vegetais e a chegada da matzá, do maror e do charosset à mesa (10:3); o segundo copo, as quatro perguntas do Ma Nishtaná e o princípio de começar pelo desprezo e terminar pelo louvor (10:4); o ensinamento de Rabban Gamliel sobre os três nomes — Pessach, matzá e maror — e a obrigação de cada pessoa se ver como se tivesse saído do Egito (10:5); até onde se recita o Halel antes da refeição, e a disputa sobre o selo da bênção de redenção (10:6); o terceiro copo com o Birkat HaMazon e o quarto com a conclusão do Halel (10:7); a proibição de encerrar a comida do Pessach com sobremesa, e o que ocorre quando o grupo adormece (10:8); e, por fim, esta última mishná, sobre a impureza do Pessach depois da meia-noite e a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre as bênçãos do Pessach e do sacrifício.

Massechet Pessachim percorreu, ao longo de seus dez capítulos e oitenta e nove mishnayot, todo o ciclo da festa: a busca e os horários de queima do chametz (Perek Alef); os horários finais de seu uso e as espécies de matzá e maror (Perek Bet); as misturas de chametz e os cuidados no preparo da massa (Perek Guimel); o princípio do minhag hamakom e os costumes dos homens de Jericó (Perek Dalet); os horários e o cerimonial do abate do korban Pessach no Templo (Perek Hei); o que exatamente afasta o Shabat no korban Pessach (Perek Vav); o preparo e consumo do korban, o maior perek do tratado (Perek Zayin); as designações incertas ou disputadas do Pessach (Perek Chet); o instituto do Pessach Sheni e os korbanot perdidos ou misturados (Perek Tet); e, por fim, este último perek, com a ordem completa do Seder da noite de Pessach (Perek Yud). Por possuir Guemará completa e extensa no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado pôde reunir, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, também Rashi, o comentador clássico da Guemará — três vozes complementares da tradição em cada página.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed, que continuam o tema dos tempos sagrados: Shekalim, Yoma, Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico.